Utopias: A Viagem do transglebano

Há muita pedra incômoda sobre as ruas, sobre a vida da comunidade parintinense atrapalhando os sonhos de um desenvolvimento humano, digno e saudável. 

Compartilhe:

O que mantém a história viva são registros de memórias cultivados em compromissos militantes com propósitos de (re) significar e /ou de reinventar a vida. A propósito do argumento, os ditos novos tempos têm experienciado vazios de temáticas inovadoras, provocadoras a ações interventivas.

Nesse sentido, o romancista, artista plástico argentino, Ernesto Sabato, Prêmio Cervantes de Literatura, falecido aos 99 anos, quando questionado do porquê de seu recolhimento como escritor, responde: Tudo o que tinha pra dizer já disse… Realmente, os discursos tornaram-se repetitivos e até desinteressantes. É como se a vida tivesse estagnado.

Acrescente-se: no cotidiano das informações que nos chegam a mesmice noticiosa lidera redes sociais e a maioria dos meios de comunicação: a lógica mercantil colocou o mundo e sua práxis num círculo vicioso cuja dinâmica gira em torno de si mesma inibindo despertares interativos.

Na contramão deste gira mundo viciado e vicioso, as velhas e sempre atuais cafuas abrigam arquivos indeléveis bem protegidos de assaltos e das conhecidas virulências sistêmicas. Foi numa dessas buscas por temáticas instigantes que minha sagrada, leal cafua me trouxera a memória do Professor Heliomar Conceição – parintinense, companheiro de utopias e de tantas investidas militantes. Para os velhos companheiros de estrada e de história era o Sêo Liumar.

Findava o ano de 1999. O mundo se preparava para receber o século XXI. Eram incontáveis e inimagináveis os sonhos cidadãos por mudanças estruturais no perfil do Estado Democrático de Direito: vícios, mamatas, corrupções – todo o conjunto de malefícios contrastando às garantias e direitos fundamentais à vida com dignidade.

Tal qual o aqui e o agora, era esse o painel da conjuntura político administrativa, dita republicana; o democracídio apresentava-se o carro-chefe das últimas eleições no País. Em algumas freguesias, como Parintins/AM, observaram- se discretas e duvidosas mudanças no velho elenco circense. Mudanças significativas??? Temos dúvidas. Na época, porém, representavam sinais, pequenas brechas para o ensaio de outras experiências políticas menos viciadas, embora herdeiras de manias similares.

A quebra de velhos esquemas que dominavam os resultados das eleições, ou ainda, a alternância de novos mecanismos de poder, mesmo que não alcançassem o esperado, nos levavam a crer na possibilidade, ainda que remota, de que a consciência do miserável votante já não estava de todo amarrada no estômago. Na verdade, imaginávamos: a massa cansou das manobras que sempre levavam ao mesmo lugar e, por conta da fadiga, pulará a cerca. Em princípio, quebrara-se um império; mais uma dinastia enfraquecida – uma pedra a menos no caminho da comunidade.

A presente memória resgatada do extinto semanário, O Parintins, (década de1980) ressuscita a competência literária interventiva de Hélio Omar Conceição, certamente já esquecida ou até mesmo desconhecida para o público jovem. Em uma de suas crônicas – A Viagem do transglebano, Hélio traçou uma profecia sobre o destino político administrativo de Parintins. Na época, o jogo político parintinista verbostejava-se entre os clãs Reis e Gonçalves. (Mas bem, deixem que os mortos enterrem seus mortos e embarquemos no transglebano do Sêo Liumar).

Nos relatos de Hélio, esse coletivo era o meio de transporte dos cabocos da zona rural do Município; era o espaço ideal para as necessidades de locomoção dos trabalhadores rurais da gleba Vila Amazônia – maior colégio eleitoral do interior de Parintins. O transglebano não servia apenas como condutor de produtos agrícolas e de trabalhadores rurais, também transportava inquietações, sonhos, frustrações, descontrações, oportunidades para prosas, causos, fuxicos, paqueras e discussões mais sérias, como as que envolviam a administração pública municipal. Enfim, foi numa dessas viagens, que os tribunos itinerantes viajaram na utopia de eleger para prefeito de Parintins alguém que falasse a mesma língua dos pequenos produtores da Gleba. Pensavam na inversão da pirâmide: os de baixo para cima e os de cima para baixo. Para tanto, idealizavam um da Silva, haja vista a ligação semântica com a selva, com a natureza e etc. Reis e Gonçalves já eram! Nem mais pensar!

Finda 2021. A profecia de Hélio Omar não se cumpriu. O da Silva que ocupou o trono da freguesia em substituição ao surrado clã, nada a ver! Os legítimos da Silva nem de longe se atrevem à concorrência eleitoreira. A escassa produção agrícola mal dá para tapar o buraco do dente; muito menos comprar voto… Sêo Liumar alertava também à companheirada sobre o perigo dos aliancismos, das coligações a que chamava de aculhiações cujo propósito é o domínio sobre grupos políticos mais vulneráveis.

A ficção construída durante a Viagem do transglebano, há mais de 20 anos, até hoje não se materializou. Parintins apenas trocou Gonçalves por Garcia… Plagiando Drummond, há muita pedra incômoda sobre as ruas, sobre a vida da comunidade parintinense atrapalhando os sonhos de um desenvolvimento humano, digno e saudável.

Em remate, os registros aqui compartilhados são memórias e ao mesmo tempo desafios para tempos incógnitos, haja vista, conforme anúncios do Educador Paulo Freire, a história é tempo de possibilidades.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.