Sucuyê Wera: o encantamento de Honorato.

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Diz a lenda que, não faz muito tempo, uma bela virgem sateré-mawé foi se banhar no rio. De repente, sob o sol escaldante, mesmo com corpo dentro d’água, ela percebeu que seu corpo suava e expelia uma secreção gosmenta. Ela não sabia dizer o que estava lhe ocorrendo.

À noite, em sua maquira, sentiu dor de cabeça e febre, contorceu-se e vomitou.

Quando a lua despontou sobre a mata e se refletiu nas águas do rio Andirá, ela correu no rumo do porto, totalmente nua e descontrolada, com a intenção de se jogar na água.

Seus irmãos, diante dessa situação, a seguraram e a amarram à rede. Chamaram o velho paini, que vibrando seu inhambé a envolveu com o fumo sagrado do tauari. Mas a mandinga não se desfez. Ela continuava com as contorções e com dor de cabeça.

Após duas luas sua barriga começou a crescer e foi diagnosticada pela parteira da aldeia: a virgem estava grávida.

Seu pai era o tuissah mais importante da aldeia, do clã Saterê, e impôs sua vontade: sua filha mesmo virgem e sem marido ficara grávida, magicamente, por força dos espíritos das águas. E os comunitários, por respeito ao velho líder, decidiram não contestar sua decisão.

Quando completou nove luas, a moça entrou em trabalho de parto.

Chamaram a parteira para ajudá-la a dar à luz a um novo ser. O parto correu normalmente, mas a parteira ficou chocada e chorosa com o que viu: duas crianças, um menino e uma menina, que se contorciam como cobras, possuíam os olhos ofídicos e as línguas bipartidas. E não choraram na primeira respiração.

A jovem mãe, a despeito de todos os pedidos para que ela praticar o infanticídio, decidiu que as duas crianças deveriam viver. E com a ajuda do seu pai, nominou as crianças: o menino chamou-se Honorato e a menina, Caninana.

O pajé foi chamado para benzer as crianças. No ápice da benzição o céu se vestiu de escuro, uma grande chuva com trovoada caiu sobre a aldeia. As crianças deram os primeiros gemidos, mas muito diferente dos emitidos por bebês humanos – esses mas que pareciam silvos de bichos silvestres, de alguma cobra, talvez.

 

Vocabulário

Paini – pajé ou xamã, língua Maweriah;

Inhambé – maracá, língua Maweriah;

Tauari – entrecasca vegetal que serve para envolver o cigarro para as benzeduras dos pajés.

Lua – mês lunar indígena;

Tuissah – cacique ou tuxaua, língua Maweriah;

Maquira – rede, língua Tupi;

Obs.: O infanticídio  era uma prática antiga dos povos indígenas, que ao constatar doença incurável ou grave imperfeição física no recém-nascido, tiraram-lhe a vida após o parto.

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