Escritoras e escritores revelam porque escrevem para crianças

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As escritoras Alessandra Leite e Leyla Leong, e os escritores Almerindo Rosas, Elson Farias, Raimundo Nogueira, Zemaria Pinto e Wilson Nogueira revelam as motivações que o(a)s levam a escrever para o público infantojuvenil.

O(a)s sete escritore(a)s têm em comum o fato de inserir o imaginário e o ambiente sociocultural amazônicos nas tramas das suas narrativas.

Há entre eles, também, o propósito de estabelecer o diálogo entre as literaturas local e universal, no qual o protagonista daqui é o legado ancestral amazônico das histórias que envolvem lendas, folclore e mitos.

Confira:

“Procuro escrever pensando […] na inteligência e na perspicácia das crianças” (Alessandra Leite)

Não sei dizer claramente os motivos que me levam a “escrever para crianças”. Não é algo planejado, do tipo: vou escrever esse para criança e outras, para adultos. As histórias simplesmente nascem e estão em um contexto de literatura infantojuvenil.

No primeiro livro, O leão e a libélula, confesso que tive muitas preocupações em relação ao aspecto pedagógico da obra, as “lições” que os leitores poderiam tirar daquela história, o fundo moral… Hoje eu penso menos nisso. Talvez nem pense mais.

Procuro escrever pensando na literatura, na qualidade do texto, na inteligência e perspicácia das crianças, no quanto os personagens e suas aventuras vão crescer na imaginação de cada leitor, despertando curiosidades e formando alguém interessado em livros.

Penso que o ponto é este: incentivar os pequenos a gostar de ler desde sempre, pois só assim gostarão de ler em todas as fases da vida. Um erro que já cometi e ainda cometo – pois é preciso se policiar sempre quanto a isso – é tentar explicar demais os enredos.

Precisamos ter a responsabilidade, enquanto autores que ousam escrever para esse público tão sagaz que é o infanto-juvenil, de deixar em aberto o espaço para as incursões, para as reflexões e para o encantamento de se descobrir em um livro.

Já tive alguns retornos em relação à “Emma” e tenho ficado contente de saber que as crianças ficam inquietas e curiosas sobre os seres mitológicos, sobre as peculiaridades da cosmologia indígena e até me pedem para escrever mais aventuras para Emma e Pedro, por exemplo. Isso é muito gostoso.

Outro retorno legal que tive foi o de uma criança que perguntou ao pai se o Curupira podia ir também visitar a escola dela. Esse é o barato da coisa. Isso é o que me faz continuar. Não descarto escrever para outros públicos, mas a escritura para a criança é desafiadora, é encantadora e encontra um solo fértil para fazer brotar tantos sonhos, mundos, inteligências, aptidões.

Lembro de Saramago dizendo que não sabia escrever para criança. Eu também não sei. Vou aprendendo e arriscando a cada nova história que nasce aqui dentro.

Livros publicados: O leão e a libélula e Emma e a estrela das águas (Valer)

E imaginei que as crianças em sua pureza e inocência poderiam ser o elemento transformador. 

A escrita sempre foi um dos meus encantos desde criança. Antes disso, narrava, oralmente, as histórias inventadas no quintal de casa, observando as formigas, os pássaros e sobretudo as nuvens que contam histórias no céu.

Quando publiquei meu primeiro livro Essa tal de Natureza, já tinha sido “batizada” pelo Clube da Madrugada com o Prêmio Mulateiro, um passaporte para viajar pelas letras com uma certa segurança.

Na década 1970, estudante de Jornalismo e viajante pelo chamado primeiro mundo onde explodiam movimentos pela liberdade de expressão, pelos direitos civis e pela preservação da Natureza, engajei-me nessas ideias que vieram a consolidar-se com o alumbramento da leitura do livro de Henry David Thoreau,  Walden ou a Vida nos Bosques.

Diante da autodestruição da alma humana e das coisas mais belas que existiam na face da Terra por meus antepassados, e da continuidade das ações danosas dos meus contemporâneos percebi que só formando uma nova mentalidade a vida em harmonia poderia ainda ser salva.

E imaginei que as crianças em sua pureza e inocência poderiam ser o elemento transformador.

Então criei um texto em defesa da natureza, que em vez de buscar e condenar culpados, exaltasse a beleza e importância da preservação. Assim, uma jacinta e um pássaro tornaram-se porta-vozes da minha mensagem.

Tenho dado continuidade ao tema em alguns do meus outros livros, sem perder a esperança, mesmo diante das mais cruéis evidências.

Leyla Leong

Livros publicados: Essa tal de natureza; Cida: a macaca travessa; Duas histórias da noite  e O segredo da Velha (Valer)

“Assim resolvi dedicar mais tempo do meu trabalho com o gênero [literário]”. (Elson Farias)

Meu interesse na literatura infantojuvenil nasceu com as minhas primeiras leituras. As histórias de Monteiro Lobato, da Dona Benta e da Carochinha.

Li também a História Sagrada, um livro elaborado pelos educadores salesianos, para iniciar as crianças na religião. Achei fantástica a vida dos santos, como se fosse alguma coisa acontecida no mundo da ficção.

As histórias de Monteiro Lobato eram divertidas e muito instrutivas como o Emília no país da gramática.

Na página literária dominical, mantida pelo Clube da Madrugada por 10 anos em O Jornal de Manaus, cheguei a publicar cinco histórias do gênero.

Depois, com a intensificação de minha atividade de escritor, nos encontros de
professores e alunos nas escolas de ensino fundamental em Manaus, fui
solicitado a escrever para crianças, visto a carência de livros que falassem de nossa vida na Amazônia.

O que se via eram livros cuidando de outras paisagens e costumes, até de autores estrangeiros bem traduzidos, mas sempre divorciados dos motivos ligados ao homem, os rios e a floresta de nossa terra.

Assim resolvi dedicar mais tempo do meu trabalho com o gênero e, confesso, tenho colhido bons frutos materializados no carinho dos pequenos leitores.

Livros publicados: As aventuras de Zezé (Col. com 30 livros), A buzina encantada; A feiticeira maravilhosa e A borboleta amarela (Valer).

“[…] se você quer ensinar algo importante, que seja lembrado muito tempo depois, conte uma história.”

Se desejamos construir uma sociedade mais fraterna, mais solidária, menos violenta, menos excludente, devemos começar pela educação das crianças. Embora seja a principal agência de ensino, a escola, isoladamente, não é a única instância social encarregada de educar as novas gerações. A sociedade se educa e se recicla através de diferentes instâncias.

A cultura é uma delas: a música, o folclore, a dança, o cinema, as artes plásticas, a literatura.

Desde muito cedo, percebi, no exercício do magistério, que crianças e adolescente assimilam melhor um determinado tema ou conteúdo quando associado a uma narrativa, a uma história.

Certa vez, em sala de aula, recitei um poema de minha autoria e contei para os alunos a história de como surgiu o texto.

Muitos anos depois, um jovem me parou na rua e recitou o poema inteiro e me disse que tinha memorizado por causa da história que eu havia contado.

Então eu concluí: se você quer ensinar algo importante, que seja lembrado muito tempo depois, conte uma história.

Tenho isso em mente quando escrevo para crianças e adolescentes. Meus textos não são apenas narrativas em si mesmas, mas narrativas que carregam em si temas como a violência doméstica, a relação com o meio-ambiente, a cidadania proativa, enfim, textos que provocam reflexão e exigem tomada de posição do leitor.

Crianças vivem uma fase crucial da vida: a fase de construção do pensamento e de suas interações com o mundo exterior.

Raimundo Nogueira

Livros publicados: A força do jacaré ou A onça não é o bicho (Valer) e O rude caçador ou a onça não é tão selvagem (Valer)

“A leitura, sabemos, nos faz despertar para as vivências (…]”. (José Almerindo A. da Rosa)

Tentar escrever para a turma jovem é tentar levar um pedacinho de mundo a fim de despertar outras ideias em seu viver. A leitura, sabemos, nos faz despertar para as vivências, para as alegrias, para as tristezas, as angústias.

O ser humano, por natureza, gosta de ouvir estórias ou histórias. Desde o ambiente infantil ao adulto somos envolvidos por narrativas.

Seja uma simples piada, uma lenda ou um grande romance. Estamos prontos para ouvir ou ler. Este é o mundo que pretendemos oferecer aos jovens leitores e assim prepará-los um pouco para o viver.

Livro publicado: A faca e a vaca (Valer)

[…] penso que escrevemos para quem seleciona os livros que as crianças vão ler […]

A criança é um adulto em formação. É pensando nessa condição – a crisálida mudando-se em borboleta – que escrevo para crianças, buscando passar valores universais, como igualdade, fraternidade, solidariedade, liberdade de pensamento – e disciplina.

No fundo, penso que escrevemos para quem seleciona os livros que as crianças vão ler ou que alguém vai ler para elas: os pais, tios, avós, professores…

Na essência, considero que temos uma responsabilidade pedagógica, no sentido em ensinava Paulo Freire: é preciso educar as crianças, pois são elas que vão cuidar desse mundo conturbado que estamos deixando para elas.

Zemaria Pinto

Livros publicados: O urubu albino, A cidade perdida do meninos peixes; Viagens na casa do meu avô; e O Beija-flor e o gavião (Valer)

“Quando escrevo, coloco sempre em diálogo os meus antigos e novos mestres […].” (Wilson Nogueira) 

Digo direi sempre: “Não sou um escritor, sou um contador de histórias”. Inicie-me no ofício, na condição de aprendiz, desde criança, nas conversas do começo de noite dos meus avós, tios e vizinhos. A escrita é o meio que uso para seguir o ofício dos meus ancestrais.

Contar histórias para crianças é sempre um desafio. É preciso escolher muito bem as palavras, as figuras de linguagens, as cenas e os cenários. Eu gosto de ser desafiado. Quando escrevo, coloco sempre em diálogo os meus antigos e novos mestres, e assim consigo afetar (com afeto) as novas gerações. E assim a contação das histórias do mundo e do universo continuam.

Livros publicados: Órfãos das águas e Formosa: a sementinha voadora (Valer)

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