Escritos da planície: Com os parentes, com minhas travessuras (2).

"Escritos da planície" é um textão que, também, pretendo publicar em livro. Enquanto isso, quero compartilhar com leitores das redes sociais os trechos que considero prontos para receberem avaliação crítica. As postagens não obedecerão a uma sequência igual a de capítulos. Serão fragmentos que indicarão prováveis percursos da narrativa em construção. Agora é só conferir:

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Outros episódios da idade escolar estão bem vivos na memória. Para que eu pudesse continuar estudando, a mamãe me entregou a parentes. Mas essa estratégia não deu certo. Eu nunca me entreguei a regras. Na casa da minha tia Elba, minha madrinha, eu acordava por volta das quatro horas: engraxava os sapatos dos primos, que trabalhavam e estudavam, lavava as caneletas do quintal, os sanitários, ariava as panelas da doceria e, às sete horas, colocava o tabuleiro de doces na cabeça e corria atrás da freguesia.

Uma vez por semana encerava o assoalho de madeira da casa. Esse era o trabalho mais terrível, porque o odor da cera Cachopa avermelhada me causava uma dor de cabeça infernal. À tarde eu estudava. Tenho boas lembranças dos primos Aldenor e Ademir, da Elbanora, da Eleonora, da Aldemira  e da Elbamira. A Eleonora me ajudava a fazer as tarefas da escola, e eu me sentia diante da maior ininteligência do mundo.

Passei pouco tempo na casa da tia Elba. Penso que não conclui uma temporada escolar. Não me acostumei com o volume de trabalho, com a rigidez das regras da casa. Os tios, Elba e Aldenor Saunier, certamente me acharam muito estranho, problemático e quem sabe até um desajustado incorrigível.

Em uma bela manhã, depois de ter sido maltratado pela prima Elbanora, durante o enceramento do seu quarto, praguejei contra ela, pulei o muro e fugi. A titia foi até a mamãe, para pedir que eu voltasse, mas me recusei. Rio até hoje das minhas travessuras na casa da tia Elba.

Sinto calafrios quando me vejo caindo com bicicleta e tudo na ribanceira do rio Amazonas, no meio de pedras afiadas. Quis aprender a andar de bicicleta sozinho e me enfiei barranco abaixo na primeira tentativa. Subi com a bicicleta – a qual havia retirado da casa sem permissão – no ombro, mas, bastante ferido, abriguei-me na rede de dormir. Fui localizado, pela titia, ardendo em febre, porém, antes de ser medicado levei umas palmadas e um sermão de barranco.

Os doces que a tia fazia para vender eram muito apreciados. Eu gostava de um feito da casca de laranja da terra. Não lembro o nome nem guardo a receita da iguaria. Além de deliciosos, esses doces possuíam uma belíssima apresentação e poderoso cheiro.

Tirada a casca com a resina, sobrava a massa grossa que protege os gomos da fruta. Pois é dessa segunda camada que se faz o doce de laranja da terra, cujo confeite lhe dá a forma de uma flor se abrindo. Os tabuleiros com esses doces parecem jardins floridos. Degustei-os somente nessa época, o suficiente para tê-los para sempre em imagem, sabor, cheiro e textura.

Morei, também, com a minha tia Nilce, a caçula das irmãs da mamãe. Tia Nilce, falecida em 2019, aos 80 anos, deixou viúvo Élcio Martins, 80 anos, um boto vermelho descendente de portugueses. Parte da minha adolescência vivi e convivi, entre idas e vindas, com o casal e seus filhos: Elcirene, Elcirema, Edma, Kedna, Ilmar e Élcio Filho. Minhas primas-irmãs e meus primos-irmãos. Juntos, formávamos uma turma da pesada.

O casal, com a chegada das primeiras crianças, migrou da agricultura para o comércio, para que os filhos e filhas pudessem estudar. Tia Nilce armou uma banquinha de guloseimas na beirada do lado direito da Baixa da Xanda, próxima ao barracão do Garantido. A banquinha se transformou em quiosque, e logo em uma mercearia, com uma casa de morada ao lado.

Morei com eles na Baixa da Xanda, onde mantiveram por décadas uma mercearia sortida e movimentada. Vendiam secos e molhados e compravam produtos da agricultura e da pesca: juta, melancia, jerimum, pirarucu, peixe liso, capivara, carne e couro de jacaré.

 Parte dos clientes era aviada pelo casal, assim como se fazia no seringal. O cliente se abastece de mercadorias básicas, açúcar, café, sal, feijão, arroz, bolachas etc. e pagava com a entrega dos seus produtos ao aviador.

Minhas tarefas na casa: acordava para receber o padeiro, lá pelas quatro da manhã, e abria mercearia para os primeiros fregueses, geralmente pescadores, que partiam ou chegavam. O tio e a tia chegavam por volta das seis da manhã, para assumir a jornada que ia até as dezenove ou vinte horas.

A tia baixava uma lista de tarefas para cada uma das filhas mais velhas e para mim. Assim, nesse rodízio, eu limpava banheiro, lavava louças e tratava da secagem das postas de pirarucu e da carne de couro de jacarés. Esse trabalho começava lá pelas oito horas e se estendia até ao meio-dia. Uma hora da tarde eu já estava na escola São José Operário.

Peguei safras com muitas postas e couro para secar. As maiores dificuldade desse trabalho eram espantar os enxames de mosca em desova e recolher as carnes e o couro às pressas quando chovia repentinamente. Não havia banho com sabonete Phebo que tirasse o pitiú do corpo. Havia dias que era flagrante o desconforto dos colegas de sala de aula mais próximos.

O Ilmar, quando mais taludo, ainda se embolou com carne de pirarucu, carne e couro de jacaré. As meninas sempre encontravam um jeito de driblar “a velha Nilce”, como chamávamos a titia, embora, naquela época, ela ainda fosse muito jovem. As cunhantãs sempre recorriam à ajuda da dona Raimunda do Zé do Baladeira, que arrumava a casa e fazia comida. A tia, a meu ver, fazia vistas grosas para essas artimanhas.

Mesmo bastante atarefado eu não deixava de fazer as minhas estripulias. Nas raras folgas, pulava n´água, que é o mesmo que brincar na água, ou corria entre os quintais, jogando manja ou barra-bandeira. Era tudo o que a tia Nilce não suportava. E assim ela estava sempre no meu encalço.

Certa vez, eu corria através do plantio de juta, nos fundos da Baixa, e cortei com caco de vidro a palma do pé esquerdo. Corte profundo que expôs um tendão. Pedi para os meus colegas não me levarem para casa, senão levaria algumas bordoadas da titia. Refugiei-me na casa do seu Abimael Brelaz, o dono da serraria, acobertado pelo meu amiguinho Adson Brelaz.

Como o golpe não parava de sangrar, resolvemos, eu e ele, fazer uma sutura. Ele acendeu uma lamparina a querosene, passou uma agulha de costura na chama, enfiou a linha de carretel, e me perguntou: “Aguenta?”. Balancei a cabeça confirmando e ele coseu o ferimento em zigue-zague. Foi como o sangue parou de jorrar. Fiquei por ali mesmo esperando a dor passar, para chegar em casa à francesa.

Mas não demorou e lá vem a “Velha Nilce” com um cabo de vassoura na mão.

  Já pra casa! Já sei o que aconteceu!”.

O Adson atalhou:

– Não, dona Nilce, ele não pode ir agora. Só depois. Ele acabou de ser operado.

Foi então que a tia atravessou pela frente do coleguinha e pôs o olho no meu pé, todo embrulhado com esparadrapo. Imaginando que o médico estivesse blefando, ela desatou as fitas de esparadrapo que cobriam o ferimento e quando se deparou com os pontos, teve um excesso de de riso que nos contaminou. Passamos alguns segundos rindo à beça.

Ela mesma me pegou pelos braços e me levou para casa e, já no caminho, contava aos vizinhos, orgulhosa, do nosso feito. Virei atração na mercearia. De vez em quando ela me chamava para mostra o pé costurado a algum incrédulo. E ela ainda dizia que havíamos feito tudo certinho, inclusive esterilizado a agulha. Não tive intercorrência e eu mesmo retirei os pontos. Só passei alguns meses com a palma do pé adormecida. 

       A titia, principalmente ela, não nos dava sossego.

Eu e a Elcirene começamos a namorar na mesma época, por volta dos dezesseis anos. Eu namorava com a prima do namorado dela, então éramos cúmplices em nossas escapulidas. Inventamos, para sairmos e chegar juntos em casa, assim como os tios queriam, um curso de língua inglesa à noite. Mas a determinação dos tios era clara: nem um minuto a mais após o encerramento das aulas.

E assim curso ia correndo às mil maravilhas. Saíamos alguns minutos antes para namorar. Permanecíamos ali por perto da escola, em frente à Igreja de São José Operário, para observar a saída dos colegas. Mas, certo dia, negligenciamos a hora do retorno e fomos surpreendidos com o tio Élcio em sua Honda setenta, a Ninja, atravessando a praça para avistar a escola, que, à essa altura, já estava com as luzes apagadas.

Não havia outra saída, os casais de namorados se enroscaram para dificultar o reconhecimento, enquanto o motoqueiro vigilante fazia o retorno para casa. Assim que ele desapareceu na esquina, apressamos os passos e quase chegávamos juntos. Pegamos o nosso ralho e fomos dormir, certos de que o nosso sonho de falar inglês, naquele momento, estava interrompido.

No outro dia, logo cedo, apareceu na mercearia o saudoso padre Vitório, pároco de São José Operário. Veio pedir cipó titica para amarrar o cercado da horta dos hansenianos da Ilha da Paz, no lago do Aninga.

O padre mal terminou de fazer o pedido, e o tio Élcio, enrubescido como boto vermelho, se adiantou:

– Eu atendo o seu pedido, mas o senhor vai atender o meu: Padre o senhor tem que acabar com essa pouca vergonha que virou a frente da Igreja de São José Operário. Padre, passei por lá ontem, à noite, e vi dois casais que, sinceramente, padre, não dá pra não dizer que estavam fazendo outra coisa….

A tia Nilce cortou e aparou o delator ainda no ar:

– Alto lá, Élcio, tem crianças na mercearia.

O padre, depois de jogar algumas rodas de cipó no porta-malas do carro, prometeu que, ele mesmo, faria uma ronda depois que rezasse a missa.

Não olhei para a Elcirene nem ela pra mim, mas o susto foi grande.

[…]

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