O tamanho da crise e da insensatez

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Semana recheada: o Governo Federal sanciona o corte da verba para a ciência; a CPI fecha o relatório e crava a tipificação dos crimes dos indiciados; a bolsa nervosa vira tobogã da economia, onde escorrega a inflação galopante; o embate entre Ministério Público e Congresso, que certamente será judicializado; o Auxílio Emergencial vira moeda eleitoral; um senador poderoso faz da indicação ao Supremo Tribunal Federal uma almofada e senta-se em cima, acirrando a briga com os evangélicos; um pecador confesso, suspeito de ter cometido sacrilégio, gera protesto de milhares de romeiros que purgam pecados ou agradecem por graças recebidas e aprofunda o “racha” entre católicos.

E ainda acham pouco?

Pois é, não fica só por aí não: por causa de dois casos de epidemia da “vaca louca” e rescaldos da concorrência do 5G, a China cessou a importação de carne de boi há quase dois meses; para compensar, a turma do agronegócio, associada aos açougueiros, aumentou o preço do quilo do osso; as projeções de inflação futura pularam para perto de 10%; a OCDE cobrou do Brasil mais controle sobre a corrupção; a Anistia Internacional, que avalia o trato com os Direitos Humanos, juntou-se aos organismos que monitoram a Questão Ambiental e fomos parar na “rabeta” dos escores mundiais. Tem mais coisas, mas exorto a cada um para que olhe em seu derredor e acrescente o que falta, pois o parágrafo está longo demais.

Esta é a catilinária sobre a crise que se abate sobre nós. A verdade dos fatos é mais cruel. As estatísticas podem não ser verdadeiras, exceto as de Paquetá, onde o IBGE simulou o esboço do censo de 2020 a ser feito em 22, mas São Paulo, o estado mais rico do país, anuncia a presença de 60 mil famílias vivendo nas ruas, sem eira nem beira.

A crise é sistêmica!

Muitos usam essa expressão para não ter que explicar mais nada e eximir-se de culpa. O sistema não é essa coisa abstrata, invisível. Ele existe e todos nós fazemos parte dele. Não é um monte de ferro velho num canto, que de repente vira um monstro e sai andando. Ele é virtual e é real, composto por nossas consciências, por nossas práticas, por nossas escolhas, por nossas omissões. Está grudado na nossa pele, na luz dos nossos olhos, nas veredas do nosso mundinho. Poderíamos compará-lo cientificamente como um rizoma, para não usar exemplos tristes, uma grande plantação de batatas-doces, que vai se ramificando, que vai gerando troncos que se multiplicam em outros, gerando milhares de batatas-doces, independente das fronteiras territoriais ou cercas.

O sistema do qual falamos tem muitas características visíveis: na lista da Forbes, com os mais ricos do mundo, figuram ricos originários de países pobres ou miseráveis; multiplicam-se os “paraísos fiscais” para esconder a “dinheirama” toda, sempre opaca quando não escusa, fugindo das crises do capitalismo e dos impostos.

As classes trabalhadoras, empobrecidas pelo emprego das tecnologias e dos desmontes das conquistas trabalhistas no processo de globalização econômica, enveredam pelo “nativismo”; esse fato gera ódios na forma de xenofobia e o apego a questões identitárias que pareciam aplainadas pelo processo civilizatório.

Partidos Políticos e agremiações diversas já não mais representam seus adeptos: partidos de esquerda unidos a propostas de grupos de extrema direita e vice-versa; times de futebol, que viraram empresas, comprados por magnatas que matam e dissolvem jornalistas e ainda sustentam as ditaduras mais opressivas do mundo; confrarias que se rendem aos patrocínios do marketing.

Incrédulos dizem que tudo isso é saudosismo. De quê? De quem? Outros dirão que “não cai um só fio de cabelo da cabeça dos homens que não seja pela vontade de Deus”; outros, ainda, que “homens não criam problemas que eles mesmos não possam resolver”. O primeiro problema da crise reside aí: os homens! Sempre eles, “carregando o mundo nas costas”, mesmo que não tenha dado certo! O segundo: a ganância de poucos continua sendo o sofrimento de muitos.

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