“Mas afinal que boi é esse que se brinca na Ilha Tupinambarana?”

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-Observou-se também nos bois-bumbás de Parintins a presença das estruturas musicais dos batuques de negros, caracterizando chamara neste trabalho de um código musical do segredo, bem como o tema da morte e da ressurreição referente ao entrecho da venda da língua do boi, atualizado enquanto evento para promover a passagem da natureza à cultura, com base em cultos pagãos referentes ao imaginário amazônico – projetado insistentemente pelos bumbás sobre uma cosmologia Tupi –, em homenagens aos santos católicos, em especial a São João, para  assim assinalar o solstício de verão na Amazônia.

Uma outra dimensão de permanência na festa seria a guerra simbólica de cristãos e mouros, assumida enquanto jogo, com vistas a configurar uma disputa entre Garantido e Caprichoso e de dar sentido de rito ao espetáculo.

Por outro lado, foi possível também reconhecer a importância do evento na emergência de uma identidade amazônica, fundada no caboclo e no estereótipo de índio, que o festival não se cansa de inventar, no plano do mito e da música.

Mas afinal que boi é esse que se brinca na Ilha Tupinambarana?

Pode-se dizer que dizer que se trada de um boi mestiço, que se quer cristão, promovendo a imagem do caboclo, o estereótipo do índio e uma retórica referente à região amazônica, em detrimento do negro subsumido e caracterizado em personagem do qual se ri, embora construindo a alma musical da festa dos bois-bumbás. […]

[…] é interessante ressaltar a importância da música na festa, por assim dizer inscrita no corpo dos brincantes, posto que é ela que confere sentido ao batuque, ao canto e à dança, sem os quais não teria sentido o espetáculo dos bumbás.

De fato, a ideologia do folclore dos bois-bumbás de Parintins, mencionada na toada Vermelho, uma composição do sambista e compositor de toadas Chico da Silva, não quer dizer outra coisa que não seja chamar a atenção do ouvinte para a importância dos batuques nos bumbás, baseado em uma matriz musical afro-brasileira banto.

Mas também caberia acrescentar a esta ideologia do folclore a ideologia da mestiçagem que ela veicula, ou seja, uma forma simbólica de simultaneamente registrar e recusar conflitos raciais e econômicos, do passado e do presente, dirimi-los e projetá-los no terreno da ambiguidade.

É graça à estrutura dos mitos que que se atualiza nos modelos de festa de que o brincar de boi se fez herdeiro, que é possível incessantemente reencenar o tema das três raças formadoras, da guerra justa e da morte e ressurreição na festa dos bumbás e, nessa reencenação, mudar incessantemente os polos de conflitos, até confundi-los na ideia de mestiçagem.

Em Parintins, a versão desse mito de origem se utiliza da imagem do índio e da Amazônia, para promover a imagem do caboclo como signo de identidade regional amazônica. De Parintins, ela se projeta para outras localidades, sobretudo Manaus, que  se identifica regionalmente com a festa, mas também para outros estado e quem sabe para o mundo, como anunciava um slogam do Garantido para o Festival de 1988: “Parintins para o mundo ver”.

É aí que estas imagens ainda que com um sabor exótico e, pouco conhecidas, podem se construir em referência, no jogo de espelhos que define a identidade.

É assim que o mito se conjuga à história para dar conta dos múltiplos significados que se atualizam nos bumbás de Parintins, enquanto jogo, rito e festa.

Sérgio Ivan Gil Braga, em Os bois-bumbás de Parintins (Edua, 2002)

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