Todos somos imortais

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A morte não é o fim para quem viveu. Logo, a imortalidade não é privilégio dos que vestem fardões. Ela permeia a todos pela memória, uma das faculdades humanas que entrelaça, afetivamente, às vivências do passado.

Cada pessoa é um mundo, e é essa diversidade que o torna mais importante e mais bonito.

Perdi meus pais, tios, tias, uma irmã, vários amigos e professores nesta jornada. Mas seus legados permanecem em mim, imortalizados.

Na segunda-feira (25/10), perdi meu tio Élcio Martins, dois anos antes a minha tia Nilce, irmã mais nova da mamãe, Júlia, que partiu em 2017.

São perdas indeléveis. E que sejam sempre! Suas vidas, revividas pelas lembranças, nos enchem de disposição para viver a vida do jeito como ela se apresenta para nós a cada dia.

Entre tantos exemplos que o tio Élcio e a tia Nilce deixaram, está o da aposta na educação como garantia vida mais segura na instável economia de mercado.

Eles foram comerciantes, em alguns momentos bem-sucedidos, mas nunca acharam que isso bastasse para um futuro ainda melhor para seus filhos.

Morei com eles alguns anos, e essa preocupação se estendia a mim. Trabalhei o trabalho duro com eles, ainda na infância, como ajudante de mercearia de secos e molhados, na Baixa da Xanda, hoje mais conhecida com Baixa de São José, ao lado do terreiro do boi-bumbá Garantido, em Parintins (AM).

Cuidei da secagem de pirarucu, de pele de jacaré e de fibra de juta, arrumei caixarias de bebidas, fiz faxina e atendi no balcão, embrulhando desde prego a açúcar a granel.

Porém, uma coisa não me faltou, assim como não faltou às minhas primas e primos: o incentivo e apoio aos estudos.

Tia Nilce era rigorosa: “Termina o trabalho e corre que está na hora da escola!”. Com a mesma rigidez, ela exigia que eu estivesse em casa, para ajudar nas tarefas do fim de tarde, logo após o soar da campainha da escola.

A morte do meu tio me remente a essas lembranças que a memória guarda com afeto. Um afeto que emerge como uma dádiva que a vida – e suas vivências – nos concede: a experiência da ancestralidade.

Aqui, com os meus botões, fico a recordar das inúmeras passagens da vida vivida com a minha tia, tio e primos. Com o meu tio Élcio, principalmente, em razão da sua recente partida. São muitas, mas gosto daquela em que ele se revelou “um cavalo”, porque nos leva, com humor, a sérias reflexões.

Certo dia, ele fez um cartão da loteria esportiva com três marcações triplas. Ele chegou a pagá-lo à agente da lotérica que, naquela época, colhia as apostas porta a porta.

A moça já havia deixado a mercadoria, quando ele se arrependeu de pagar o cartão único. Chamou-a de volta e decidiu desdobrar o dinheiro do cartão de triplos em vários jogos simples, naqueles em que o apostador só leva o prêmio maior se acertar todos os resultados dos jogos.

Na semana seguinte, a recolhedora de jogos veio conferir os cartões. O tio Élcio ficou ali atento, para logo expressar decepção. Não havia patavina de prêmio para ele.

A moça então lhe perguntou: “Seu Élcio, só por curiosidade: o senhor guardou aquele cartão dos triplos?”.

Ele meteu a mão na gaveta e de lá retirou o cartão marcado com tinta azul. Ela o conferiu e, abismada, lhe comunicou:

– Seu Élcio do Céu! O senhor havia acertado neste cartão!

Parece que uma força sobrenatural se apossou do meu tio: ele espalmou as mãos sobre o balcão, pulou e gritou sem economizar os pulmões:

– Eu sou um cavalo! Eu sou um cavalo! Eu sou um cavalo…!

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2 Comentários
  1. Suzan Diz

    Linda homenagem ao Vovô Elcio. Grata pelo lindo texto.

    1. Wilson Nogueira Diz

      Ele merece!

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