Livro narra a trajetória dos movimentos indígenas em Manaus

Compartilhe:

 

O livro Sobre flechas e canetas: faces da política indigenista em Manaus (1980-2019), do historiador Amilcar Arouche Jimenes, publicado pela Valer, surge com o propósito de jogar mais luz na compreensão da migração de indígenas das aldeias para as cidades e nas suas articulações políticas para sobreviverem social e etnicamente nesse novo ambiente.

Seu campo de pesquisa é Manaus e os seus principais protagonistas são os indígenas organizados em associações multiétnicas que, por sua vez, atuam por meio de frentes e práticas diferenciadas.

Dois grupos estão mais determinados em suas ações em Manaus, segundo análise do pesquisador: as associações indígenas locais que almejam protagonismo político nas organizações indígenas regionais e no poder público; e outra, que preconiza a ocupação de órgãos públicos, no intuito de pressionar as autoridades a atenderem às suas solicitações, como a doação de terrenos na zona periférica da cidade para moradias.

É da imersão nesse debate que vem a semente de flechas e canetas, para gerar uma pesquisa robusta sobre as mudanças ocorridas nas diretrizes do movimento indígena amazônico-brasileiro nas últimas décadas. Manaus é o lugar de partida dessa viagem empírico-teórica – orientada pela vivência e convivência entre pesquisador e seus interlocutores, leituras e aportes teóricos inovadores –, mas o porto de chegada ainda está por ser definido pelos leitores e leitoras, entre os quais, os gestores das cidades.

Confira a entrevista de Jimenes a este site:

Começo com a sua pergunta fundamental, na expectativa de obter uma resposta em algumas palavras sobre os resultados da sua pesquisa: “[…] de que modo o caso da política indígena de Manaus ajuda a estabelecer novas reflexões a respeito das relações contemporâneas entre os povos indígenas e o mundo dos brancos e, em última, análise da própria história indígena no Brasil?”

A história dos indígenas em Manaus, nas últimas décadas, apresenta desafios que tanto se assemelham ao do restante da política indígena em nível nacional, como os afasta desta.

Na primeira dimensão, por exemplo, temos as possibilidades e os limites de um movimento que demonstrou forte inclinação à política institucionalizada. Isto é: o compromisso em jogar conforme as regras estabelecidas pelo mundo dos brancos.

Na segunda dimensão, talvez possamos destacar a própria invenção de uma política indígena que tem como palco e frente de ação a própria disputa pela cidade.

Já quanto à discussão teórica mais ampla, as trajetórias dos coletivos atuantes em Manaus demonstram, de diferentes modos, como a política indígena tem sido fundamentalmente a arte de decifrar, tensionar e até subverter as expectativas projetadas pelo mundo dos brancos.

O senhor fala que a “escolha pela vida na cidade” pode dizer muito da capacidade de sobrevivência dos indígenas. Não seria a “escolha” uma situação mais confortável que a de “forçados” a deixarem suas terras?

Existem casos diversos, que nos possibilitam diferentes modos de compreender o fenômeno. Entretanto, sob um plano maior, é possível dizer que, em boa parte dos casos, pode não haver distinção clara entre as “escolhas pessoais” e a dimensão “compulsória” no ato de migrar.

Flechas e canetas como metáforas de políticas indígenas distintas acabam em confluências em algum momento? O que a sua pesquisa revela a esse respeito?

De certa forma sim, porque reciprocamente desnudam seus potenciais e limites. Em Manaus, especificamente, a existência de grupos orientados por diferentes formas de ação trouxe uma nova dinâmica para a política indígena e embora as ações orientadas pelas “flechas” tenham arrefecido nos últimos anos, sua emergência obrigou a “caneta” incorporar pautas que até então pareciam impensáveis do ponto de vista de uma política indígena institucionalizada e atuante em um espaço urbano.

A necessidade de uma nova história indígena representa uma demanda que outras ciências não dão conseguem alcançar neste momento de deslocamento do fenômeno indígena das aldeias para a cidade? Ou é uma questão somente da história?

Nem de longe se trata de uma questão somente da História, mas o trabalho é também um convite para que historiadores transitem sobre esses temas.  Acredito que temos potencial para apresentar novidades às discussões.

Em que muda, em termos de legitimação da pesquisa, a aplicação da conarrativa ou coautoria na sua pesquisa?

A opção por usar o conceito de conarrativa ou coautoria foi feita com o intuito de sublinhar a importante contribuição dos indígenas com os quais dialoguei ao longo da pesquisa, mas de modo algum para foi concebida para legitimar seus resultados.

Ao final de tudo, é importante dizer: trata-se de um trabalho escrito por um não indígena, com perspectivas que, inclusive e possivelmente, nem sempre serão as mesmas defendidas pelo próprio movimento indígena.

A respeito desse tema (políticas indígenas de base e na cidade) quais questão ainda estão por ser exploradas, em aberto?

Existe uma infinidade de questões abertas, embora a produção acadêmica tenha, nos últimos anos, apresentado maior interesse sobre o tema. Cotidiano, lazer, alimentação, direto à moradia, a políticas públicas diferenciadas, entre tantos outros aspectos.

Trata-se de uma temática que necessariamente deve envolver os mais diversos campos de interesse acadêmico, mas que também deve ser colocada ao debate público mais amplo.

 

Conteúdo

Primeiro capítulo.

Direciona-se à análise do processo do deslocamento aldeia-cidade, experenciado por alguns dos protagonistas da pesquisa. Esse trecho prioriza fontes coletadas em campo (entrevistas, conversas informais), ao mesmo tempo confrontando com a presença indígena em Manaus e, principalmente, com os trabalhos com trabalhos e outros escritos que tratassem das realidades locais de origem dos sujeitos retratados.

[…] a escolha pela vida na cidade pode dizer muito a respeito de como essas populações têm demonstrado suas capacidades de sobreviver e conviver com um universo que, a rigor, é estranho e desafiador.

Segundo capítulo.

[…] estão destacadas ações de outros agentes relacionados a esse campo [cidade] e as consequências das expectativas projetadas por esses em nível local. Esta análise se alimenta das relações entre indígenas e o universo acadêmico que se debruçou sobre esse campo nas últimas décadas.

A parte principal do capítulo destina-se à análise de alguns casos de emergência política de determinados grupos (comunidades) indígenas, a partir da década de 1980, nos seus momentos iniciais, e as diferentes estratégias formuladas com respostas aos desafios da vida na cidade. O texto entrelaça as trajetórias coletivas e as figuras consideradas importantes para a organização desses grupos citadinos.

Inclui-se uma […] reflexão acerca das relações com as bases (comunidades de origem, aldeias), com agentes missionários e outras entidades de apoio, o poder político local e a emergência de um esforço centralizado de organização, observado nos últimos anos.

Terceiro capítulo

Trata da emergência de uma nova frente política atuante no cenário indígena manauara, também a partir dos anos 2000, marcada por um modelo de mobilização alternativo àquele defendido pelos coletivos e organizações analisados no capítulo anterior.

A discussão paira em torno das diferenciadas visões de algumas lideranças indígenas ligadas a essa nova frente, a respeito da política indigenista local, o histórico de ação desses coletivos ao longo desses últimos anos, incluindo os resultados materializados em novos núcleos comunitários, e as consequências da ascensão desse novo movimento para o campo indigenista local.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.