Sobre a Cidade Mítica de Bernadete Andrade

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Antes de falar sobre a obra da artista, convém aqui traçar alguns marcadores que definem a primordialidade humana de Bernadete Andrade, quais sejam: abnegação, determinação e intransigência são algumas das marcas que definem os traços incontestes de sua personalidade.

O forte caráter, permeado de singela e fraterna solidariedade, ganha contorno, sobretudo, quando no enfrentamento das questões de ordem educacionais e sociopolíticas.

Nada a deixava abater principalmente em se tratando de reivindicar situações ao primar por uma educação pública, democrática e de qualidade. Ao acessarmos o denso currículo e a história de vida da artista, esses marcadores testemunham todo o compromisso por ela sempre assumido.

Eu costumo dizer que entre tantas telas, textos publicados e inúmeras pesquisas realizadas, a sua grande obra foi ter trazido ao mundo seu único filho, Gabriel, hoje com 27 anos. Ficou como herança a ele imputada, valores subjetivamente humanos que também alicerçam e definem os traços já formatados ao sabor de sua jovem personalidade.

Tais valores estão patenteados na formação artística de Bernadete Andrade que, seguindo-se a uma promissora trilha acadêmica, se tem por registro:

Licenciatura em Educação Artística na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE, 1978.

Licenciatura em Filosofia pela universidade Federal do Amazonas (Ufam), em 1982.

Bacharelado em Pintura pela Escola de Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1987.

Em 1988, BERNA ingressa no Departamento de Arte, na universidade Federal do Amazonas como professora de História da Arte e Desenho Artístico.

Cursa Especialização em Estudos de Museu de Artes Contemporâneas na Universidade de São Paulo-MAC/USP, em 1993.

Em 1997, recebe o título de mestre em Estruturas Ambientais Urbanas, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na Universidade de São Paulo – FAU/USP, com a dissertação intitulada: “Arqueologia do Traço Primordial: um estudo para intervenção artístico-ambiental no Campus da Universidade Federal do Amazonas”.

Em 2002, recebe o título doutora em Estruturas Ambientais Urbanas, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo, FAU/USP, cuja tese tem por título: Cidade Mítica: uma poética das ruínas ou a cidade vista pelo imaginário do artista.

Essa tese, hoje transformada em obra póstuma, se deve ao empenho e compromisso literário promovidos pela Editora Valer. Trata-se de profundas reflexões; contundentes e, por vezes poética, em que a autora estabelece uma transversalidade no campo interdisciplinar ao dialogar com a História, Filosofia, Sociologia e a Antropologia.

A obra é composta de 05 capítulos, e ilustrada por variedade de imagens, de fotos da cidade de Manaus, de artefatos indígenas e urnas funerárias, de sítios arqueológicos e de desenhos artísticos da autora, entre outros, dos irmãos Luiz e Feliciano Lana, da etnia Dessana.

Há ainda, como anexo à obra, um minucioso Diário Artístico dos manuscritos da pesquisa de campo. Assim, por via da reflexão teórica, Berna nos convida ao diálogo com Homero, Hesíodo, Platão, Bachelard, Eliade, Yourcenar, Turner, entre outros.

Diálogo este extensivo à convivência com lideranças, como Gabriel Gentil e outros intelectuais indígenas, dentre os quais: Davi Copenawa, Ailton Krenak e Feliciano Lana, Dos vários escritores locais, estão: Márcio Souza, Aldísio Filgueiras, Otoni Mesquita, Socorro Jatobá, Lúcia Rocha, entre outros.

O traçado teórico-metodológico da pesquisa passeia por momentos que vão desde o levantamento bibliográfico; de produção de textos; de dados arquivísticos e institucionais que preservam a memória ancestral da cidade; de visitas a sítios arqueológicos, cemitérios indígenas e na mais significativa experiência na comunidade indígena Umbucyn, que em tupi significa Beija-Flor, situada no município de Rio Preto da Eva. Lá, a autora entrou em contato com cinco etnias: Sateré-Mawé, Mura, Tukano, Dessana e Baniwa. Experiência que marcou os caminhos da investigação na participação de danças, pinturas e desenho étnico.

Isso permitiu à autora a percepção visual e literária: do mito; do calendário astronômico dos Dessana, somados aos fragmentos arqueológicos do Museu Amazônico da Ufam. Um percurso metodológico sistemático e que resguarda a coerência interna de sua construção teórica. O passeio pelas trilhas investigativas está ordenado a partir de quatro momentos que vão desde o olhar o mundo na sua aparência até o adentrar no reino da percepção criativa.

Enfim, trata-se de um livro, que, como escreveu Neiza Teixeira, nos dá “o prazer da boa leitura”. E enfatiza: “Nele, nos deparamos com uma narrativa, na qual amalgamam-se o mito, a realidade, a pintura, a instalação, a fotografia, a filosofia, a poesia, a ciência, o riso costumeiro e a força de Bernadete Andrade”.

De fato, tudo isso se resume em uma epígrafe de abertura da obra, que Berna extrai do livro de Marguerite Yourcenar, em “Memórias de Adriano” que diz: “Pequena alma flutuante, hóspede e companheira de meu corpo, vais descer aos lugares pálidos duros nus. onde deverás renunciar aos jogos de outrora”.

É nesse mergulho que, por entre chuvas e constelações, Berna nos convida adentrar à Manaus soterrada e descer à mansão dos mortos; local e território quase um sacrossanto das intimidades. Como uma arqueologia da memória, onde a nudez de lugares pálidos, duros, como dito por Yourcenar; desbravá-los é quase uma exigência da criação. Uma Manaus onde a memória e as lembranças de nossos antepassados jazem sob o solo em que pisamos.

Para nos acolher, seja como visitantes ou leitores de sua obra, a artista sugere manter-nos acordados e atentos, visto que este foi o propósito através do qual ela tem alimentado durante todos esses anos; um amor grande e uma fé no que poderia nascer dessa cumplicidade, desse pacto com o leitor e seu objeto de pesquisa.

Trata-se de um mergulho inquietante ao indizível, embora tangível, visto que arte e ciência se confundem nesse começar das trilhas percorridas pela autora. Um começar, nas palavras dela, como algo que “é sempre muito difícil porque implica em correr riscos, sem abandonar caminhos e tentar outros possíveis”.

Esses são, certamente, os desafios que marcam os caminhos dessa investigação já anunciados naquela epígrafe, e que despertam na autora a ansiedade da partida em busca de fragmentos do passado; das memórias e lembranças de uma Manaus soterrada. Significou, portanto, ir ao encontro do indizível; daquilo que a deixava solitária, ao que ela se interroga: “Se tive medo desse encontro? Claro que sim, mas era um medo que transformava o calafrio, o pé na vertigem, na solidão: nesse desconforto em estado de criação”.

Com o espírito da criação, o caráter se configura nas horas de solidão tão favoráveis às proezas imaginárias que, segundo Bachelard: “Essas horas de total solidão são automaticamente horas de universo. O ser humano, que abandona os homens e vai até o fundo de seus devaneios, olha enfim as coisas”.

Berna, recorda-se de sua infância nas ruas de Manaus, que no chão onde pisava havia o despertar de ecos do passado, visivelmente inscritos nas rachaduras de ruas e calçadas. Como o serpentear da cobra-grande, as rachaduras, para ela, significavam o mito que a cidade tenta ocultar. Os desenhos formados das rachaduras a ensinavam que, enquanto um de nós sobreviver, a nossa marca, aqui e ali, ressurgirá mesmo que alguma força estranha tente extingui-la.

Foi com esse olhar que Bernadete encontra a cidade que procurava e tentava aportar ao longo de suas investigações. A Manaus que, segundo a autora: “escondia-se por entre camadas sutis, enevoadas”. E afirma: “O começo do começo fora barbaramente sepultado, assassinado pelo Velho Mundo e, agora, os que aqui chegam são tragados pela armadilha do esquecimento”. Por isso, para a autora: “um achado arqueológico, a narração de um mito, dão-nos pistas, excitam e provocam o imaginário à construção de uma poética visual que expresse a Cidade Mítica, pronunciando: uma volta ao passado revigorado pelo presente”.

Quanto a isso, às páginas 28, Berna afirma: “Esta foi, pelo menos para mim, a maneira mais sincera que encontrei para manter acesa a lembrança das origens. Daí a necessidade de escavar mundos extintos, descer à mansão dos mortos e ver dentro do possível a luz do sol”. E afiança: “É tempo de reconhecer que os mortos estão vivos dentro de nós, mesmo que não tenhamos sequer visto uma cara pintada, ou participado de um ritual sagrado, pois, quando nos demos conta, o corpo já não era mais o suporte da obra e a nudez era a vergonha ensinada”.

E, admirando o mapa traçado pelo imaginário mítico dos Dessana, que expressa os Rituais de Passagem, afirma a autora: “movida pelas constelações, desci os degraus desse mundo, revendo o que minha vista alcançava. Olhei sem nenhuma pressa os mortos e abracei com a maior calma do mundo os ensinamentos que eles me deixaram e me foram negados”.

Sobre as práticas de campo, seja das inúmeras intervenções artísticas feitas com seus alunos do curso de Arte da Ufam em sítios arqueológicos ou de trabalhos realizados junto a várias etnias, Berna afirma, às páginas 30: “Cada experiência que a pesquisa me proporcionava, recolhendo aqui ali fragmentos dessa sabedoria, causava-me espanto, estranheza, ver extinguir-se aquilo que em nós outrora ardia. Essa sensação de convívio, quase diário, com a ausência levou-me a acolher no peito um grande pássaro sedento de voo, e quando suas asas batiam, tentava recordar aquilo que mais me alegrava e procurava esquecer o que me oprimia. Era o grito secreto de alegria”.

A propósito, confessa a autora: “Pode parecer muito estranho, mas o mortos foram, para mim, como o leito que aquece e embala meus sonhos. Paradoxalmente, encontrei neles um sentido para a vida…é como eu sei dizer, e o que digo é proporcional ao tamanho do que vejo”.

E, por fim, ao retornar desse profundo mergulho, Berna nos convida a tirarmos nossas próprias conclusões e a fazermos, mesmo que seja breve, o nosso próprio exercício mnemônico para sentirmos onde, em Manaus, a tradição e a ruptura convivem. E aconselha: “caminhe pelas ruas da cidade e verifique como um saber primordial sobrevive ainda que soterrado. e, se preferir, desenhe, recolha as imagens e crie sua própria Cidade Mítica”.

Pela atenção, muito obrigada!

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