Sonho sonhado

Errata: na crônica do dia 15/10/21, sob o título “É preciso amar…”, no último parágrafo, onde se lê “absolvente”, leia-se “absorvente”. Com o pedido de desculpas às leitoras e leitores.

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Todos nós temos sonhos malucos, alguns no bom sentido. Várias vezes vi na TV um documentário sobre arquitetura não convencional que trata de moradias feitas com contêineres, e gostei da ideia.

Em sonhos fiz o meu projeto: em um terreno pequenino construiria uma morada em três contêineres. O maior, serviria para abrigar um salão de estar, a biblioteca, a cozinha, o salão de banho e a escada em caracol para o andar superior; nas laterais, pavimento térreo, de um lado a garagem e do outro o jardim.

Apoiados sobre o contêiner do pavimento térreo, dois outros serviriam de dormitórios; como complemento de sustentação e equilíbrio, os superiores seriam amarrados com cabos de aço em postes de ferro, que sustentariam, ainda, as luminárias decorativas.

No jardim: begônias de cores variadas (gosto de begônias), comigo-ninguém-pode, espada-de-são-jorge, uma cerquinha de jasmim-dos-açores, um cantinho para as maria-fecha-a-porta; uma pequena horta; escorrendo pelos muros, as jiboias; e, se ainda coubesse, um bougainville vermelho e um ipê-amarelo; uma relva fina.

Na porta de entrada, independentemente do número que me coubesse na rua, soldaria a placa feita em metal esmaltado, com o número 479, dado à minha primeira casa própria, onde consolidei minha felicidade.

Coisas de cinema, um “sonhozinho” pequeno burguês e uma vidinha sem surpresas. E daí?! Não custa nada sonhar! A diferença entre o sonho e a vida é a realidade, e nós a vivemos de diversas maneiras e em diversas idades que os tempos nos reservam. O noticiário, aquele que não é fake news, me dá conta de que a crise do capitalismo é iminente e fico ensimesmado, pois já vivemos várias e não se deve menosprezá-las, sobretudo em meio a uma crise sanitária.

Os economistas diferem das pitonisas, das cartomantes e videntes; não estão envolvidos em crenças e costumam ir além do bom senso, que nos serve de base; dispõem de dados estatísticos e de evidências que permitem comparações.

O mundo capitalista apostou todas as suas fichas na globalização da economia. Concentrou todo o capital financeiro em grandes conglomerados, que dominam o mercado das moedas, os “paraísos fiscais” e as bolsas de valores; investiu tudo na descentralização produtiva, aproveitando-se dos nichos de matérias primas, especializações de mão de obra ou, ainda, na alocação fabril de componentes primários à indústria em áreas onde a mão de obra é abundante, mais barata, pouco regulada ou sem nenhuma organização de classe; revolucionou as formas de transporte de mercadorias e dados; atrelou a gestão de negócios e pessoas à logística, à informática (virtualidade) e à velocidade nas decisões.

Alguns países emergentes aproveitaram essa onda para verdadeiramente emergir, como a China, a Coreia do Sul e a Índia; e alguns se tornaram tão gigantes a ponto de decidirem sobre o andamento da economia mundial em momentos de crises pontuais, como agora. Esqueceram, entretanto, de combinar com a natureza.

As tempestades, fenômenos às vezes indesejáveis ou tenebrosos, mas necessários, cessaram, e a seca catastrófica atingiu as áreas sensíveis de produção agrícola, de “terras raras” e de demais insumos para a indústria farmacológica e de ponta.

Sem água para lavar a extração das minas e sem energia, a indústria do silício parou e, em efeito dominó, toda a grande indústria de montagem espalhada pelo mundo, que depende de semicondutores, de fertilizantes e de IFAs, este último para produção de medicamentos; sem ferro e aço para produzir contêineres, o comércio marítimo entrou em debacle.

Não há mais contêineres usados para construir a casa dos meus sonhos; fertilizantes para cultivo de alimentos e jardins estão em falta; não há semicondutores para produzir automóveis e outros eletrônicos; a inflação corrói minhas economias. O sonho, ao que me parece, acabou!

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