Sucuyê Wera (2). O desencanto de Honorato.

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As crianças indígenas Mawé gozam da primazia do cuidado, do carinho e da criação coletiva pelas assey’s da tribo. Assim, Honorato e Caninana foram criados no mundo infantil de felicidade, na cabeceira do rio Andirá.

Porém, ao entrarem na puberdade, mudanças ocorreram em seus corpos. Passavam mais tempo que as outras crianças brincando na água. Ganharam grande capacidade respiratória e maior força muscular.

Começaram a nadar para longe do porto da aldeia. As piãs e curumins ao perceberem as mudanças foram se afastando do casal, devagarinho, que, ao fim, perceberam que estavam sós.

Coube ao painy dizer-lhes seus destinos. Quando este falou que eram filhos do espírito da sucuyê wera, os jovens atormentados por fortes dores de cabeça e pelas mudanças de seus corpos jogaram-se nas águas. Agora eram mais cobras que gente.

Honorato disse a sua irmã que não temesse, que cuidaria dela na vida vindoura. E, totalmente, transformados em cobras deixaram a aldeia e o estreito rio onde moravam, no alto Andirá. Passaram a viver no Lago do Mucuim, no baixo rio Andirá, que de “tão largo parece um pedaço do mar”, como diz o poeta Thiago de Mello.

A natureza de ser e viver como cobra perturbava, enormemente, Caninana. Ela não aceitava a situação e se tornara extremamente agressiva com os humanos. Passou a perseguir e alagar suas canoas e a devorar seus passageiros.

Honorato, ao contrário, era carinhoso com os humanos: quando encontrava um náufrago, ajudava-o a se salvar das águas e o protegia dos ataques das piranhas ou jacarés.

E vendo que sua irmã não mudava seu trato com os humanos, atacou-a com fúria animalesca e a deixou, mortalmente, ferida. Em seguida, deixou o Lago do Mucuim e veio habitar nas cercanias de Parintins, no Lago do Anhinga, nas proximidades da Ilha da Paz.

Assenhoreou-se da boca do Paraná do Ramos, a frente de Parintins até Paraná do Limão. Em suas andanças continuava a cuidar dos náufragos e dos navegantes em perigo.

Um dia, em frente da Vila Amazônia, presenciou o naufrágio de uma igarité, que transportava um tesouro em moedas de ouro para Belém, sede do estado do Grão-Pará. Salvou a tripulação, mas a canoa e o tesouro foram parar no fundo do rio Amazonas.

Tempos depois a solidão bateu. Lembrou-se de sua mãe, de sua capé e do porto onde aprendera a nadar. Assim, rumou para o alto Andirá.

Quando chegou ao porto da aldeia transformou-se em homem e foi, no escuro da noite chorar no colo de sua mãe; contou-lhe o que fizera com sua irmã e pediu-lhe perdão e ajuda para quebrar o seu encantamento. Sua mãe disse que não sabia, mas que consultaria o pajé sobre o que fazer para curá-lo da maldição.

Ele voltou na outra noite e o pajé, junto à sua mãe, disse-lhe: “Você, em forma de homem, busque alguém corajoso com capacidade de enfrentar a cobra grande, que habita você, numa noite de lua cheia, para cortar com uma faca nova as pontas bifurcadas de sua língua e enterrá-las na terra firme embebidas em leite de mulher lactante antes que a lua se ponha. E lembre-o que ele só terá uma oportunidade”.

Uma noite, numa festa na Vila Amazônia, assumiu a forma humana e buscou entre os jovens um bastante ambicioso e corajoso para correr o risco do desencante.

Achou um judeu recém-chegado disposto enricar facilmente. Contou-lhe seu segredo e prometeu lhe dar um pote de moedas de ouro. O rapaz pediu uma amostra. Ele meteu a mão no bolso da calça, retirou um saco de couro e dele tirou duas moedas, entregou-as e lhe disse: “Faça-me homem que vou te fazer rico, só eu sei onde tem muito mais e só eu tenho condições de mergulhar e trazer do perau onde está”.

O jovem se motivou e disse que faria o prometido. Na próxima lua cheia, combinaram de se encontrar às margens do Lago do Anhinga.

Na noite aprazada, o rapaz armado com uma fação novo em folha e meio litro de leite materno estava presente no local combinado. Para ganhar coragem bebeu quase uma garrafa de pinga. Antes da meia-noite a cobra apareceu, deu voltas no meio do lago deixando seu corpo reluzente refletir os raios da lua.

O rapaz quando viu o tamanho da cobra estremeceu e saiu da água, com medo. A força do álcool passou como um passe de mágica. E ficou na beira do lago cismando consigo mesmo. Depois, resolveu enfim entrar na água para cumprir sua promessa. Tirou a camisa, se benzeu e entrou na água até a altura da cintura. Vibrou o facão no ar, que reluziu e a cobra avançou para ele. A quatro metros parou e ficou esperando.

O jovem foi se aproximando devagar, olhando fixo para a língua da cobra. Quando está passou a dois palmos de sua face, ele deu um golpe certeiro, decepando as pontas da língua. Apanhou-as e correu para a terra para banhá-las no leite materno e enterrá-las. Após esse ritual, voltou-se para o lago e a cobra grande não estava mais lá. Só silêncio e a lua sobre a água testemunhando o feito.

Pouco depois, emergiu do lago um rapaz forte e bonito. Pediu a roupa que o outro havia trazido. Ele trêmulo e febril entregou uma sacola com uma muda de roupa novas e cobrou o seu “prêmio”. Honorato foi até uma touça de palmeira jauari e pegou dois potes. Entregou um ao rapaz e o outro guardou para si.

O rapaz era da família Cohen e comprou várias propriedades na rua da frente, na cidade de Parintins. Depois sumiu misteriosamente da cidade.

Honorato comprou uma canoa nova de madeira com faia e japá e se dirigiu à aldeia de sua mãe. Ao chegar, subiu a ribanceira com um saco de aniagem nas costas. Sua mãe não o reconheceu enquanto ele subia. Ao chegar perto de sua mãe gritou chorando: “Mãe, estou livre! Estou livre mãe!”

Vocabulário

Sucuyê wera = cobra antiga, ente mitológico, língua Maweriah.

Assey’s = anciãos, língua Maweriah.

Piãs = meninas, língua Maweriah.

Curumins = meninos, língua Geral ou Tupi da Amazônia.

Painy = pajé ou xamã, língua Maweriah.

Capé = aldeia, língua Maweriah.

Maweriah = reunião dos clãs Mawé.

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