Sobre livros & desapegos            

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Amiga minha dos tempos da faculdade me confessa, em mensagem nas redes sociais, que não consegue reunir coragem para se desfazer dos livros que ela e o falecido marido acumularam durante várias décadas. É grande a quantidade de livros e, maior ainda, o seu fervoroso apego a eles. Daí ela se pergunta: como me desfazer de livros que tiveram um papel tão importante na minha formação?

Não reprovo esse sentimento de paixão da minha amiga por seus livros. Também já acumulei livros durante várias décadas da minha vida. O que não significa dizer que hoje deixei de comprar novos livros. Claro que não! Sempre que descubro um livro que carregue alguma ponta do meu interesse de leitor, não penso duas vezes. Mas hoje minha relação com os livros não é mais de paixão, é de amor, duas coisas bem diferentes que, mais adiante, eu explicarei.

Cheguei a ter uma imensa biblioteca. Como o apartamento onde morávamos em Manaus tinha três dormitórios, transformei um deles num espaço exclusivo para os livros. Afora uma pequena mesa de madeira que dava para uma janela e onde eu abrigava meu computador, inseparável ferramenta de trabalho, todo o restante do espaço era ocupado por prateleiras do teto ao chão. Eu era uma ilha cercada de livros por todos os lados. E o espaço já começava a se tornar pequeno. Era livro que não acabava mais! Todos cartesianamente organizados por assuntos e de acordo com critérios pessoais que eu havia estabelecido. Sempre em duas determinadas páginas, cada livro ostentava a marca vaidosa de um carimbo: “Biblioteca particular Odenildo Sena”.

Tinha um orgulho danado daquele espaço. Tinha um apego maior ainda por cada um daqueles livros. Não dava, não vendia, não trocava, não emprestava. Neste último caso, quando o empréstimo era, digamos, inevitável, eu pedia um tempinho à pessoa amiga interessada, discretamente comprava um outro exemplar e, no dia seguinte, ‘emprestava’ de bom grado, sem me preocupar com a devolução da obra. Fiz muito isso.

Foi então que em 2017, antes de nos mudarmos para Portugal, tive uma espécie de epifania. Epifania de desapego. E aqui começa minha relação de amor, não de paixão pelos livros. Foi quando me caiu a ficha. Pelo menos com 90% daqueles livros eu não tinha tido uma conversa sequer há muitos anos. Alguns, porque eu já tinha lido e não pretendia relê-los. Outros, porque eu não os leria mais, por mudança de foco em meus interesses de leitor. De tal modo que centenas deles estavam ali arrumadinhos e limpinhos servindo apenas ao meu orgulho e ao meu capricho, uma vez que o meu tempo e a minha vida seriam curtos para eu dar atenção necessária a todos eles. Foi quando também me dei conta de que a vida de um livro só passa a existir e cumprir a sua função de informar e transformar vidas quando suas páginas estão diante dos olhos de um leitor. Sem isso, as páginas de um livro são letras mortas.

Daí passei a ver aqueles livros nas estantes com um olhar não de paixão, mas de amor. Paixão seria continuar a mantê-los em cárcere privado, atendendo unicamente à minha vaidade de ter uma grande biblioteca. Amor seria conceder alforria a eles ou, pelo menos, à maior parte deles, a fim de que ganhassem o mundo das bibliotecas públicas e de outras e outras pessoas e continuassem a cumprir o papel social para o qual foram escritos e impressos. Afinal, como diz o nosso Chico da Silva em um de seus sambas, amor e paixão não se sentam no mesmo lugar.

Foi então que separei em torno de 10% de todos os meus livros (muitos dos quais livros de cabeceira e alguns poucos ainda não lidos) e o restante, em torno de 90%, doei a bibliotecas públicas e a amigas e amigos. A missão daqueles livros comigo tinha terminado. Eles ganharam o mundo para cumprir sua missão com outros milhares de leitores. Senti-me realizado e feliz. Foi uma contribuição minha para o processo civilizatório da Humanidade, que anda tão carente de boas leituras.

No mais, espero sinceramente que minha amiga de faculdade e outras pessoas que leiam este texto tenham uma epifania como a que eu tive. Afinal, se os livros tiveram, como ela diz, um papel tão importante em nossa formação, eu pergunto: por que não oportunizar agora que eles tenham esse mesmo papel na formação de tantas e tantas outras pessoas que, diferentes de nós, sempre sonharam com livros, mas nunca tiveram a chance de conviver com eles?

De minha parte, tenho certeza de que não fiz nenhuma revolução, mas certamente que, parafraseando os versos do poeta Thiago de Mello, fiz o pouco que me coube me dando por inteiro e contribuí para um mundo um pouquinho melhor.

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