O Cão da Cama Velha e o Metaverso

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Diante de uma profusão de temas, não resisti em unir coisas velhas às coisas novas. Sem a pretensão de ser pioneiro a esta altura da vida, quando nosso maior esforço é lembrar, lembrar… lembrar, recuso-me a ficar só nisso, pois não pode ser proibido a ninguém, seja qual for sua idade, o exercício do conhecimento, do pensamento, da crítica e da inovação.

Causou-me curiosidade a mudança de nome do Facebook para Meta e a Microsoft lançando os avatares 3D; mais ainda, uma matéria do jornal El País que tomei conhecimento por um amigo, mas que circula no Google, onde Noelia Ramírez entrevista Anne Helen Petersen, autora da obra editada em português com o título: “Não aguento mais, não aguentar mais: como os Millennials se tornaram a geração do burnout”, da Editora Harper Collins, 2021. Não li ainda a obra, li a entrevista, mas por aí chego aonde preciso chegar para concordar com a autora no que diz respeito ao fato dos jovens (millennials) estarem desiludidos com o seu modo de vida, sentirem-se angustiados ao descobrir que a tal e propalada meritocracia é uma ilusão inventada pelos artífices do livre mercado, de mercadorias e de pessoas.

            Pois é, foi ai que lembrei-me de uma estória, bem antiga, de uma família que não tinha sossego na vida por causa de um fenômeno que a perseguia: “o cão da cama velha”. Não tinham casa e moravam de aluguel. Em uma das casas em que vieram a morar, ao chegarem, encontraram num dos quartos uma cama velha e resolveram jogá-la no lixo. Para surpresa, a cama reapareceu no mesmo lugar de antes e não havia jeito de livrar-se dela. Para tanto, recorreram a tudo: Rezadeiras, Xamãs, Especialistas em Ciências Ocultas e até a Exorcistas, e nada! Mudavam-se de casa e, antes que eles adentrassem à nova morada, a cama velha já estava lá. Para livrar-se disso, venceram na vida e decidiram construir a própria casa.

A estória é uma metáfora da casa própria; o esforço da família lembra a meritocracia. Mas o mundo não mudou muito, o “Cão da Cama Velha” reaparece na economia como crise do capitalismo; no Brasil, além disso, na forma de estrupício na Bolsa de Valores, na ONU, na Europa, destruindo tudo a seu modo sem que lhe mordam o calcanhar. Está presente no negacionismo; no “empreendedorismo fajuto”, que produz “invisíveis”; nas leis que põem o fim às conquistas trabalhistas e criam o subemprego ou transformam o trabalho em sobretrabalho, embrulhado na lógica letal dos algoritmos.

Agradecendo ao amigo que me enviou o texto, atrevi-me a fazer um comentário neste tom: as coisas estão piores para os jovens; eles só tiveram a oportunidade de ver um mundo esfacelado. Acho que uma das falsas ideias da pós-modernidade foi querer jogar tudo fora como imprestável. A sensação que tenho é a de que os jovens, ao redescobrirem pontos eternos do velho, encontrarão alento para reconstruir o seu mundo. Descobrirão que a angústia não é privilégio da atual geração; foi também dos românticos no sec. XVIII, dos jovens do final séc. XIX, como de tantas outras gerações pretéritas. Precisam de mais atenção e confiança.

O negacionismo do nosso tempo; as teorias conspiratórias que atribuem as falhas do mundo às sociedades secretas, negando o real e pregando a volta ao obscurantismo conservador; a “Sociedade do Cansaço”, com as implicações que nos mostra Byung-Chul Han, exigindo reflexão; e, agora, o “metaverso”, novo estágio da tecnologia da internet 5G, que permite replicar e unir as experiências do mundo real às do mundo virtual, são partes do mesmo pacote de coisas boas ou más a serviço das utopias e distopias, ou, por assim dizer, coisas do “cão da cama velha”!

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