Uma flor para Betinho e outra para Marília

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Fiquei perplexo ao ver-me desejoso em comentar, na mesma crônica, coisas da vida de duas pessoas tão díspares e, no modo de ver preconceituoso e presunçoso das elites brasileiras, impossíveis de aproximação. Falo de um militante da luta política pela democracia brasileira e de uma jovem artista popular do “sertanejo”, morta em acidente aéreo, semana passada.

Não há como desconhecer a tragédia e a trajetória artística da menina-prodígio, que encantou multidões, reuniu milhares de seguidores e fez o país inteiro comover-se à exaustão; fez, ainda, a mídia consagrá-la como olimpiana da música popular. Fiquei envergonhado por ser contemporâneo e não ter percebido a “celebridade” que era, mesmo não sendo adepto do gênero em que ela compunha, cantava e encantava. Marília Mendonça ficou famosa, rica e generosa; recebeu prêmios e prestígio pelo seu talento; eu soube de tudo isso após a sua morte e pela boca dos outros.

Quanto ao Betinho, Herbert José de Souza, sempre soube muito mais. Sabia que era mineiro, que herdou da mãe a hemofilia, que era o irmão do Henfil, cantado por Elis Regina na canção “O Bêbado e o Equilibrista”; que era sociólogo, ativista político em favor dos direitos humanos; que foi preso, exilado no Chile e, ao voltar ao Brasil, com o fim da Ditadura Militar, iniciou um projeto arrojado de mobilização da sociedade civil, materializado na “Ação da Cidadania contra a fome, a miséria e pela vida” (1993); que foi um dos fundadores do Instituto de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), revelador das desigualdades sociais e cobrador de urgência nas políticas públicas para salvar pobres e miseráveis. Tudo isso, antes que a Wikipédia falasse muito mais.

Escorado no “Mapa da Fome”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que detectou a existência de 37 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, em 1995, surge o primeiro programa social brasileiro destinado aos pobres e miseráveis, com o nome de “Comunidade Solidária”, presidido por Ruth Cardoso, ex-esposa de FHC, tendo no seu Conselho Diretor a figura de proa de Betinho. Em 1996, é criado o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil; em 1997, é criado o Bolsa Escola e o Programa de Garantia de Renda Mínima; Em 2000, o Auxílio Gás; em 2001, o Bolsa Alimentação, logo em seguida unificado com o Bolsa Escola. Em 2004, com Lula da Silva, todos os programas foram unificados, tomando o nome de “Bolsa Família”, oficial, permanente, com objetivos e critérios orçamentários bem definidos.

Betinho morre em 9 de agosto de 1997, deixa um forte movimento de minorias e uma consciência social profunda, decorrente da sua Ação pela Cidadania, obrigando o governo a enxergar os desvalidos e abrir as portas para o empoderamento dos grupos sociais vulneráveis que começavam a reivindicar e exigir participação na sociedade civil. Não foi possível erradicar a miséria, a fome e a pobreza, pois a crise econômica, as fraquezas humanas e políticas dominaram o país e o ímpeto inicial esmoreceu. Mas, sobram as conquistas sociais irreversíveis: das mulheres; dos negros; dos LGBTQI+; dos idosos; dos artistas; das pessoas com necessidades especiais; dos cotistas do ensino superior; e de tantas outras, que tornam o presente um pouquinho melhor.

Nascida na pobreza, criada pela mãe separada do pai; trabalhando desde os doze anos de idade, não sei se Marília foi beneficiária de algum dos programas iniciados no ano de seu nascimento; mas é certo que as letras de suas composições musicais refletem empatia para com as lutadoras contra o machismo e solidariedade com as que se superaram na sofrência do amor e do abandono social. Betinho faria 86 anos no 03 de novembro, Marília morre dois dias depois dessa data, cinco dias após a extinção do Bolsa Família”, que dá lugar ao imprevisível “Auxílio Brasil”.

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