Réquiem por meu filho Daniel Tiago Omena Melo

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Represento bem minha geração. Exerci os diversos papeis que quase todas as mulheres desse tempo vivenciam. Mãe, filha, esposa, estudante, servidora pública, sindicalista e vários outros, muitas vezes, simultaneamente.

Porém, Mãe foi só o que eu fui, no mês de março de 2021, quando vi a cada dia a vida do meu filho Tiago se acabar, sem poder retê-la, sem poder parar o tempo para evitar o inevitável desfecho.

Dias de extrema agonia pela qual passamos, apoiados por parentes e amigos que se recusavam a acreditar que o final da história dele, não seria diferente dos quase quatrocentos mil, número de mortos em consequência da covid 19, à época.

Não sou a única mãe a ter perdido um filho nessa pandemia. Posso imaginar quantas outras mulheres entre as mais de seiscentas mil mortes no Brasil, foram atingidas por essa perda. E todas, estou certa, conheceram a saudade definida por Chico Buarque como “o revés do parto”, a dor que sentimos quando damos a luz, multiplicada por mil pela nossa impotência em dar ao nosso filho, a vida uma segunda vez. E o martírio de “olhar o quarto do filho que já morreu”, vivido todos os dias.

Minha ferida está exposta de modo indescritível, bem como a revolta de saber que houve culpados, que há um responsável por toda essa tragédia, zombando de nossa dor todos os dias através dos meios de comunicação, despersonalizando a pessoa querida que partiu, relegando-a a uma sinistra estatística, tornando essa dor infinitamente maior.  E é assim que vou tentando sobreviver ao quarto vazio, a cama que nunca mais foi preciso ser arrumada, ao lugar na mesa que nunca mais será ocupado.

Tiago demorou a escolher a profissão que queria ter na vida, até descobrir a Geografia. Entrou na faculdade e realmente se dedicou. Foi um aluno aplicado. Tinha especial interesse pelos problemas urbanos, lamentava a poluição dos igarapés que recortam a cidade de Manaus (AM) e se tornou participante voluntário em diversos grupos que nos fins de semana saiam para retirar lixos das águas.

Depois de completar vinte anos fez excursões por vários países da Europa e em suas fotos de viagem registrava de modo particular a temática urbana. Não o aspecto turístico somente, mas curiosidades que ele percebia no planejamento das cidades, que privilegiavam a circulação dos pedestres, dos ciclistas, dos cadeirantes e na eficiência do transporte público. Em grandes centros como Paris, Londres, Lisboa, Dublin, Amsterdã, Milão e outros, Tiago descobriu o urbano humano, percebeu que a cidade devia servir as pessoas, sendo ao mesmo tempo limpas, coloridas e com mobiliários próprios.

Em 2013, a Secretaria municipal de limpeza urbana, da cidade de Manaus (Semulsp) reestruturava-se e precisavam de alguém com conhecimento em geoprocessamento. O nome dele foi lembrado, e indicado para trabalhar pela secretaria da época, Sra. Suely D´Araújo, com quem ficou alguns meses se familiarizando com a desafio que era gerir a limpeza urbana de um município como Manaus.

Porém, foi trabalhando junto ao secretário, Sr. Paulo Farias, que começaram a dinamizar a identificação dos problemas de saneamento básico que Manaus enfrentava. Estimulado pelo chefe, Tiago estava sempre disposto, sentia-se realizado com o trabalho que vinha desenvolvendo e nele se envolvia cada vez mais. O Tiago profissional, era um homem de caráter e princípios, um “jovem diferenciado, agregador e construtivo”, como o definiu para mim seu chefe por longos anos na Semulsp.

O máximo do reconhecimento veio no ano passado quando foi indicado a participar de um projeto sobre Resíduo Sólido Urbano desenvolvido pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrielpe) e pela Agência Sueca de Meio Ambiente. A intensão era envolver jovens do país todo.

Meu filho teria, além da oportunidade de integrar uma rede internacional de profissionais, mantendo contato com representantes de outros estados enriquecendo-se com as trocas de informações sobre os desafios apresentados e as soluções encontradas na implementação do projeto nas cidades brasileiras. Os experimentos expressos nas reuniões, seriam o norteador das decisões que beneficiariam os municípios.

A primeira viagem seria para São Paulo, no mês de agosto, e a segunda para Brasília, em outubro. E a última, seria para o encerramento, na cidade de Estocolmo na Suécia, prevista para o mês de dezembro. Devido aos transtornos provocados pela covid 19, a viagem para São Paulo ocorreu no final do ano, momento em que ele expôs seu trabalho e narrou sua experiência na implementação do projeto em Manaus. Retornou encantado com os contatos que fizera, com as trocas profissionais vivenciadas. Brasília e Estocolmo estavam dependendo do controle da pandemia.

Todos esses sonhos começaram a ruir no dia 06 de março quando a noitinha o ouvi tossir. A covid invadira minha casa e ciente da maneira como evoluía a doença, imediatamente ele teve acesso aos tratamentos.

Tiago não passou um momento sem acompanhamento médico, até a internação no dia 09/03. A partir daí foi só declínio. Nosso contato com a clínica era diário e todos os dias recebíamos o boletim médico. Ele era jovem, saudável, sem comorbidades, porém os pulmões não conseguiam se fortalecer para evitar as doenças oportunistas que fatalmente o acometeriam. Dez dias depois foi entubado.

Tiago perdeu a luta no final da manhã de sexta-feira, dia dois de abril. De mim, foi arrancado o companheiro que passou 39 anos ao meu lado. Raiva, sentimento de injustiça, e tudo o que uma mãe sente quando perde seu amado filho. Porém com o agravante da minha certeza de que sua morte poderia ser evitada, a clareza que Tiago se foi antes da hora, a nítida consciência de que meu filho como tantos brasileiros de março de 2020 para cá, foi mais uma vítima do obscurantismo e negacionismo que o presidente escolhido nas urnas, expôs os brasileiros de norte a sul.

Além de mim, meu filho deixou o pai e uma irmã, sua parceira e cúmplice. E avós, tios, primos e uma legião de amigos. Em mim uma revolta difícil de mensurar, uma realidade ainda impossível de enfrentar, mesmo passado sete meses. Uma saudade que me tortura todos os dias quando penso em vê-lo, em falar com ele e ser obrigada a reconhecer que não posso mais.

Tiago meu filho amado, tu vais estar perto de mim na minha lembrança e na minha saudade, até o dia da minha partida. A discrição, a paciência, o bom humor, a generosidade, e o companheirismo. A certeza desse encontro é o que me fará ficar por aqui, aguardando o dia em que vou te encontrar novamente.

E vou continuar te amando, como o primeiro filho que segurei nos braços, como o pedaço de mim que tu és, como a minha descendência roubada da forma mais vil e irresponsável, como a obra mais perfeita e preciosa que me foi permitido realizar.

Depois que meus filhos nasceram, eles passaram a ser a estrutura que sustentava meu corpo, minha vida.

Agora sigo vivendo só pela metade, a parte que coube a minha filha Raquel.

A outra, a que Tiago representava tenta se manter de pé e poder, assim como milhares de pais, tios, avós, filhos, sobrinhos, netos, amigos e colegas de pessoas que perderam a vida nessa pandemia, ver os culpados reconhecidos, julgados e condenados.


PS.: Mãe, órfã de um filho amado, que busca justiça para as famílias das 400 mil vidas identificados pela CPI da Covid, que poderiam ter sido salvas.

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6 Comentários
  1. Kelly Diz

    Não poderia ter sido mais perfeita em suas palavras.❤️

  2. Lídia Diz

    Parabéns pelo artigo, um desabafo importante para os que nao fazem ideia do tamanho da tragedia e descaso. Sinto tambem uma dor imensa, perdi meu esposo para a covid e nao tinha tambem nenhuma comorbidade. Tive o prazer de conhecer o seu filho, um rapaz trabalhador e inteligente. Força para nós continuarmos a nossa luta diária e fé por dias melhores.

  3. Ivânia Vieira Diz

    Lucynier
    O tempo vai tecendo nossos fios de conversa e de pactos para lidar com tamanha dor e a ausência. O tempo coloca e recoloca a vida qe por aqui vivemos enquanto durar nossa aventura pela Terra. Seu texto é profundamente bonito e dolorido, talvez, porque também saiba da dimensão dessa dor – sou parte desses órfãos e órfãs de mais d 610 mil.
    Escreva, escreva… você nos ajuda, com esses escritos, a buscar a difícil compreensão e aceitação.
    Um cheiro e um abraço na sua alma.
    Ivânia Vieira

    1. Wilson Nogueira Diz

      belo comentário.

  4. Alexandre Lima Diz

    Texto belíssimo, sensível e contundente.

    1. Wilson Nogueira Diz

      concordo.

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