A escola e a vida

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Velha mania. E sempre dá certo. Por falta de tempo para a leitura imediata ou outra circunstância qualquer, sempre guardo frases, recortes de revistas ou jornais em um canto da mesa de trabalho. A esperança é que em algum dia e momento volte a me encontrar com esses guardados. Vez ou outra, quando o tempo me dá uma trégua, recorro a essa espécie de arquivo vivo e encontro pistas que acabam dando pano para muitas e boas mangas.

Nesses dias, flagrei nesse amontoado de coisas uma página subtraída de um exemplar vencido da revista Carta Capital e fiquei bastante feliz. Nela encontrei uma curta matéria que aborda detalhes de uma pesquisa científica cujos resultados apontam para uma direção que eu já havia empiricamente trilhado e comprovado há muitos anos. Pode haver situação mais confortante do que ver nossa experiência pedagógica comprovada pela ciência? Dá uma alegria danada e até uma ponta de orgulho saber que, com isso, compartilhamos conhecimentos e contribuímos para a formação de tantas pessoas no espaço de sala de aula.

Afinal, de que trata a matéria do bendito recorte quase esquecido no canto direito de minha mesa de trabalho em casa? Simples. Desenvolvido por Edwin Morris, da Universidade de Edimburgo e publicado na revista Science, explica que “é mais fácil para o cérebro aprender mais sobre assuntos que já conhecemos. Para aprendermos um conceito novo existe um envolvimento mais amplo do córtex cerebral, mas adicionar um conhecimento é muito mais simples. A equipe do cientista descobriu um grupo de genes ativados somente para adicionar memória ao que já foi aprendido”. Em outros termos, um processo de aprendizagem se torna mais eficiente quando parte do conhecido para o desconhecido.

Caramba! Parece tão óbvio, não? É bem verdade, mas essa obviedade acaba sendo, no geral, desconsiderada por professores e livros didáticos de ampla circulação no contexto da escola. No caso particular do ensino da variedade padrão de nossa língua, para ficar só nesse exemplo, os professores continuam entrando em sala de aula e prometendo aos alunos “ensinar-lhes língua portuguesa”. Como se possível fosse eles chegarem ao espaço escolar ignorantes de quaisquer conhecimentos acerca de sua própria língua materna. Ninguém precisa frequentar escola para dominar sua própria língua! Ela nos é socialmente imposta, independentemente de nossa vontade. O desafio da escola, então, não é “ensinar língua portuguesa”, mas motivar os alunos a aprenderem a variedade socialmente prestigiada e reconhecida, chamada por alguns de norma culta da língua. E se esse processo se dá capitalizando o conhecimento prévio do falante, como confirma cientificamente a pesquisa do doutor Morris, o caminho será mais curto e sem frustrações.

Pois foi a incompreensão dessa obviedade que levou a mídia e os linguistas de ocasião a injustamente lincharem o livro didático “Por uma vida melhor”, da professora e pesquisadora Heloísa Ramos. Lembram-se?

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1 comentário
  1. Cristina Diz

    Fantástico.
    Essa ideia de guardar notas para investigação posterior é preciosa. Para além do objecto da investigação, conseguimos sempre apreender mais objectos dignos do mesmo. Eu fico febril perante as descobertas, professor. Quero sempre ir mais e mais longe, na grande maioria das vezes. Depois vem o sentimento de caos. Porque há btanto que desconhecemos perante o tão pouco tempo que temos para usufruir das descobertas.
    Saborear é preciso. Ando nesse exercício há algum tempo. Anos é algum tempo. As paixões pelas letras atropelam se. Que me recomenda? Poesia, já tomo diariamente. Depois de ler uma das suas crônicas, voltei à Seleta em prosa e verso de Manuel Bandeira.
    Vem me á cabeça uma música: ando devagar porque já tive pressa, mas mesmo devagar, investigar é descobrir.

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