Da Figueira da Dona Dilu à Conferência do Clima

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Apesar de o título parecer absurdo, todos vão entender do que se trata. Há um pouco de reminiscência, pois sabemos que lembrar também é viver e chega um tempo da vida em que o presente evoca muito o passado, não só para comparações, mas, também, para tirar lições edificantes ou banais como a que vou retratar, um refresco para a alma.

No Evangelho de Marcos (MC 13, 24-32), há uma passagem que trata do fim do mundo e diz: “naqueles dias, depois da grande tribulação, o sol vai se escurecer, e a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas…Aprendei, pois, da figueira esta parábola: quando seus ramos ficam verdes, sabeis que o verão está perto”.

Marcos, posteriormente, avisa: quando a Figueira não der mais frutos e seus ramos começarem a secar, é um anúncio de que o fim do mundo está próximo. Essa passagem bíblica é própria de um período histórico chamado Apocalítico e vivido pelos povos do entorno do Mediterrâneo nas suas guerras de conquistas infindáveis.

Na cidade de Itacoatiara, Estado do Amazonas, onde nasci, em frente a casa onde eu morava, residia uma Senhora, chamada Dilu, diziam que vinha de uma família importante do começo da cidade; tinha sido, portanto, em outros tempos, como não se diz mais, uma “lady”.

Morava sozinha e já era idosa. No imenso quintal da sua residência, havia um pomar diverso e com espécies até exóticas para nós, amazônidas: uma Parreira e, também, uma “Figueira-de-fruta”, que eram atrações da cidade.

Nossas Cartilhas de Alfabetização, escritas por gente do sul, falavam que “o Ivo viu a uva” e nossas professoras, embasbacadas, não conseguiam explicar o que era uma uva de verdade. Não tinha outra! Quem quisesse aprofundar os estudos ia na casa da Dona Dilu e ela dizia, mostrando a Parreira, didaticamente: “é desta árvore que vem a fruta chamada de uva”, que víamos estampada nos nossos livros. Isso já era uma lição de credulidade.

Entretanto, tal como Nero, que ateou fogo em Roma e ficou tocando lira e depois disse “que não foi bem assim”; ou, ainda, como um tal Chefe de Estado, que teve a coragem de sair pelo mundo dizendo que “A Amazônia não pega fogo porque é úmida, e é mentira dos que propagam isso… ela está intacta”, o Padre da cidade, no sermão da missa do 33.o Domingo do Tempo Comum, danou-se a pregar o fim do mundo, e gritava desesperado no púlpito da Igreja: “Convertei-vos!…Convertei-vos! e lembrem: quando os ramos da Figueira não derem mais frutos, está próximo o fim do mundo!”.

Isso gerou um grande desespero, e dias depois, correu na cidade a notícia de que a Figueira da Dona Dilu não estava mais dando frutos. O povo não cessava de inventar visitas à “solitária lady”, com o pretexto de confirmar se era verdade mesmo que a Figueira não estava mais dando frutos.

Assim, Dona Dilu, por causa da danação do Padre virou, além de dona da Figueira, a dona da verdade.

Os Chefes de Estado, dos mais ricos aos mais pobres (excetuando Bolsonaro e Xi-Jinping, que estavam cuidando de outros “incêndios”), reuniram-se em Glasgow, Reino Unido, na COP 26 e mentiram, mentiram exageradamente: iam por limites ao Aquecimento Global e ao Efeito Estufa, iam sequestrar carbono na marra, iam proibir o uso de combustíveis fósseis, iam criar um mercado de compra e venda para o sequestro de carbono com 100 bilhões de dólares e coisa e tal.

Depois, foram embora e deixaram seus prepostos numa briga semântica que tornou o “Acordo de Glasgow” um vir a ser mais remoto possível. Sobrou, apenas, o protagonismo dos jovens e dos cientistas sérios do mundo, que sabem o que estão dizendo e não aceitam mais o “blá, blá, blá”, nem as mentiras dos “donos do mundo”.

Que saudades do quintal da Dona Dilu!

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