Dabacury: a festa tribal da felicidade!

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Para escrever sobre o dabacury, busquei no escaninho de casa um livro Antes o Mundo Não Existia, de autoria Luís Lana e Firmiano Lana, pelo qual expuseram ao mundo na cosmovisão do seu povo indígena, o Dessana, habitante da bacia do rio Tiquié, afluente da margem direita do rio Waupés, por sua vez tributário da margem direita do alto rio Negro.

Nesse rio está o município de São Gabriel da Cachoeira, estado do Amazonas, onde iniciei minha vida profissional indigenista, em 1986. Lá, tive a oportunidade de conviver, por quatro anos, com a riqueza e a beleza da diversidade etnocultural do alto rio Negro.

Para se ter ideia da grandiosidade desse fenômeno, são quatro famílias linguísticas diversas: Yanomami, do povo Yanomami; Betoya/Tukano,  dos Tukano, Dessana, uyuca, Tariana; Aruak, falado pelos Baniwa; e Tupi, a fala dos remanescentes e resilientes Baré/Werequena que, ao perderem sua língua original, assimilaram a Língua Geral, trazida e disseminada pelos missionários nos tempos da colonização e usada como meio de dominação e redução linguística.

Na visão Dessana Yebah Buroh criou o mundo, (que poeticamente tupinizei e ressignifiquei como Tupã – da mitologia Tupi).

No início era o frio e o vazio: o caos. O interessante é que já se tinha quatro casas, demonstrando os pontos cardeais, mesmo no escuro. E existia uma nuvem mágica, que vivia e se alimentava do som da explosão primordial da criação do universo.

Interessante também que ela já tinha atributos humanos como suar e se sujar, daí que ela gerava ceroto (sujeira das axilas). E num ato de amor resolveu criar a terra.

Para isso formou com o ceroto do seu corpo um bolo pequenino, salivou-o e soprou-lhe o ‘sopro da vida’. A bolinha cresceu devagarinho até ganhar a forma da pangeia, a terra primeira.

Em seguida criou os rios, as florestas, os mares, os animais, os seres unicelulares e minerais, enfim tudo. Mesmo assim, a nuvem sentia-se sozinha.

Por último decidiu criar as humanidades (no plural). Desceu à terra na forma de uma cobra-canoa, chamada Sempiron em frente ao serra de Niterói, no atual estado do Rio Janeiro, onde desovou e desses ovos nasceram os povos Tupi e Tupiniquim; e subiu o litoral e em cada lugar que parava deixava um ovo, que servia de semente para as novas gentes: na altura do Espírito Santo, deixou os Capixaba; na Bahia, os Abaeté e Tupinambá; no Ceará, os Tabajara; no Rio Grande do Norte, os Potiguá …

E ao chegar à boca do Mar Dulce ou Paraná’tinga, (o rio das águas barrentas) adentrou-o e continuou com a desova das civilizações: em Belém, deixou os Marajoaras; Monte Alegre, os Gurupatuba; Santarém, os Tapajônicos; Nhamundá, as Ycamiabas; Manaus, Ajuricaba; no Solimões, os Yorimã; e, subiu o Uruna (rio Negro) até a cachoeira de Ipanoré, no rio Waupés (vitória-régia), onde desovou a civilização das águas negras (decantada por Auxiomílio Bruzzi): Tukano, Dessana, Tuyuca, Tariana, Cubewana, Arapasso e as demais, que se somaram aos Yanomami do Pé do Pico da Neblina; os Baniwa do rio Içana e os Werekena (Baré) do leito do rio Negro (de famílias linguísticas diferentes).

O último a nascer foi o kariwa (o branco), que já veio de botas e espingarda, símbolos do poder bélico e de sua presunçosa superioridade.

Cada povo que nascia recebia os dotes-presentes (individualizados para a especialização de cada povo): os instrumentos de festas, adornos corporais, utensílios domésticos destinados a compor o arca da cultura material e imaterial do alto rio Negro; e receberam também línguas diferentes e a singularidade sinfônica musical do povos, cabendo a Jurupari, o herói legislador, tocar a flauta sagrada para anunciar o multicultural dabacury: festa do encontro de todos os povos para agradecer à terra-mãe pela dádiva dos alimentos, para então, festejarem pelo tempo que tiverem comida e bebida (três ou mais dias), que unidos pelo mesmos bailados e cantorias, não careciam de suas línguas (diversas) para celebrar a vida comunal que a Criadora, Yeda Buroh, lhes deixou.

Antes de voltar a via láctea, a maloca celestial, o rio de estrelas de onde preside a obra de sua criação, doou à civilização das águas negras a capacidade de aperfeiçoar sua criação”.

Sem medo de ser feliz, traduzo hoje dabacury como o encontro dos povos do alto rio Negro para festejar a felicidade!

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