Assim é a mostra picuá de cinema e literatura, no Tepequém, em Roraima

Por Dassuem Nogueira

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A I Mostra Picuá ocorreu no último final de semana na Vila do Paiva, distrito de Tepequém, município de Amajari, em Roraima. A primeira noite de exibição foi brindada pela lua cheia que iluminava toda a pequena e aconchegante vila.

O palco foi montado em um gramado cuja vista é o topo do Tepequém, que perfilou imponente na lua cheia.

Foi estendido tapete vermelho e holofotes coloridos que faziam o evento parecer uma nave pousada.

Se nave fosse, sua escuderia seriam os quadros de Ednel Pereira, artista que um dia subiu o Tepequém e de lá nunca mais saiu.

As obras de Ednel replicadas nas grades demonstram sua fixação pela imensidão de Roraima: o monte homônimo, a serra do Tepequém, o lavrado. E tem os rostos de suas gentes humanas, pássaros, macacos, sapos, pedras.

Suas obras muralizam os pontos de ônibus que nomeiam as comunidades do caminho até a Vila.

Os troféus também foram confecção sua e de seu irmão, o também artista, Ednelson Pereira, feitos de madeira fóssil, pintados de preto com tinta automotiva. Cada troféu é uma criação única.

Ali sentados nas cadeiras ou deitados no gramado, o público assistiu aos artistas e poetas que declamaram, performaram e encenaram os textos.

Em seguida, assistiram aos filmes. Cada um com uma ficha de avaliação para votação popular e uma caneta esferográfica que deveria ser devolvida ao final, para que pudessem ser doadas à escola Olavo Bilac.

Na escola, ocorria paralelamente Mostra Sesc de filme infantojuvenil, a fim de contemplar pais e cuidadores interessados em assistir a mostra, além, da própria comunidade que poderiam lá acomodar suas crianças.

A preocupação em dar retorno imediato para a comunidade tornou-se evidente. Além das canetas, outras tintas foram doadas.

Um dos patrocinadores, Perin Materiais de Construção, doou tintas para a pintura da escola.

Na abertura, foi chamada a falar a presidente da associação de moradores da Vila do Tepequém. Além de ter sido homenageado o poeta da vila Francisco Galvão, o Cotia ou Galvão, nordestino que assim como Dona XXX, chegou ao Tepequém atraído pelo garimpo na década de 1990 e assim como Ednel, do Tepequém nunca mais saiu.

Na mostra foram homenageados ainda o compositor roraimense Ricardo Nogueira e o artista plástico Jaider Esbel, falecidos nesse mês de novembro.

Nessa Amazônia de serras, o clima frio pediu agasalho e fogueira que foi acesa para juntar os inimigos do fim.

No outro dia, a mostra foi presenteada com chuva e teve que acontecer na escola. Lá, agasalhados da chuva e do frio, mais juntos e sob a luz branca da escola, podíamos nos ver e os artistas puderam não usar microfone para suas exibições.

Assim, íntimos, o público assistiu ao poeta, ao cantor e filósofo Eliakin Rufino declamar sua poesia, no Dia da Consciência Negra. Soltou e balançou seus cabelos de Angola fazendo vibrar a plateia.

Assim como as apresentações da estreante Inara Nascimento, que interpretou seu poema Do desejo e a encenação do grupo de teatro Criar Teatral que interpretou a prosa O livro do amor, de Edgar Borges, sendo aplaudido de pé e fechando a mostra de textos literários.

Inara Nascimento recebeu o 3º lugar do júri na categoria poesia e a prosa de Edgar Borges recebeu o segundo lugar da votação do público.

O melhor filme segundo a votação do público foi o curta Mike, de Claudio Lavor, que conta a história de Mike Guybrás, cantor e musicista guianense que se radicou em Boa Vista tornando-se expoente da musicalidade negra transfronteiriça.

O melhor curta segundo o júri foi dado a animação Adeus meu querido Mandi, de Bruno Vilela, de Manaus, todo narrado em idioma Baníwa, o mais próximo do idioma Manaós, povo de Mandi, para contar sua história e de sua família na guerra liderada por Ajuricaba, também transfronteiriço, mas em outros sentidos.

Ganharam menção honrosa do júri o curta Seremos ouvidas, de Larissa Nepomuceno, do Paraná, todo em libras, que falou sobre as pautas de gênero de mulheres surdas e o poema Toninho, de Sâmia Kapon, uma homenagem ao professor Devair Fiorotti “in memoriam”.

O primeiro lugar em prosa, segundo o júri, ficou com Pé d’água, de Gabriel Alencar e segundo o público, Livro de Amor, de Edgar Borges. Em poesia, o prêmio do júri foi para O avião adentra, de Neto Freitas e o prêmio do público foi para Medo, monstros e Lama, de Edgar Borges, interpretado por Everton Alves e Júlia Barroso.

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1 comentário
  1. Rodrigo Silva Diz

    Que legal…!!
    Esta foi uma visita excelente, gostei muito, voltarei assim
    que puder… Boa sorte..!

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