“Não foi possível cumprir o juramento”

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Domingo, dia morno, daqueles que não chove, mas também não faz sol, decidimos ir a um restaurante de um amigo, que não frequentávamos desde o início da pandemia. Como parte do ritual, primeiro demos aquela passadinha em frente para conferir se ainda existe ou se foi tragado pela crise. Surpresa! Ele está de pé, repaginado. Paramos para conferir.

Depois de acomodados em uma das mesas e feito o pedido, o amigo surge, como sempre, para cumprimentar os clientes no salão, dá-nos boas-vindas e cobra a ausência por tanto tempo. Respondo: pois é, agora é que retomamos nossas saídas! De pronto veio a resposta: “bobagem, tanto sacrifício pra nada, esse tal de ‘fica em casa’ é o responsável pelo que deixamos de viver e de ganhar; aqui perdemos quatro colaboradores, mas todos tinham outros problemas e morreram deles. Eu mesmo perdi a minha mãe, mas ela tinha 85 anos e sofria de problemas pulmonares”. O que eu faço?

Não estava pronto para ouvir isso, porém o instinto falou mais alto: tenho certeza que você está equivocado, não foi o “fica em casa”, foi a negligência, o negacionismo e a decisão de governo em não comprar vacinas que nos deu esse resultado”.

Nesse momento, o nosso pedido vem chegando, olho para o amigo e olho para o prato; ele olha para nós, seus clientes de velhos tempos e engole a “baba”. Tudo está no ponto, como antigamente! Ele nos deixa e vai para a outra mesa, onde encontra a alegria de novos confrades comilões.

Comemos tudo e deixamos a reflexão para depois. E na DR da amizade, deu para sentir um certo sabor de hipocrisia, um pouco de culpa e a convicção de que nossa solidez ideológica nem sempre resiste aos nossos desejos, às nossas fraquezas morais e alimentares.

Sobrou aquela dor sem consolo dos que ainda têm algum grau de consciência e vivem num país de tantas desigualdades, de tanta fome, de tanto desemprego; de tantas chacinas, praticadas por agentes pagos com o dinheiro público para matar pobres nas favelas, nos becos e jogá-los nos charcos da periferia.

Por que pensar barato e não incluir nessa conta do dinheiro público o Seminário de Lisboa, “a Davos dos Garantistas”? Para lá, segundo a apuração da Folha de S. Paulo, nossas autoridades seguiram em “carreirinha”, fazendo uma farra sem tamanho, para discutir o aprimoramento da visão político-jurídica nacional.

A Festa foi tão grande e animada que até os sites de comentários políticos de esquerda e de direita se transferiram para lá ao som de fados; e, enfadados, alguns ficaram pelas bordas, discutindo os destinos da nação, da economia global, da justiça, da imprensa e da autodeterminação dos povos em ser ou não uma ditadura; uns custeados a fundos públicos, outros a fundos que desconhecemos.

O meu temor, já ao fim da tarde de domingo, depois de bem alimentado, era o de que a Declaração do Seminário de Lisboa trouxesse como conclusão: “Na impossibilidade de uma terceira via ou o sucesso de um clone palatável, recomendamos a devolução do Brasil à Portugal”.

Como isso não se consumou, abri o meu “livrão” de cabeceira, na página 847, onde havia parado e conclui a leitura do tópico:

“É preciso evitar transformar a renda básica numa espécie de solução milagrosa que permitiria dispensar todos os outros dispositivos institucionais. No passado, a ideia de renda básica foi, por vezes, instrumentalizada para promover uma espécie de ‘quitação de qualquer dívida’, justificando fortes cortes nos outros programas sociais. Por isso, é importante pensar a renda básica como um elemento constitutivo de um todo mais ambicioso que inclua o imposto progressivo sobre a propriedade e a renda, a dotação de capital e o Estado de bem-estar social” (PIKETTY, Capital e Ideologia, 2020). Coisas que até os países capitalistas têm, “e dá medo”, como disse o Guedes.

Essa discussão é a que deveria ser feita com o povo brasileiro, no Brasil e não em Lisboa. Quem sabe, se assim fizéssemos, o domingo de todos não seria bem melhor?!

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