Encantados de Murutinga

Compartilhe:

Diz a lenda que nos tempos que os indígenas muras eram os grandes canoeiro do rio Madeira, a comunidade denominada Murutinga, localizada no município de Autazes, nas margens do rio Autaz-Mirim, uma jovem chamada de Mari’aru, mesmo enjeitada pelos jovens da aldeia para casamento, por ter uma perna mais curta que a outra, concebeu dois filhos de um “encantado”.

Existia (e ainda existe até hoje) entre a aldeia Murutinga e o povoado do Novo Céu, um longo caminho que acompanha a beira do rio. E no meio desse caminho existe um covão a céu aberto. Os moradores, mesmo que jogassem detritos para tapar o buraco, esse nunca se enchia e, magicamente, resistiu ao tempo assim, sem nunca se encher.

Quando as tristezas da vida cercavam Mari’aru, ela ia até a boca do covão e lá ficava de cócoras, fumando e olhando para o centro do buraco, perdida em seus pensamentos. Quando o calor ficava se fazia mais intenso, ela descia até as águas do rio para se banhar. Após o banho voltava capengando, molhada e toda faceira.

Os demais moradores da aldeia a taxaram de “doida”, “da lua”, “da beira do covão”. Mas ela não se importava. Esse era o único local que lhe dava realmente tranquilidade.

Certo dia, a sua menstruação não veio. No entanto, ela continuava virgem e sem marido. Mas como era tida como doidivana, ninguém ligou para o fato e a comunidade não a recriminou. Os moradores imaginaram que algum jovem, num excesso sexual, a tinha possuído à força e isso a teria engravidado.

Durante a gravidez tudo correu normalmente. Após o parto, assim que saiu do resguardo, numa bela manhã de sol, levou a criança consigo até a beira do covão e voltou sozinha. A criança sumiu.

O cacique da comunidade, Kayweh, ao tomar conhecimento, organizou uma busca com os guerreiros no caminho onde ela deambulava, mas não encontrou a criança. Mari’aru apenas sorria a beira do buraco, como se estivesse com os filhos nos braços. Com os olhos presos às águas, parecia muito feliz da vida.

O pajé da aldeia, Ayury, foi chamado para tratar do caso. Após cheirar o rapé sagrado, pariçá, dar várias voltas ao redor do covão, foi até a beira do rio, entrou no mesmo até a altura do joelho, apanhou água com as mãos, trouxe-a até a altura do nariz, cheirou e fez uma careta. Voltou para a beira do covão e sentenciou: “Isso é encantaria, coisa dos botos, não tenho poderes para combater a força mística dos encantados, o remédio para esse isso é apenas fechar o poço (espiritualmente)”.

A partir desse dia o cacique Kayweh pediu que todos evitassem o caminho que leva ao covão, principalmente, as mulheres, pois qualquer mulher, desprotegida espiritualmente poderia engravidar e ou até sumir, como sumiu o filho da Mari’aru.

E mandou cortar vários feixes de canarana do lago mais próximo, trouxe-os para secar sobre o buraco e depois ateou fogo até restarem apenas cinzas.

O tempo passou e em uma noite agradável e clara de lua cheia, com o relaxamento da vigilância dos parentes da casa de Mari’aru, ela fugiu e correu para o covão e foi ter com encantados.

E mais uma vez, após o banho no rio, voltou grávida. Desde então, ela passou a ser vigiada dia e noite.

Após o parto, a mãe dela tomou para si a tarefa de cuidar do menino. Mari’aru era proibida de ver seu filho. Vivia muito triste, sem apetite para comer e emagreceu. Esse castigo era muito pesada para a pobre moça.

Uma tarde caiu uma tremenda tempestade recheada de relâmpagos e ventos fortes que vergavam as palmeiras de açaizeiro. Mari’aru aproveitou a confusão e o medo que o povo indígena tem da voz de Tupã, o trovão, entrou na oca de sua mãe, pegou o seu filho e correu para a boca do covão. Ao fim do temporal, toda enlameada voltou sem o seu filho.

O pajé foi chamado de novo para benzer o buraco, que não surtiu efeito, pois mais uma vez o segundo filho desapareceu e sua mãe parecia não sofrer.

Voltava sorridente, como se seus filhos estivessem ao seu lado brincando, pulando, fazendo-a feliz. Mari’aru, antes de dormir cantava cantigas de ninar, como se estivesse com os filhos nos braços.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.