A leitura nossa de cada dia

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Pensando bem, eu tinha certeza em um aspecto e já desconfiava do outro. Mas foi preciso mais tempo, mais informações e mais amadurecimento para juntar as duas pontas da equação e entender melhor a quantas andam a leitura nesses tempos de internet e redes sociais. Eu diria que acertei no acidental, mas errei no essencial.

Digo que acertei no acidental porque, inúmeras vezes, me lembro de ter manifestado convicção de que via nas redes sociais uma espécie de alvissareira passagem para ampliar o número de leitores e o hábito da boa leitura. E não estava errado, não. Na verdade, acredito mesmo que nunca se leu tanto quanto em tempos dessas novas tecnologias.

Quem segue alguma rede social – e é raro hoje quem não o faça – sabe que acorda e dorme grudado lendo mensagens de toda e qualquer natureza. Tenho certeza, para ficar num só exemplo, de que na área de literatura nunca se popularizaram tantos textos em prosa e poesia. Nunca tantos poetas e escritores passaram a ser tão conhecidos. E nunca tantos poetas e escritores, antes anônimos, se mostraram e mostraram do que são capazes.

E ouso dizer também que, nesse clima, muita gente venceu a timidez e passou a enfrentar, cada um ao seu modo, o desafio de criar seus próprios textos, talvez como nunca na história da escrita. Mas este é um aspecto que prefiro deixar para uma outra abordagem. Agora quero me prender à questão da leitura.

O fato é que nunca se leu tanto quanto nesses tempos de internet e redes sociais. Estudiosos calculam – e não me perguntem como chegaram a essa estimativa – que lemos cerca de 100 mil palavras por dia. Acontece, entretanto, que todo esse avanço na leitura se dá apenas de forma quantitativa e a conta-gotas nas telas dos celulares e computadores. Ou seja, lê-se muito, mas sempre por alto. Metaforicamente, é como se nos contentássemos em ver blocos de fumaça no céu sem querermos saber a origem do fogo na terra. E foi aí que eu errei no essencial.

Eu mesmo fiz algumas experiências em várias de minhas postagens. Compartilhava textos mais longos, reunindo entre seis e oito parágrafos, e eram sempre lidos por um número muito reduzido de pessoas. Eram raros os comentários. Do mesmo texto, eu extraia e compartilhava uma frase contendo entre vinte e vinte e cinco palavras, e o número de leitores aumentava exponencialmente. A quantidade de comentários, também.

Mesmo de maneira simples e tão informal, sem nenhum rigor científico, essas experiências não deixam de evidenciar que a grande maioria desse grande universo de leitores das telas de celulares e computadores criou o hábito de se dar por satisfeito com a leitura rápida e, portanto, superficial. Em outras palavras, estamos diante da categoria de leitores que leem sempre por alto, que ouvem o galo cantar, mas não sabem onde.

Ora, é sabido que esse tipo de leitura nos dá acesso apenas às informações localizadas na superfície do texto. Neste caso, se nos perguntarem sobre o texto lido, somos capazes de dizer que ele trata disso e daquilo, da mesma forma que lemos um romance e somos capazes de contar o início, o meio e o fim da história.

Mas isso é o mínimo que se espera para se chegar a um outro estágio, o da leitura profunda, aquele estágio em que o leitor não se contenta apenas com o que é dito, mergulha nas entrelinhas do texto, faz incursões nos silêncios das palavras, apreende sentidos que não estão explícitos, faz analogias, constrói inferências e empreende comparações. Essa, sim, a leitura que promove verdadeiramente a transformação dos leitores em seres críticos, analíticos, sensíveis, empáticos e conscientes do mundo que os cerca.

Não sei o que acontecerá no futuro, mas convivo com a firme esperança de que o aparecimento de tantos e novos leitores, motivados por esses tempos de internet e redes sociais, seja apenas uma etapa para se chegar ao desejável estágio da formação de leitores que farão a diferença no mundo.

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