Cobra Grande do Lago de Coari, no rio Amazonas 

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Diz a lenda que, no final do século 17 e início do século 18, antes do Frei Samuel Fritz invadir com suas canoas e sua fé (cristã) as águas do Lago de Coari, os povos indígenas Katauixi, Iriju, Juma, Mura, Miranha e outros viviam como Tupana (Deus) os colocou no mundo: quase nus, mas felizes e de acordo com a cosmovisão de cada um: os povos guerreiros guerreavam; os canoeiros remavam; os agricultores plantavam e todos festejavam as vitórias e as safras em festas comunais de acordo com os quartos das luas.

Naqueles tempos a alimentação básica era a caça, a pesca, os frutos e raízes dos pomares silvestres;  e os alimentos  produzidos na roça-de-toco, como: farinha, tapioca e pé-de-moleque.

O açúcar era retirado das colmeias das abelhas e o sal das cinzas do barro queimado dos barreiros das antas, porcos e macacos, os carboidratos da floresta e das águas.

A vida era naturalmente quase um paraíso.

O Lago de Coari, maior beleza natural da região, era rico de pescados de todas as espécies, daí a densa povoação humana no seu entorno.

Essa magnífica região é formada pela desembocadura de três grades rios:  Coari, Urucum e Aruã, que de tão grande, dá a negritude do lago o aspecto de uma enseada do mar num fim de tarde.

Porém, quando a seca era grande, tornava-se muito perigoso atravessá-lo, dada sua extensão e por causa de uma enorme serpente que morava num  poço central do lago; ela atacava as canoas ou igarités e sumia com seus tripulantes.

Corda de cabelos 

Catauari, líder maior do povo Catauixi, se dispôs a resolver o problema. Saiu em sua canoa de casa em casa para pedir a todos, homens e mulheres, que deixassem seus cabelos crescer até a região da panturrilha, quando poderiam cortá-los à navalha de paxiúba e, assim, os enviassem para a aldeia Patuá, sua moradia.

Nessa época, homens e mulheres deixavam os cabelos crescer como sinal de formosura. Para que os cabelos crescessem fortes, Catauari recomendou que os untassem com óleo natural de castanha [do Pará], abundante nas margens do lago.

Após dois anos de coleta de cabelos, os homens e mulheres da aldeia Patauá começaram a trançar um cabo grosso, de aproximadamente duas polegadas de espessura e com mais de cem metros de comprimento.

De uma peça de madeira paracuuba (o âmago mais duro da região), Catuari mandou retirar um galho grosso, em forma de V irregular, ficando a parte mais grossa com dois metros de tamanho e a parte mais curta com 40 cm.

Colocou a mesma sobre o fogo brando por duas noites para ‘curar’ a madeira. Pediu que os guerreiros fossem ao mato caçar porcos catetos e trazê-los vivos, que fizeram e retornaram com quatro presos às varas.

O velho tuxaua observou que a cada sete anos tinha uma cheia e uma vazante muito grande. Este era o ano de seca grande.

Amarrou o cabo de cabelos ao pé de uma frondosa samaumeira no porto da aldeia Patuá e mandou todos os guerreiros se pintar para a guerra. Chamou o pajé Kaywé (o homem santo da aldeia) e pediu que defumasse o cabo.

Quando a lua escura chegou, ele prendeu na extremidade do cabo a armadilha de madeira com um porquinho, caçado e mantido vivo até esse momento.

Os canoeiros deixaram a embiara no largo do lago, preso a uma boia de madeira molongó, que a ajudava a flutuar.

O primeiro porco, após várias horas de luta contra as correntes pereceu. Na outra noite, repetiu-se a tentativa, que, mais uma vez, fracassou. A cobra não apareceu e outro porquinho morreu.

Na terceira noite os canoeiros e guerreiros, armados de tições e gambás fizeram grande alarido nas proximidades do poço que diziam ser a moradia da cobra.

Após, colocaram dois porcos atados à armadilha para que se movimentassem com mais intensidade nas águas para chamar a atenção da cobra.

Próximo da meia-noite a ‘bicha’ boiou e se aproximou dos porcos, rodeou-os e verificou se estavam sadios. (Cobra não come animal morto ou doente – faro da mãe natureza).

De uma vez só, engoliu os dois catetos junto com o ardil de paracuuba. E deu a primeira correria ou estica para se livrar do cabo de cabelos.

O cabo entesou e balançou a centenária sumaumeira onde estava ancorado. Todos os guerreiros correram para suas canoas no intuito de finalizar a pesca da cobra-grande.

Catauari, do alto de seus 60 anos ordenou: “Fiquem todos no barranco, longe da área de extensão do cabo; se ele arrebentar pode matar um ou mais”.

E todos o obedeceram.

A cobra corria de vez em quando, se aquietava um bocado e em seguida dava um esticão no cabo, fazendo o terreno ao redor da sumaumeira estremecer. É isso se deu até o meio-dia do dia seguinte. Quietude e correria.

Árvore gigante

A árvore gigante, símbolo da Amazônia vergou seu majestoso caule no rumo das águas pela força da cobra. E, de repente, o cabo ficou sem tensão, livre da pressão da cobra.

O povo não acreditou no que viu. Após tanto esforço a cobra havia escapado. Recolheram o que sobrou do cabo. E cada um tomou o rumo de suas casas, sem condições de entender o que ocorrera.

Uma semana se passou. O rio ainda estava secando. Um indígena passando com sua canoa pela ponta da praia da Maresia, avistou a armadilha de paracuuba jogada na praia rasa. Apanhou a mesma e a trouxe para o aceiro da aldeia Patauá.

Catauari, mesmo desanimado a recebeu e a colocou no pé da samaumeira torta e lá ficou por um bom tempo.

Hoje existe uma velha samaumeira no porto da aldeia Patauá, para lembrar a todos a tentativa do cacique Catauari em pescar a cobra grande.

Os índios velhos da tribo Catauixi juram que ainda é a mesma árvore, vergada desde o dia da pescaria da grande cobra do Lago de Coari!

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1 comentário
  1. Luzia Caldas Diz

    João Melo, é também um poeta nas suas escrituras, um apaixonado pelas estórias amazônicas. O Amazobas deve recongecer o seu valor.

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