Um combo de imaginário amazônico de presente

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Há um costume amazônico que me cativa muito e que constato em minha família desde a infância, que é a prática de contar histórias de terror ou histórias de visagens.

Visagem é como se chamam os fantasmas no vocabulário amazônico ou coisas misteriosas e sem explicações, e que acabam assustando.

Não gosto da palavra causo, pois soa como mentira e não é de bom tom duvidar da pessoa que está contando a sua história – se ela diz algo aconteceu é porque aconteceu.

Nas cidades interioranas, principalmente, chega a ser má educação ou ofensa grave duvidar do contador de histórias.

Particularmente, gosto desse viés narrativo, pois, a partir dele se tece o imaginário coletivo. Quem conta o que viu, é porque viu; e quem escuta, porque acredita; e os poucos que duvidam se aventuram na busca da verdade e acabam parados no muro do imaginário que se renova sempre.

Dizem que a maior parte da vida do ser humano é vivida no imaginário e, no interior da Amazonia, essa máxima é uma realidade. Afinal, por aqui, a magia e o encanto estão presentes em tudo e não deveriam ser perturbados.

Nas férias de fim de ano, depois de meses desafiadores de 2021, estava ansioso para me aproximar novamente da natureza, com saudades da área rural de Parintins.

Aproveitamos para ir até a praia de Açutuba, no município de Iranduba, no outro lado do rio Negro.

Pernoitamos em chalés entre a floresta e a praia.

Pude novamente me conectar com esse imenso rio Negro cheio de praias de areias brancas. Estávamos com amigos e aproveitamos bem a presença de todos.

Poder ir até a natureza de rios e florestas deveria ser urgente para todos nós. Assim, poderíamos entendê-la melhor e cuidar dela com mais carinho.

Nossos amigos são todos do interior e compartilham conosco o mesmo sotaque da região do baixo Amazonas, entre Parintins e Nhamundá.

À noite fizemos um jantar no fogão de lenha, com peixes regionais preparados do nosso jeito.

Antes do jantar ficar pronto, a luz elétrica entrou em pane. Por algum motivo estávamos sem luz, na escuridão da floresta amazônica.

Abaixo de nós, o riozão; e atrás, a selva, ambos mergulhados na escuridão. Estávamos sem internet, dos celulares só funcionavam as lanternas, usadas com parcimônia, pois não sabíamos por quanto tempo ficaríamos sem energia elétrica.

Percebi que nós, da cidade grande, conversamos pouco. Dificilmente paramos para ouvir as pessoas, principalmente, nas horas de lazer.

A conversa é um ato de ouvir e ser ouvido. Digo mais: a atenção que damos a pessoa que está conversando conosco é uma forma de sentir a energia do mundo, porque quando ouvimos, conseguimos saber se o interlocutor está triste ou alegre etc.

Nós, jovens, estamos deixando de ouvir as pessoas, nossa atenção está sempre dispersa.

Mas não nos culpem por isso. A saber, existe um sistema político que se beneficia desse estado de consciência.

Volto ao momento da escuridão nos chalés. Pude realmente ouvir e sentir o vento vindo do rio, enquanto minha atenção estava focada nos amigos.

Logo após o jantar, começamos a contar histórias de visagens. Contar histórias é uma arte. Não é qualquer pessoa que tem habilidade para convencer o outro de um fato ocorrido. Geralmente, são mais velhos e as pessoas do interior que dominam esse conhecimento, porém há jovens que o possuem também. Ouvindo essas histórias, testemunhei a manutenção das possibilidades de perpetuação dos saberes das culturas amazônicas.

Conosco estava um mestre em contar histórias de visagens, o Seu Zacarias.

Esse senhor é do beiradão amazônico mais que todos nós juntos, como se diz a respeito dos mais sábios.

Ele tem essa habilidade de nos colocar imersos nas florestas e nos rios. O interessante é que as lendas e certos personagens que são repetidos vão se atualizando ou se renovando a cada ano.

Isso ocorre porque cada região do estado conta a mesma lenda, porém de outra forma, e com criaturas diferentes.

Esse é caso do Boto Ivo, que aparece na misteriosa língua de praia entre Nhamundá (AM) e Faro (PA). Quem ousa caminhar por essa praia em horário não recomendado cai no mundo dos Encantados, que são os humanos que não morrem, apenas se transferem para o fundo do rio ou para as florestas.

Isso aconteceu o certo Ivo, que desafiou o mistério e se tornou Boto Ivo.

Arrepiei-me com as histórias das aparições de alienígenas à luz do dia, no lago da Valéria, no interior de Parintins. Isso começou a acontecer na década de 1980, segundo o Seu Zacarias.

Não faltaram as minhas favoritas sobre os fantasmas dos antigos ricos que, na época da Cabanagem, antes de fugir enterravam, às pressas, seus tesouros no meio da floresta. Esses tesouros permanecem perdidos. Porém, se alguém achar e revelar a fortuna a outro, os objetos valiosos (moedas de ouro, cordões de ouro, barras de ouro etc.) se tornam areia esvaindo-se entre os dedos das mãos do então sortudo fuxiqueiro.

A luz demorou retornar, a conversa era boa e o ambiente ajudaram muito na criação do estado de verossimilhança com a realidade.

Se o real é imaginário e o imaginário é real, como dizem os estudiosos do tema, quem sou eu para duvidar da existência de um ser fantasmagórico visto por alguém.

Foi possível sentir a energia que vem das pessoas das quais gostamos e com as quais interagimos.

Por fim, nesse fim de semana, como se fala no meio urbano, recebi um combo de Amazô

nia de presente de férias: comida da terra, rio, floresta, amigos de boa e histórias de visagens.

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3 Comentários
  1. Atanael Maciel Diz

    Muito bom!

  2. Johnnys Diz

    Muito bom \o/.

  3. Fátima Diz

    Enan é Estrela de brilho próprio.

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