O Caçador de Curupiras

Compartilhe:

Este causo se deu na estrada do Quebra, que liga o Porto da Vila Amazônia ao assentamento Agrícola Boa Esperança, no município de Parintins (AM), em junho 2008.

Temos um amigo residente em Parintins, Diquinho del Fuego, que conseguiu com o pessoal da Vila um sítio para passar os finais de semana e fazer pequenas plantações de banana e açaí, para ajudá-lo na sustentação econômica de sua família. Diquinho del Fuego, apelidou carinhosamente seu sítio como Flor de Dirijo.

Resolvemos visitá-lo de surpresa. Ao desembarcar no Porto da Vila Amazônia, procuramos um local que vendesse foguetes, gelo, comida e bebidas alcoólicas para o ajutório de nossa boia, durante nossa permanência no Flor do Dirijo.

Para chegar ao sítio, tivemos que alugar motocicletas com capacidade de trafegar no barro alto, que se formava após as chuvas.

Chegamos, enfim, ao sítio após uma hora e meia de poeira de barro amarelão, solto pelos fumegantes raios do sol. Os foguetes fizeram a nossa anunciação.

Após o jantar, deu-se início a uma sessão de viola e cantoria. Parecendo coisa combinada, Domênico da Santa Cruz, morador do fim da estrada apareceu com seu violão dentro de um saco de ráfia.

Os violeiros eram bons e os cantadores se esforçavam para corresponder em afinação. A intenção era varar noite.

Era véspera do Festival Folclórico de Parintins. Tínhamos programado passar dois dias no Flor do Dirijo e o restante na Ilha de Parintins, a capital nacional do folclore, na casa de nossa mãe, Maria Farias, que nessa época era viva.

Começamos bebendo as cervejas geladas pelo escasso gelo que as lonjuras permitiam chegar até as caixas de isopor.

Antes do amanhecer do dia, entramos na pinga com limão e açúcar: a boa caipirinha. Então, eis que chega um sujeito se dizendo morador do outro ramal próximo, que anunciou sua graça como CC, trazendo num saco duas garrafas de pinga, e que por isso mesmo foi muito bem recebido.

Disse que ouviu o foguetório e imaginou que teria toada de boi à noite neste rumo. Ele veio guiado pelo faro, segundo suas palavras. E a cada intervalo de uma toada, o CC contava um causo de sua vivência na localidade.

Quando os primeiros raios do sol banhavam a palma mais alta da tremulante açaizeiro a frente da moradia, ele contou este:

– Me chamam de CC porque sou o maior Caçador de Curupira da região. Não tem outro, todos recorrem a mim para caçar as bichas.

– E o que é preciso para caçar uma curupira?

Ele respondeu:

– Coragem, em primeiro lugar, muita coragem, pois a bicha é malina! Por segundo, os apetrechos da caça, que são: um batom bem vermelho; um pente para cabelos grandes; um maço de velas; uma caixa de fósforo ou um isqueiro; uma carteira de cigarro; um espelho grande de 40 x 60 cm; seis metros de corda nova de nylon de 1/2 polegadas; uma vara resistente de oito metros; duas garrafas de pinga; e dois litros de álcool. Tudo isso é uma merreca para quem quiser ver uma curupira bem de pertinho.

– Desculpe nossa ignorância na arte de caçar curupira, mas pra o que serve cada um desses itens? – Perguntamos.

E ele, de pronto, respondeu:

– O batom é para ela pintar sua boca (seus lábios); o pente, pentear seus cabelos; o espelho, para se apreciar (se ver); o fósforo, para acender as velas e os cigarros; a cachaça, para ela ficar de porre e facilitar a gente amarrá-la com a acorda nova na vara para depois carregar pra beira, pois curupira só anda no centrão das matas altas.

– Ei! – perguntamos: –E o álcool, para que serve?

–Esse é para me dar coragem!

Você é um cara que entende mesmo de curupira, dissemos em forma de elogio ao caboclo, que foi aceito e incorporou-se ao nosso grupo, como se fora um velho amigo!

– Quantas curupiras você já caçou?

Ele respondeu:

– Nenhuma, mas já bebi mais de sessenta litros de álcool.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.