Odenildo Sena fala sobre livros e destaca momento de esperança no Brasil

Do outro lado do Atlântico, em Leça da Palmeira (Portugal), o escritor amazonense Odenildo Sena, 70 anos, cumpre o seu autoexílio escrevendo, relendo clássicos e lendo autores contemporâneos. Em dezembro, ele lançou, por meio de live, uma coletânea de 115 contos intitulada A felicidade precisa de loucura, cuja escolha passou, também, pelo crivo dos seus seguidores nas redes sociais. Odenildo revelou que, no momento, prepara outro livro de crônicas, ainda sem título, ao mesmo tempo em que escreve contos que podem se tornar obra física. Mas, mesmo com escritos e leituras em andamento e em projetos, o escritor confessa que prefere a espontaneidade do tempo a correr contra ele. “[...] tudo o que eu quero mesmo é que o tempo deslize como a mansidão dos rios, que, apesar da certeza inabalável de seu destino, não têm pressa alguma em se encontrar para o abraço com o oceano”. Ele revela que saiu do Brasil angustiado com o golpe de 2016 contra o governo Dilma, mas acredita que hoje é possível ver uma esperança no horizonte do Brasil. Confira a entrevista concedida a Wilson Nogueira:

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Começo pela capa: de onde vem esse título tão apropriado para o contexto dos seus escritos?

A felicidade precisa de loucura (Valer) não era o título inicial que eu havia atribuído. O livro, na verdade, iria se chamar Uma sinfonia do meu tempo. Depois dos originais prontos, já na editora, reli mais uma vez o material e voltei minha atenção para uma das crônicas de nome A felicidade precisa de loucura. Achei que seria um título que chamaria mais a atenção do leitor.

Mas não me decidi naquele momento. Preferi fazer o seguinte: reuni, juntamente com o título inicialmente proposto e essa nova descoberta, mais quatro outros títulos das crônicas que comporiam o livro e realizei uma enquete nas redes sociais.

A felicidade precisa de loucura acabou ganhando a preferência de amigas e amigos. Foi só então que me decidi por esse título, e o título inicial – Uma sinfonia do meu tempo – passou a compor o subtítulo.

Quais os critérios para a escolhas dessas 115 crônicas entre a sua vasta produção literária?

Na escolha das 115 crônicas acabou mesmo prevalecendo o meu gosto pessoal, aquelas

crônicas que mais me tocaram, aquelas que mais me despertaram alegrias e boas memórias. Enfim, não foi nada técnico. Depois, então, das escolhas, eu achei que deveria organizá-las em diferentes capítulos, levando em conta a ideia de que elas representavam uma sinfonia do meu tempo, ou seja, dos diferentes momentos históricos em que foram escritas.

Destaque a crônica que mais lhe satisfaz como escritor desse gênero?

Na verdade, gosto de todas as crônicas que estão no livro, mas devo confessar que tenho especial predileção por aquelas onde resgato memórias do tempo de eu menino, principalmente as que fazem referências à minha mãe, que teve uma importância extraordinária em minha vida.

Adoro, por exemplo, reler a crônica Coisas de mãe, porque nela eu retrato o que considero a síntese de toda a doçura e a entrega do que Mãe representou na minha vida e na vida dos meus irmãos.

Esse gênero lhe atrai por quê?

Tenho predileção por escrever crônicas, mais do que ensaios e contos. Talvez isso se deva ao fato de minha formação de leitor ter passado fortemente por esse gênero de textos. Mas, ao lado disso, eu considero a escrita de crônicas um grande desafio, porque exige que a sensibilidade do cronista esteja sempre à flor da pele, para transformar as pequenas coisas, os acontecimentos aparentemente triviais do cotidiano e as lembranças em pequenas peças literárias. Sim, porque o cronista, parafraseando Victor Hugo, consegue enxergar as coisas além das coisas.

Como eu disse certa vez, lembrando-me do poeta Manoel de Barros, o cronista é um catador de miudezas. E eu gosto de catar miudezas, porque é nelas que a gente encontra a essência do ser humano.

Já dá pra aferir a recepção desse livro?

A receptividade tem sido muito boa e isso tem me deixado feliz. Tenho recebido retorno de várias leitoras e leitores com comentários que me fazem muito bem à alma. Afinal, eu não consigo ver de outra forma: a gente escreve para ser lido, essa é a maior glória de um escritor. É esse retorno dos leitores que nos motiva a levar em frente os encontros e desencontros com a escrita. E o bom mesmo é isso acontecer enquanto a gente está vivo.

Digo isso porque, depois de silenciada a minha voz, depois que eu me transformar em pó, de nada valerá que as pessoas leiam o que eu escrevi. Como lembrou certa vez Lygia Fagundes Telles em uma entrevista a Clarice Lispector, referindo-se a uma passagem de Marília de Dirceu, as glórias que vêm tarde já chegam frias. Portanto, quero que leiam o que eu escrevo enquanto estou vivo. E isso tem acontecido.

Live de lançamento de A felicidade precisa de loucura, em dezembro de 2021

O senhor costuma dizer que escrever é um trabalho duro, que chega a doer. E por que essa dor do escrever lhe encanta tanto?

Eu sou mesmo daqueles que acreditam que escrever não é diletantismo. Escrever é trabalho. Muito trabalho. E trabalho duro. E em meu livro anterior, Aprendiz de escritor, há vários pequenos ensaios onde eu trato dessa questão. Mas para chegar ao veredicto de que escrever é sempre um grande desafio, que dói e angustia, eu não o fiz baseado apenas

na minha experiência. Eu me enveredei na leitura de depoimentos e confissões de muitos e muitos escritores. E eu não me lembro, em momento algum, de algum deles ter revelado sentir prazer no ato da escrita.

Enfim, escrever é um trabalho intelectual que dá muito trabalho. Agora, por que esse sofrimento encanta tanto? É um mistério. Eu tenho dito que é uma espécie de servidão voluntária. Ou, como eu disse na epígrafe de Aprendiz de escritor: O que me salva na velhice é a escrita. Não por eu gostar de escrever, mas pela necessidade que tenho de escrever.

Quais leituras lhe importam hoje?

Eu diria que as leituras de sempre. Considero-me um leitor eclético. Leio de tudo. Mas confesso que nos últimos tempos, depois de me aposentar da Ufam, passei a privilegiar, de certa forma, a leitura de textos literários. Deixei de lado as leituras acadêmicas em minhas áreas de especialização, como análise de discurso.

Não tenho mais paciência para isso. Há muitas e infinitas coisas mais interessantes e gratificantes para se ler na vida. Como eu disse, depois de me aposentar empreendi uma corrida desenfreada em busca da leitura de dezenas e dezenas de livros que sempre quis ler mas não tinha tempo para isso, ler pelo prazer de ler, sem ter que prestar contas a ninguém, sem ter que transformar as leituras em apontamentos didáticos, enfim, eu diria que eu me alforriei e, com isso, nunca li tanto em minha vida quanto nos últimos dez anos. E, nessa paixão pela leitura, tenho aproveitado para reler, com o olhar de hoje, tantos e tantos livros que marcaram a minha formação de leitor.

Reli, por exemplo, depois de cinquenta anos, O velho e o mar, de Hemingway. E descobri que esse era o livro que gostaria de ter escrito em minha vida. Mais recentemente, voltei a me encontrar com o velho Machado de Assis. Reli Dom Casmurro com uma enorme sofreguidão. Machado é inigualável.

E, em meio a tantas leituras, não deixo de me familiarizar com escritores contemporâneos, muitos de valor extraordinário, mas que passam ao largo das grandes editoras. E, claro, nesses dias, como não poderia deixar de ser, li com enorme paixão a biografia do Lula, magistralmente escrita pelo Fernando Moraes.

O senhor se considera um autoexilado? Por quê?

Penso que sim. Mudar-me para Portugal com a família, em 2017, resultou de uma decisão pensada e avaliada, depois de um período de profunda angústia ao ver que o golpe de 2016, que derrubou a Presidenta Dilma Rousseff, deitou por terra muitos e muitos sonhos e utopias que estavam em processo de realização diante dos meus olhos.

Foi terrível (e continua sendo), até por conta da minha idade (caminho agora para os 71 anos), eu me dar conta depois, com a ascensão de um fascista, que o tamanho da tragédia no país era tão grande, em pouco tempo, que eu não teria tempo de vida para ver, de novo, pelo menos um pedacinho do Brasil com que eu sonhei e vi se concretizar com Lula e Dilma.

Estou a um oceano de distância, mas vivo momentos de profundo sofrimento com a destruição do nosso país, com a volta da fome, com o aumento da desigualdade, com o apagamento de tantas e tantas conquistas sociais que estavam em pleno caminho de consolidação. Mas, como diria o Henfil, tô vendo agora uma esperança. E isso me

anima um pouco, mesmo sabendo que muito dificilmente os da minha geração terão a chance de viver os resultados dessa esperança.

 

Retornaria ao Brasil, caso Lula vença as eleições?

É coisa pra se pensar. O tempo dirá.

Quais seus projetos intelectuais em andamento?

Não tenho grandes planos. Com a idade, aprendi a viver cada momento da vida ao seu tempo. Sem pressa. Deixando as coisas acontecerem.

Tenho prontos já há mais de dois anos os originais de um livro didático, nos moldes de A engenharia do texto, só que voltado para jovens do ensino fundamental. Estou escrevendo um outro livro de crônicas, sem título ainda; estou dando conta, simultaneamente, de dois contos, que, ao lado de outros já escritos, poderão resultar em mais um livro no futuro; ao mesmo tempo, ainda, estou trabalhando um livro de memórias da infância sob a forma de romance, que tem me dado bastante trabalho.

Enfim, como disse acima, tudo sem a menor pressa. Ou, como escrevi na introdução de A felicidade precisa de loucura, tudo o que eu quero mesmo é que o tempo deslize como a mansidão dos rios, que, apesar da certeza inabalável de seu destino, não têm pressa alguma em se encontrar para o abraço com o oceano.

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