A história do eu: fato, ficção e a musa autobiográfica [Trecho do Capítulo 6]

Compartilhe:

Assim como a diferença entre os sexos, a diferença entre ficção e não-ficção é obvias. Onipresente, crucial e me, sempre tão importante quanto todo o mundo diz.

Há, sem dúvida, há momentos em que essa diferença é quase tudo. Mas, na maioria dos casos e na maior parte do tempo, os dois opostos são mais semelhantes que diferentes.

Caminham com as mesmas pernas e respiram o mesmo ar e vêm o mesmo mundo através dos mesmos olhos.

São diferentes em sua semelhança. São semelhantes em sua diferença. A ficção e a não-ficção se unem se unem pela diferença, e esse fato nunca é tão óbvio quanto no domínio da autobiografia.

A definição mais simples nos diz que a ficção é inventada, enquanto a não-ficção se atém aos fatos.

Essa definição é simples e verdadeira e tende a geral mal-entendidos. Em toda escrita, os fatos e a imaginação servem um ao outro numa parceria simbiótica.

A narrativa – seja pura ficção, pura-não ficção ou algo intermediário – não tem escolha: precisa abraças os fatos através da imaginação. E essa parceria assume várias formas, mas está sempre presente.

Um historiador usará a imaginação para abraçar os fatos de um modo muito diferente do escritor de ficção científica. Mas os dois precisam fazer a fusão.

Ver os fatos como adversários da imaginação e a imaginação hostil aos fatos é simplesmente tomar a batida rodovia da opinião e rumar para a derrota.

Todo autor percebe de algum modo a unidade que liga o fato à ficção. Essa unidade está bem perto do âmago secreto de muitos projetos.

Na incubadora silenciosa da maioria das obras de não=-ficção, há um romance não escrito; e uma história verdadeira assoma na sombra de quase todo romance ou conto.

As duas coisas pairam próximas; embarcar em uma é vislumbrar a outra, por causa da origem que têm em comum: a fusão da imaginação com o fato.

Basta entrar nesse caminho para tocar algo vivo, um elemento essencial da arte de contar histórias […]

Stephen Kock, em Oficina para escritores: um manual para a arte da ficção (Martins Fontes, 2009)

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.