Os mururés e a literatura

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Uma palavra que sempre me chamou a atenção nos autores amazônicos foi “mururé”. A maioria, sobretudo os poetas, grafou (e grafam) “mureru”, o que, para mim, era (e é) objeto de estranhamento, pois, desde meu tempo de menino de seringal, estivera habituado a ouvir “mururé”, com acento agudo. Aliás, soa muito mais poético do que mureru, que parece nome de bicho feio, em total desacordo com as delicadas e belas flores que desabrocham dessa ninfeia.

Os mururés, também conhecidas como aguapés, de inúmeras variedades, são muitos comuns em igapós e lagos, e costumam descer, rio abaixo, por ocasião das enchentes ou quando algum lago se rompe.

No Sumaré, seringal onde nasci e cresci, havia, nos fundos de casa, a beirar o campo e a mata, um imenso igapó, onde mamãe assentava a tábua de lavar roupa. Era um santuário de mururés, lugar preferido para as jaçanãs, sempre desconfiadas e apressadas, prontas para denunciar qualquer intromissão em seu território.

Mururé é uma palavra de origem tupi. O linguista e filólogo Antônio Geraldo da Cunha, em seu “Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi” (Melhoramentos, Unb, 1999), registra o termo “mururê”, com acento circunflexo. Porém, ressalta seis variações: mururiz, moruruz, mururé, mururê, murerú e moruré.

Por sua vez, o paraense Raimundo Morais (1872-1941), em “O meu dicionário de cousas da Amazônia” (Senado Federal, 2018), prefere grafar Mureru, ao qual, acrescenta: “Ninfeácea que erra de bubuia nos lagos. Tem a forma de uma campânula. No estuário chamam-no de mururé. É um dos alimentos do peixe-boi”.

Escreva-se como for, por sua beleza, o mururé é a nossa flor de lótus, por isso, tema recorrente na literatura amazônica, presente nas mais variadas autoras e autores, a exemplo de José Veríssimo, Inglês de Souza, Raimundo Morais e Dalcídio Jurandir. Além de Aníbal Beça, Astrid Cabral, Quintino Cunha, Américo Antony, e tantos outros.

José Veríssimo, em Cenas da vida amazônica, numa prosa extremamente poética, escreveu:

“As bordas eram formadas pelas magníficas esmeraldas das folhas do mururé, corada por suas garbosas flores.” (RJ: Simões Editora, 1957, p.204)

Por uma relação sentimental, mururé é o elo com o mundo das minhas reminiscências infantis, que, ao decorrer do tempo, tornaram-se um seringal de memórias, situado entre as curvas de tantas ausências.

Mururé. E c’est fini.

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