Odenildo Sena e a loucura da felicidade

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O ato da escrita, penso, é um ato de intimidade. Quem lê, lê entranhas, lê a vida, que, não cabendo em si, precisa extravasar-se, recriar-se, reinventar-se, no universo mágico da página em branco, onde só a arte, só a palavra pode dar conta e alcançar, ainda que com suas limitações. Daí, talvez, Gullar ter sentenciado, “a arte existe porque a vida não basta”. A vida, pois, é o mais autêntico repositório da arte, pois defunto, só o de Machado, é capaz de gestar palavras.

A crônica, sobretudo quando é memorialística, são folhas a se desprender, amadurecidas pelo tempo, desta árvore singular que é a vida de quem as escreveu. De modo que, a cada crônica, é como se o tempo tivesse conservado, numa espécie de cápsula, um fragmento de vida, que a memória faz novamente (re)viver.

Odenildo Sena, em sua mais recente obra, apresenta-nos 115 destas cápsulas-crônicas, em que, página a página, vai desnudando-se, e deixando o/a leitor/a fazer a imersão em seu universo, delicadamente tecido de memórias e palavras.

A felicidade precisa de loucura. Que título feliz! Nestes tempos, marcadamente cruéis, é preciso não nos deixarmos, de todo, sucumbir por essa necropolítica que alimenta e se alimenta do ódio, do medo, da mentira e da infelicidade das pessoas.

O livro, que traz a luz do saber, é este símbolo constante da procura e da utopia humana da felicidade ante todo e qualquer obscurantismo, que não consegue mais sorrir para a vida.

Odenildo resiste a estes tempos sombrios, com um livro que é um hino de vida. Pois ao cantar, e contar, memórias de sua vida, canta e conta, também, a memória do mundo.

Mas tenho lido Odenildo de modo parcimonioso. Não se deve, penso, ir de supetão a determinados livros, que só se revelam em sua beleza e esplendor, na calma e no silêncio. Sentir e saborear as palavras. Pois é preciso ouvir o que a página fala muito além dos parágrafos.

De modo que estou como a menina de Clarice, em sua felicidade clandestina. Ou, talvez, como um menino que devora lentamente uma guloseima por medo que ela acabe logo. Então ele come um pedaço, depois brinca um pouco; volta lá, e devora outro pedaço, e vai, outra vez, ludibriar o tempo; e assim, sucessivamente. Pois é dessa maneira, que, também, tenho devorado “A felicidade precisa de loucura”.

O nome do livro é de uma crônica homônima. A terceira, mais precisamente, da segunda seção, intitulada “Tempo de aprendizagem com a vida”. Nela, Odenildo fala, sem muita referência, de Zorba.

Uma de minhas tantas falhas é conhecer pouco da boa filmografia mundial. Talvez devido, nem na infância e nem na adolescência, ter tido a experiência de frequentar cinema, ou mesmo, de apreciar filmes. Vivi no seringal até os oito anos; na cidade, a partir do nove. Nem um, nem outro, havia cinema. Na cidade, no máximo, os filmes da tevê aberta. Só tempos, depois, fui ter o hábito. E encantado que sou por Ingmar Bergman.

Então, na minha eterna curiosidade de menino de seringal, fui à busca de Zorba. E, ao consultar o oráculo moderno do vale do Silício, surge “Zorba, o Grego”, filme de 1964, do diretor Michael Cacoyannis, estrelado com nada menos que Anthony Quinn, Alan Bates, Irène Papas e Lila Kedrova.

Não satisfeito, fui ao You Tube, em busca da película que, infelizmente, não está disponível. Todavia, deparei-me com um fragmento, uma cena icônica, onde Basil (Alan Bates) pergunta a Zorba (Anthony Quinn): “Dance?!  Did you say … Dance?!”. E os dois, em seguida, dançam maravilhosamente, sob uma trilha sonora espetacular. Noutro vídeo, há Anthony Quinn, aos 84 anos, no final do que parece ser um concerto, repetindo a mesma dança da cena de 1964. Simplesmente emocionante.

Este é o poder do que não se diz nas linhas, mas se deixa entrever nas entrelinhas. Por isso, a importância de se saber ouvir o texto para além do diz o próprio texto.

Como filósofo tem fetiche por citações, trago Michel de Montaigne, em seu monumental “Ensaios”. No capítulo XIX, ele disserta sobre a felicidade, e afirma: “essa felicidade de nossa existência, dependente da tranquilidade e da satisfação do espírito reto, da resolução e da firmeza de uma alma serena, não deve ser atribuída ao homem enquanto não representa o último ato – e sem dúvida o mais difícil – da comédia de sua vida”. Portanto, para o filósofo, somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida. “Deixo que a morte se pronuncie sobre minhas ações; por ela se verá se minhas palavras saem dos lábios ou do coração”.

Mas, deixando de lado a gravidade do filósofo, vejamos.

A cada crônica, como já dissemos, vamos desvelando e desnudando facetas de Odenildo Sena. Ficamos encantados com o Eric Sena. Aprendemos a arte de fazer brinquedos, a arte de olhar. Conhecemos as facetas, de quem guarda memórias afetivas em forma de objetos, como cartões, cartas, bilhetes, dentro dos livros. De modo que, a cada livro aberto, uma grata surpresa. E há tantas minúcias, tantas confissões, tantas histórias.

A felicidade precisa de loucura. E nós, precisamos da loucura dos que escrevem, e acalentam a luta árdua dos que peregrinam por esta assombrosa existência.

Obrigado, mestre Odenildo Sena.

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