“Faz escuro mas eu canto”

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Por volta das 15 horas do dia 14 de janeiro recebi a crônica de Jorge Bento, amigo e professor da Universidade do Porto (Portugal), homenageando Amadeu Thiago de Mello (1925-2022), falecido no início da manhã do mesmo dia, e que começava assim:

“Os vates criaram a humanidade. Quando um deles falece, apaga-se uma das estrelas que iluminam a alma universal”. E respondo de imediato ao Bento, trazendo para mim uma responsabilidade solidária de amazonense, que ainda adolescente encantou-se com a poesia e, mais tarde, teve a felicidade de conhecer e até conviver, por um breve tempo, próximo ao Poeta: “Thiago viveu sua utopia de liberdade. Foi do mundo sem deixar o seu lago, seu rio, suas matas e seus pássaros. Vestido de branco, confundir-se-á com as nuvens”.

A poesia e a prosa de Thiago de Mello eram partes da sua práxis de vida, daí essa lâmpada sempre acesa, esse facho de luz rompendo as trevas, essa inquietude extrema. Morreu acreditando no “amanhã” e a serviço da construção desse “amanhã”.

Desde os primeiros momentos que o golpe militar fechou o país, decretou a escuridão e proclamou a desumanidade, ele iniciou sua diáspora, acompanhando a todos que conseguiram escapar das prisões arbitrárias, da tortura e da morte. O diplomata, adido cultural do Brasil no Chile, foi incansável, desde as primeiras horas.

Samuel Iavelberg, companheiro de exílio, em depoimento à “Tutaméia TV”, falou até das habilidades de Thiago como instrutor de um curso dado no Chile aos exilados brasileiros sobre “comunicação clandestina”; lembrou, também, que Thiago, já exilado, vivendo na Europa, era uma celebridade internacional como poeta, militante de esquerda e articulador político, empenhado nas causas da democracia brasileira e da América Latina.

Usava a literatura como arma e fazia de sua poesia estandarte para convicções ideológicas. Foram muitas as bandeiras que levantou e lutas em que se envolveu. Não sei se considerava realizado, mas foi uma presença luminosa e única para muitos.

Desde as primeiras horas da manhã ecoaram as notícias. Como uma onda, espalharam-se pelo mundo inteiro. Quem acompanhou o noticiário, consideradas as diferenças de fuso horário, às três da tarde, a Europa e os EUA já sabiam e os mais exponenciais nomes da literatura já estavam apresentando suas condolências e emitindo comentários sobre a vida e obra do falecido poeta.

“Faz escuro mas eu canto” e “Estatutos do Homem”, poemas patrimônios da humanidade, estamparam as páginas eletrônicas das redes sociais e as páginas da imprensa internacional.

É impossível dissociar a cobertura internacional da morte de Thiago de Mello do ranço deletério e preconceituoso de parte da cobertura nacional sobre o mesmo fato. Tanto o necrológio quanto alguns comentários dos chamados intelectuais do “Circuito Elizabeth Arden” da cultura nacional, ad nauseam, se referiam a Thiago de Mello como “Expoente da Cultura Regional do Norte do Brasil”.

O mundo inteiro exaltando a sua universalidade temática, humana e poética e muitos de nossos “desavisados intelectuais” exercendo o “nobre” direito à diferença.

Apareceu até comentário relembrando a derrota de Thiago de Mello para Zuenir Ventura quando da disputa da Cadeira 32, da Academia Brasileira de Letras. Não discutia o mérito do escolhido nem o rito da Academia para eleger seus membros, mas ressaltava a dimensão regionalista da obra do vencido. Ambos preenchiam requisitos, portanto, não procede a distinção, que só existe porque até hoje as tensões entre Nação e Região aparecem em questões não resolvidas, até na literatura.

Rotular a produção de pesquisadores, artistas e literatos como regional em oposição ao que classificam como nacional ou universal, além de ser ridícula e preconceituosa, revela ignorância e deselegância. Thiago, se eleito, honraria a Academia, mas nunca precisou dela para ser o grande poeta que foi, referência universal!

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