A falta que a carta nos faz

Compartilhe:

Tem uma pitada de saudosismo, sim, mas é também preocupação que vai muito além disso. Explico-me. Deu-se que ontem estive fazendo uma coisa de que gosto muito: ler cartas alheias. Não, não é o que você está pensando! Nada tem de indiscrição de minha parte. Eu me refiro a livros que reúnem cartas de escritores.

Daqueles tempos em que as cartas faziam longas e demoradas viagens e, acomodadas em envelopes que traziam as cores de cada país, transportavam retalhos de nossas intimidades, confidências ou inconfidências, suspiros de nossas declarações e confissões amorosas, lampejos de nossas alegrias, tristezas e saudades ou simplesmente a necessidade de compartilhar acontecimentos ou banalidades do dia a dia.

O que me fascina mesmo na leitura dessas cartas é a espontaneidade. Frutos de um trabalho solitário e sempre para um determinado e conhecido interlocutor, as palavras que atravessam a sua escrita são, em geral, despossuídas de filtros, o que não raro mostra a sinceridade com que seus autores se despem para seus destinatários, coisa mais difícil de aferir nas circunstâncias de um diálogo presencial. Eu diria mesmo que a espontaneidade dessas cartas, muitas vezes, desnuda de tal modo as aparências, que acaba revelando por inteiro a alma de quem está por trás das palavras.

Estou pensando aqui, por exemplo, nas cartas de Ernest Hemingway, centenas e centenas delas reunidas em dois volumes que deixam transparecer não só o enorme afeto que o escritor dispensava aos pais, parentes e amigos, como também o desencanto pelo seu país e o encanto que lhe despertou a Europa.

Em carta a uma amiga, ele desabafa: “Qual o propósito de tentar viver num lugar maldito como a América, quando existe Paris e Suíça e Itália?” Além disso, é possível, pelas cartas de Hemingway, particularmente durante o longo tempo que viveu Paris, cidade que o seduziu, acompanhar o seu período de formação como escritor, numa época em que a cidade fervilhava com intelectuais do mundo todo.

As cartas de Graciliano Ramos, para buscar um outro exemplo, trazem à superfície retalhos de sua personalidade que são imperceptíveis aos olhos de quem se debruça sobre seus romances, suas poucas entrevistas e estereótipos consagrados a seu respeito. A fama de ranzinza, rabugento e intolerante toma rumos surpreendentes nas tantas e tantas cartas escritas para sua então namorada e, depois, companheira até o fim da vida, Heloísa Ramos.

Nelas, o velho Graça se revela um homem sensível e amoroso que não se furta a se derramar em gestos de mais pura paixão: “És uma extraordinária quantidade de mulheres. Como me poderei casar com tantas mulheres? E o pior é que todas me agradam, não posso escolher”.

Há também o Graciliano que carrega nas palavras a mais fina ironia sobre os acontecimentos políticos da época e que não perde a oportunidade de compartilhar seu bom-humor: “Interrompi esta carta para fazer a barba, Ló (Heloísa Ramos). Agora estou mais bonito. Se você me visse, ficava entusiasmada”.

Um outro lance revelador nas cartas de Graciliano é a oportunidade que se tem de acompanhar, principalmente nas cartas enviadas à sua mulher, o lento e, muitas vezes, penoso processo de criação de seus primeiros romances (Caetés, S. Bernardo, Angústia), seus embates com a escrita (“Faz mais duma semana que não consigo fabricar nada, julgo-me uma besta e não me animo a sair de casa”), o extremo rigor consigo mesmo ( “A publicação daquilo (Caetés)  seria um desastre, porque o livro é uma porcaria”), o anúncio da escrita do conto que resultou em “Vidas secas”, seu livro mais famoso:

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você (Heloísa) vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos”.

E o que dizer das 750 páginas que reúnem as cartas de Franz Kafka a Felice Bauer, durante “cinco anos de tormento”, como assinala Elias Canetti? As missivas de Kafka, como se sabe, se transformaram em documentos preciosos que serviram de pistas não só para melhor se conhecer a personalidade do escritor tcheco, mas também para se mergulhar profundo em seu complexo processo criativo. Bem a propósito, seu livro mais conhecido – O processo – foi gestado a partir de circunstâncias decorrentes de seu relacionamento com Felice Bauer, tudo tão vivamente registrado em suas cartas.

Agora volto à minha preocupação manifestada no início deste texto. Com o advento das novas tecnologias, que acabaram por tornar o mundo extremamente pequeno, não se trocam mais cartas como antigamente, trocam-se apenas resumidas mensagens por e-mail e aplicativos ou faz-se uma laive. E eu fico a pensar: será que o mundo não ficou mais pobre? Será que a ausência das cartas não nos faz deixar no caminho silencioso dos acontecimentos preciosidades que dariam mais riqueza à História e à Crítica Literária?

Enquanto me debato com essas dúvidas, não perco meu tempo. Já ao final da leitura de “Cyro & Drummond – correspondência de Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade”, preparo-me para ficar submerso por um bom período em uma outra maravilha: “Todas as cartas”, livro que reúne a correspondência de Clarice Lispector.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.