Um ralho de amor

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Quem teve a feliz oportunidade de viver uns poucos momentos com o poeta Thiago de Mello aprendeu o quão grande era a sua grandeza como ser humano. O poeta amava a verdade, daí que sua afiada verve fervia quando as coisas, as falas ou as ideias não se alinhavam com o prumo da verdadeira verdade.

Durante a criação poética do meu segundo livro dediquei um poema ao Thiago, Pelo avesso do Poeta, que lhe enviei pela internet. Ele, gentilmente, respondeu com um texto curto, mas na real, era um carinhoso elogio à minha nascente poética, que recebi, empavulado (como fico até hoje).

Fiz desse texto um moirão literário: usei-o na contracapa desse segundo livro.

Pouco tempo depois, o outro grande (físico e poeticamente) querido e saudoso poeta Aníbal Beça, me convidou para uma tertúlia com o Thiago de Mello em sua residência, localizada no Parque 10 de novembro, nesta cidade de Manaus.

Anibão (como carinhosamente o chamava) fez as apresentações de praxe e capitaneou as gentilezas poéticas. Uma garrafa de água que passarinho não bebe quebrou o gelo. Thiago quis saber, com uma fala carinhosa e mansa como o vento ameno, o que eu fazia, se estava escrevendo, se estava publicando…

Esforcei-me para lhe responder sobre meus afazeres profissionais e sobre a atividade poética, inclusive, disse-lhe que estava com um livro na gráfica recebendo os adornos finais.

Perguntou-me pelo conteúdo da obra. Disse-lhe que abordava o universo mítico indígena, de forma a torná-los curtos, palatáveis à leitura comum; a poética cabocla; e algumas homenagens, incluindo, Pelo avesso do Poeta.

Lembrou-se do fato e repetiu o convite para ir ao Andirá, em sua casa, na Ponta da Geivota, (hoje rebatizada por seu filho de A casa do Poeta. Perguntou qual o título dessa obra? Aprendiz de Poeta, respondi orgulhoso. Ele, de pronto, mas sem levantar o tom amoroso de sua voz, questionou:

– Por que Aprendiz?

Eu, deveras, fiquei encabulado e silenciei …

Ele, naturalmente, percebeu a minha enrascada e me disse.

– Tu (como ele gostava usar a segunda pessoa!) não és um aprendiz, tu és um poeta e ponto. Tu fazes tua poesia, do teu jeito, singela, humilde, humana, cabocla, mas é tua e é a tua cara e pronto. Mas tu tens livre arbítrio e autoridade (só tua) para colocar o nome que quiseres nos teus filhos.

No outro dia, corri à gráfica com o objetivo de atender ao ralho amoroso do poeta da floresta. Mas não deu mais para mudar o título, pois as matrizes eletrônicas já tinham sido “queimadas”, o que implicaria em mais custos e posto também que eu já tinha dado “o de acordo” com a gráfica, e esta já estava “rodando” a impressão.

Pensei comigo mesmo, vou deixar como está, não vou mexer, mas vou guardar com muito carinho o ralho (carinhoso) que recebi de poeta Thiago de Mello. E assim ficou.

Publiquei o livro Aprendiz de Poeta, cujos exemplares foram enviados para Barreirinha (AM), cidade natal do poeta, às vésperas da grande cheia de 2014.

As nove caixas com os livros foram desembarcadas do barco Bom Socorro,  de propriedade do amigo Missian Seixas, e foram guardados no chão da biblioteca pública de Barreirinha.

Quando ocorreu a grande cheia daquele ano, que superou a de 1953, as caixas ficaram à mercê das águas barrentas do Paraná do Ramos e, molhadas, perderam-se. A gráfica havia me entregado uma caixa, com cinco unidades, que distribui entre os amigos. Mas isso é outra história.

De concreto Pelo avesso do Poeta irá compor o próximo livro que vai se chamará A sombra do arco-íris. Muito em breve.

Mas guardo na retina, na memória, na alma e no coração esse ralho de Amor que o Thiago me deixou.

Pelo avesso do Poeta

(Singela homenagem ao mestre Thiago de Mello, em sua amada Ponta da Gaivota, por detrás da cidade de Barreirinha (AM).

Os doces versos do poeta

São como confeitos para degustação,

Deitado numa rede alva de algodão,

Vagarosamente, como são as viagens

De barcos trepidantes, pelos caminhos

Barrentos do leito do rio das Amazonas.

 

Ao embalo das Maresias

No ventre das naus andantes,

O horizonte puxando os confins

Céleres aos portos de lenha,

Agarrados nas barras das cidades

Ribeirinhas, vestidas com a

Friagem as malhas metálicas para

Receber, faceira, os visitantes.

 

A sombra da casa das máquinas,

Versos brancos martelam sem

Cessar as retinas esfumadas

Pelo espiar; saltam o verdugo

Da impressão vivos sobre

O fragor das hélices, ânimo

Para um coração remido,

Enlaçado com versos

Marteladas ainda verdes saídos

Da carpintaria, para dourar no

Mormaço negro do rio Andirá,

Como cerâmica de fina arte,

Moldada pelo artesão da poesia.

Peça que fez humildemente para

Servir a rota mesa, a comida mais

Cabocla: caldo de jaraqui com

Farinha, esperança nossa

Todos os santos dias.

 

Versos espremidos num intelecto

De arumã, trançado exuberante

Como grinaldas, tipiti de orquídeas

Dos Andirazes, ornato das águas

Do Paraná do Ramos. Véus e

Anáguas que guardam o canto

Da yara, os negros encantos da

Boiúna, a belezura da donzela

Enamorada dos ventos, vestida

Com a alvura alada das garças,

Beijada pelos lábios mais doces

Dos céleres e luzidíos colibris.

 

O trovador da várzea sobe todas

As noites antes do bocejo do dia

Aos céus de Tupã, munido de

Seu verso mais destro, ajusta no

Tempo uma justa com o beato que

Espalhou nas ocas e malocas

Tupinambás o bacilo tísico da

Morte. O Carola armado com um

Graveto continua a riscar nas

Areias de Bertioga, em

Arrependimento tardio,

Louvores levados pelas águas,

Prosa perdida no eito tupi.

….

Mas o peito de angina

Cheio de saudade, choroso pelo

Maternal Bom Socorro não

Aguentou o baque da distância.

Lembrou-se quão frágil é ser

Humano feito com o barro amarelo

Das ribanceiras, mesmo ungido

Pela aura da imortalidade.

 

Cansado pelos batimentos

Da idade o coração vazado

Pelo ferrolho do amor, perdidas

Vezes, volveu ao interior onde

Nasceu, em célebre arroubo

Do poeta beija-flor, à cidadezinha,

Alimentada pelo seio da Várzea

Mãe, a terra propícia do guaraná,

Do Noçoquen, paraíso dos Mawé

Para festejar com seus irmãos

De tez o derradeiro beijo a terra.

 

Irmãos paridos da mesma

Placenta de rio, que rebrota toda

Floresta, inspira o mavioso canto

Do uirapuru, perfuma as corolas

Da grande vitória, que é reavivada

Nas noites régias da lua cheia.

Que atiça o boto namorador

E ensina a todo homem que tem

Coração de pedra: tudo verga,

Tudo dobra ante a santa

Força bruta do amor.

 

Oh doce poeta,

Guiado pelo farol da via láctea

Hás de acender nas asas

Da tua mítica gaivota

À grande maloca do firmamento

Onde teu assento é Garantido!

 

E sentado entre as estrelas d’alva

Proclamarás teus versos brancos,

Eternamente, sob a pena do teu

Reluzente quilate, para rebrilhar

Do fundo do Paraná do Ramos,

Transfigurando no céu a tua

Boa estrela, a tua amada

Cidade de Barreirinha!

 

E Thiago de Mello me respondeu.

Bondoso poeta João Melo

Não agradeço seu bonito e generoso poema, porque amor não se agradece. Saiba que você me comoveu. Faz tempo considero com simplicidade, que o verdadeiro prêmio de um criador literário é o apreço e o gosto dos seus leitores.

Aqui na floresta você tem casa, peixe fresco, farinha cheirosa e a grandeza do rio Andirá, coberto de escamas esmaltadas.

Guarde um abraço companheiro do

Thiago de Melo

O recado e a conversa, exemplarmente, mostram a grandeza poética e humana de Thiago.

O curto bate papo que tive com ele me deixou muito lisonjeado e desconsertado; mas agora pela passagem do sétimo dia de sua travessia do rio da vida para a eternidade, venho prestar mais esta justa e singela homenagem ao mestre que me deu “um ralho de amor”, pois ao ouvir sua voz, senti que era um a anjo humano que estava a me orientar. Muito obrigado Grande Poeta Amadeu Thiago de Mello.

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