Uma viagem pelos misteriosos mundos da paixão

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Os dias passam rápido. São Paulo estava fria e nublada e, sinceramente, tanto tumulto e pressa o estavam sufocando. Ao se olhar no espelho todas as manhãs, Fausto sentia-se inconformado. Não gostava da sua aparência ao compará-la, no instaface, com a de outros meninos da sua idade.  Ele se achava muito magro e esses pensamentos tediosos só aumentavam.

Fausto viveu uma infância feliz no interior de São Paulo.

Dona Cássia, sua mãe, sempre lhe contava sobre como o condomínio onde moraram possuía um grande jardim, para as crianças brincarem sem o incômodo dos adultos. Hoje com os trabalhos dos pais voltados para a capital, o interior com seus amigos e histórias ficaram no passado.

Um de seus hobbies era desenhar, e passava horas nessa atividade e se perguntava se um dia chegaria à habilidade de um artista renomado, porém, esse era um sonho muito distante. Em uma noite, desenhando em seu quarto, Fausto ouviu uma conversa do pai, Alencar, com os tios que moram no Norte:

– Há quanto tempo irmão? Vocês foram morar tão longe, só pra deixar saudades. Claro, eu não vou perder esse casamento. Diz pra noiva que nós não faltaremos. Embarcamos dia 13 de junho, mando mensagem assim que estiver em Manaus.

Fausto, ouviu a conversa e deitou-se na cama pensando: “Parece longe…”. Na sua cabeça se passavam muitas coisas e logo foi pesquisar na internet sobre o que deveria esperar dessa viagem – e ficou mais ansioso.

Tanta coisa diferente! Ele, de alguma forma, sentia que essa viagem o deixaria diferente. Afinal, nos seus 18 anos nunca havia saído do estado de São Paulo. Assim, um sentimento de aventura nasceu no seu coração. Mas temia perder a pose de jovem enjoado que já estava acostumado a fazer nas poucas e curtas viagens da família.

Chegada ao Norte

A viagem de avião decorreu sob turbulência e, no aeroporto de Manaus, já sentira a diferença de temperatura… “Que terra quente”, pensara. Na viagem, Fausto ouviu o tempo todo músicas com seu fone de cabeça que imitava chifres de diabinho. Veio fazendo seu papel de enjoado, porém, nada abalava o espírito aventureiro dos seus pais, que estavam felizes e tiraram muitas fotos do Encontro das Águas que, lindamente, se vê de avião. Ele havia ficado impressionado com a beleza da Amazônia vista de cima, porém não perdia sua pose de “ai que saco”! Esse era o papel que ele gostava de fazer.

Manaus é uma cidade grande e tumultuada. Fausto não se surpreendeu com isso, pois havia pesquisado tudo sobre ela na internet. Talvez soubesse mais sobre os manauaras que os próprios.

Dona Cássia e seu Alencar estavam como típicos turistas e quiseram conhecer o centro histórico. Fausto estava sem vontade de sair de perto do bom wi-fi do hotel, mas não queria ficar sozinho. Então, acompanhou os pais ao centro histórico e ao mercado municipal Adolpho Lisboa, uma construção do auge da economia amazonense da borracha, no final do século 19 e começo do século 20.

Deu de cara com variado comércio de artesanatos, comidas, ervas e peixes amazônicos. Um lugar de aromas e coisas diferentes. Um rio de novidades, para quem sequer havia entrado em uma daquelas casas do norte que existem em São Paulo.

O mercado de Manaus estava cheio de turistas, e no meio do vozerio da Babel amazônica, destacava-se, para Fausto, as buzinas de embarcações que partiam e chegavam na orla do rio Negro, ao lado.

Seus pais estavam inebriados, tiravam fotos, provavam iguarias da culinária local e compravam lembrancinhas. Fausto, à essa altura, já estava cansado, afinal era quase meio-dia, o sol estava escaldante, e o calor parecia infernal para quem carregava sacolas com camisas, peneiras, adereços indígenas etc.

De repente, em um descuido, Fausto esbarrou e tropeçou contra duas mulheres e as sacolas se espalharam para todos os lados.

– Ei, cuidado por onde anda, quase quebrei a sandália – disse a mais velha.

– E eu bati o meu joelho – disse a mais nova, expondo o seu sotaque nordestino.

Os pais de Fausto chegaram com pressa:

– O que houve? disse o pai. Eu vi o tombo que levaram.

A mulher mais velha disse:

– Ei, eu lhe conheço! O senhor não trabalha com importados? Meu marido trabalha com o senhor. Conhece o Valter, de Alagados?

Seu Alencar fica surpreso e responde com alegria:

– Sim, conheço ele, é meu parceiro de vendas há muito tempo.

A mulher mais velha disse:

– Então, vamos jantar nesta noite? Tiramos férias pra mesma cidade. Prazer, meu nome é Marta e essa é minha filha Marina. Adiciona aí filha o instaface deles.

Naquele dia, as famílias se encontraram e conversaram por horas, jantaram em um restaurante no largo de São Sebastiao e os maridos lembraram histórias antigas de trabalho, as mães conversaram sobre os esposos e Fausto e Marina ficaram mexendo no celular. Antes do jantar Marina disse:

– Bora andar?

Fausto respondeu:

– De boa.

Os dois foram caminhando pelo largo, vendo devagar os monumentos. Sem conversar muito. Fausto sabia quase tudo sobre a história do lugar, porém, resolveu ficar calado. Estava quente e ele mantinha o papel de enjoado. Marina fazia de tudo para puxar assunto, até para o futebol ela apelou. Por sugestão dela, o casal entrou na Igreja de São Sebastiao para observar as pinturas sacras nas paredes e no teto.

Ela puxou conversa:

– Você conversa pouco, né.  Puxei tanto assunto, você está nervoso com algo?

Ele respondeu:

– Não, não, só tô com calor. Essa viagem tá durando muito e o casamento dos meus tios é só no final do mês.

Marina disse:

– Hum. Me adiciona lá no instaface, pra gente conversar mais. Acho que você precisa desabafar um pouco.

Ao terminar de falar isso segurou a mão dele e o puxou para fora da igreja. O jantar estava servido. Naquele instante Fausto percebeu alguma intenção de Marina e ficou surpreso. Um romance de junho? Nas férias? Alguma novidade nessa viagem.

Na mesa, estava servido um peixe de grandes costelas muito saboroso que ele não perguntou o nome. Os pais estavam conversando muito entusiasmados, devia ser por causa da cerveja que estavam bebendo, porém diziam com convicção que embarcariam para Parintins. Fausto lembrou-se de já lido sobre essa cidade nas suas pesquisas; outro roteiro surpresa, mas nada que derrubasse a sua postura de enjoado.

A viagem dentro da viagem

As duas famílias embarcaram dia 24 de junho, em um barco de três andares.  Chegaram cedo para atar as redes, e Fausto não estava nem um pouco feliz com toda essa situação. Como passar um dia e uma noite sem internet? Era o fim! Ainda mais dormindo em redes, algo que ele nunca havia feito, nem visto, ao menos ao vivo. Mas a animação de seus pais era o vínculo que o animava, afinal nunca mais eles haviam tirado férias. E no Norte, então! Este era o momento deles.

O passar do tempo, o banzeiro do barco e a sensação de que o ambiente de cidade ficava para trás, deixou Fausto com crise de abstinência de cidade grande. Nada o convencia que este era um momento alegre. Muitas pessoas no barco, muitas redes, e no terceiro andar rolava uma festa com forró e brega, tudo o que ele não gostava.

Mas em muitos momentos Marina insistia em puxar assuntos, oferecia ajuda desnecessária. Passou na cabeça de Fausto a ideia: “Acho que vou passar o tempo com ela”. Marina esbelta, alta, de olhos escuros e cabelos compridos. Ele vira outros caras dando em cima dela no barco. O que ele tinha a perder?

Enquanto ele estava em sua rede, pensando e sofrendo de abstinência urbana e eletrônica, Marina já conhecia todo o barco: seus andares e camarotes, sistema de segurança, a cabine de comando, a sala de máquina, a cozinha e alguns marinheiros e suas funções a bordo.

– Vem comigo, conheci um lugar e vou te mostrar.

Os dois subiram para o terceiro andar, enquanto seus pais estavam se divertindo. Havia muitas pessoas de Manaus e turistas, com adereços de penas dançando e bebendo. Marina o puxou pela mão no meio de todos e o levou até a uma pequena escada de acesso ao toldo da embarcação.

Ela subiu e ele a seguiu. O vento lá era forte. Os dois deitaram-se em um tapete. Fausto olhou as estrelas, lindas como elas são. Era perceptível o caminho da via láctea… Naquele momento lhe caiu a ficha: estava no meio da maior floresta do mundo, navegando no maior rio do mundo, enfim, observando as estrelas que ele sequer pode vê-las nas noites de São Paulo.

A escuridão ao redor do barco só quebrava quando o holofote do barco focava na proa, na dianteira e para os lados. Durante esse movimento, ele enxergava pequenas vilas e casas isoladas na margem do rio.

Como era bonito tudo isso! Marina então deitada ao seu lado, encostou a cabeça em seu ombro e segurou a sua mão. Seria um belo momento para um beijo, se a mãe de Marina não a tivesse chamado:

– Marinaaaa !!! Me ajuda a descer a escada filha, que mamãe tá bêbada.

A ilha dos artistas

A noite na rede foi cansativa, difícil até de cochilar. Com o amanhecer os viajantes puderam avistar a ilha Tupinambarana, ainda de longe. E muitos barcos vindos de diferentes direções. O que logo Fausto percebeu foi a torre da catedral de Parintins: “A construção mais alta da região”, pensou. Seu papel de menino enjoado estava full power.

Ao desembarcar logo viram o letreiro Eu amo Parintins, terra de artistas. Essa frase o interessou, pois seu hobbie de desenhar era muito elogiado por todos; logo, “uma cidade de artistas seria ser uma fonte de ideias”, pensou.

Eles se hospedaram em um hotel na avenida Amazonas que se localiza no bairro central. A cidade estava lotada e em festa. A todo momento transitavam turistas de longe e de perto. Havia muitas bicicletas e a clara divisão territorial da cidade em azul e vermelho, o que ele achou engraçado. Sabia do festival, e imaginava que era algo como as escolas de samba do Rio de Janeiro, mas se interessou pouco pelo assunto.

Seus pais parecem que nem sentiram o banzeiro do barco. No pós-viagem, ao contrário dele, seus pais e amigos estavam entusiasmados e, para não decepcioná-los, acompanhou-os na turistagem.

Passaram pela praça da imponente catedral, onde observaram muitas  pinturas de artistas locais expostas ao ar livre.

Ali se formavam fileiras de turistas para ver imagens amazônicas, algumas surrealistas com cores vibrantes e elaboradas com materiais coletados da floresta.

Fausto deteve-se em frente a uma grande tela, nela estava pintada uma bota de soldado em primeiro plano com um número em destaque, ao fundo a cena de um crime e alguém, mais distante, pendurado no tronco de uma palmeira fina, observando a cena sem ser visto.

– Você conhece a história desse quadro? – Perguntou-lhe alguém.

Fausto respondeu sem olhar:

– Não, mas esse quadro é bizarro.

– É a história de um crime que aconteceu aqui na cidade tempos atrás, que envolve muitos mistérios e lugares assombrados. Você é turista, né?

Nesse momento, Fausto dirigiu o olhar para a pessoa que o interrogava. Tratava-se de um rapaz, magro, de olhos amendoados, de traços amazônicos, mais baixo que ele, que estava com os cabelos penteados para cima.

Crime? – Retrucou Fausto.

-Sim, o famoso Crime do Areal.

Em seguida, o jovem se apresentou:

– Prazer, o meu nome é Elysson, qual o seu nome?

-Meu nome é Fausto.  Me conta aí a história desse crime.

Parece que o enunciado Crime do Areal tornou o clima sombrio como o de uma história de terror.  Elysson contou tudo, inclusive, as teorias que  ele mesmo elaborou sobre as motivações do crime.

Os dois conversam, andando, e o tempo ia passando devagar, e Fausto só sente mais curiosidade sobre essa história macabra, até que começaram a falar sobre arte – e era vasto o conhecimento de ambos sobre esse último assunto. De modo que Fausto dispensou os pais no hotel e ficou passeando pela cidade, conversando com o novo amigo sem perceber o pulsar do tempo. Algo o motivava ao bom humor e o papel de jovem enjoado ia se desmantelando. Até algumas risadas em voz alta começaram a sair.

–Você já provou Monteiro Lopes? –  Perguntou-lhe Elysson.

– O que é isso?

– É um biscoito aqui da região, muito gostoso, você quer prová-lo?  Vou comprar uns pra nós, vendem eles aqui pertinho.

Fausto não sabia que o pertinho do povo do Norte significa, também, bem distante. Compraram o doce e foram atrás de um lugar para sentar-se.

Acharam uma praça nas margens do rio Amazonas. Do outro lado da rua havia um bar chamado Comunas. Estava tudo lotado e tocavam toadas de boi-bumbá ao fundo. No horizonte, o sol se punha sobre o rio.

Um casal se levantou e os dois sentaram-se no banco de praça. Estavam cansados e com fome. Abriram o pacote de Monteiro Lopes e o devoraram rapidamente.  Depois, voltaram para as suas conversas. Foram das pinturas da renascença às do surrealismo; em minutos descrevendo seus artistas favoritos e seus estilos. Quando o sol estava encostando nas águas, muitas pessoas pararam para tirar fotos. Parecia que naquele momento o tempo havia parado, o céu estava vermelho como em uma pintura. Então Elysson perguntou:

– O que você mais gostou de ver nessa viagem?

– Cara, ontem eu vi as estrelas. Lá em São Paulo, não consigo vê-las por causa da poluição. E esse rio com esse pôr do sol é da hora. Quem é o artista que pinta uma tela assim?

Elysson, olhando nos seus olhos, responde, escapando da resposta:

– Sabe o que eu gostei desse pré-festival? Ter conhecido um cara legal igual você, foi o máximo!

Quando ouviu isso, Fausto foi tomado por um nervosismo paralisante. O que fazer nessa hora? Não tinha força para se levantar e se afastar como ele achava que devia fazer e não conseguia responder de forma negativa cortando o ambiente romântico que acabava de se estabelecer.

Elysson, vendo o desconserto dele, devagar se aproximou e beijou o lado direito de seu queixo. Fausto não esboçou repulsa. Com esse consentimento tácito, Elysson, enfim, beija-o nos lábios. Fausto não resiste, sentia algo que nunca sentiu por ninguém. É como se estivesse fraco, quase desmaiado, somente sentindo os lábios do menino que acabou de conhecer, porém, é como se o conhecesse há muitos anos. Na hora lembrou-se que estava em praça pública e disse baixinho;

– E se alguém nos ver?

Elysson lhe respondeu:

–Só curte o momento.

O Festival

A paixão transforma as pessoas. Fausto no outro dia estava alegre, levantou-se cedo para o café da manhã do hotel, onde provou um pão fino e saboroso que nunca tinha visto.

– Vamos encontrar o Valter, a Marta e a Marina. Vamos comprar ingressos para ir ao festival dos bois e  almoçar na praça. Quer ir conosco?

– Bora. Disse Fausto engolindo o último pedaço de pão.

Estava muito quente e as ruas lotadas de vários grupos de amigos bebendo. Fausto só pensava no beijo do dia anterior e na sensação de estar perto do novo amigo. Era assim que ele definia o seu romance “ amigo”.

Compraram os ingressos,  e passeando pelo lugar, viu a grandiosidade das alegorias de perto, nos arredores do bumbódromo. Esculturas colossais de índios, criaturas fantasmagóricas do imaginário amazônico, muitas cores e materiais, e até uma cópia da imponente catedral da cidade. Tudo preenchendo os seus olhos e o deixando surpreso e confirmando sua pesquisa que assegurava que este era o maior festival folclórico do mundo.

Perdido no envolvimento com as alegorias, ele escutou uma voz conhecida e sentiu seu coração pulsar mais forte; novamente o sentimento paralisante. Era a voz do Elysson, conseguiu distingui-la no meio da aglomeração. Elysson, como se estivesse o sentindo de longe, vem logo em sua direção e o abraça forte como se fossem íntimos há muito tempo. E seguido dele vem uma turma de amigos.

Elysson diz:

– E aí, mano, tudo bem? Quero te apresentar meus amigos: Luiz, Lorrane, Talia e o Sal.

Eram todos muitos parecidos, como se fossem da mesma família. Estavam todos com roupas com os emblemas do boi vermelho e branco. Fausto ficou envergonhado, pois nunca havia sido apresentado a amigos dos amigos da sua idade.

Então gaguejou um pouco:

– Pra… pra…prazer em conhecê-los.

E Elysson, se voltando aos amigos, anunciou:

– Gente, esse é meu amigo Fausto, ele é turista de São Paulo.

E os amigos responderam ao mesmo tempo:

– Hummmmmmmm …. – E deram risadas.

Elysson reagiu:

– Para, gente! Me respeitem! Vamos pra fila!

E segurando o braço do amigo turista foi o puxando para a fila. Fausto percebeu que não eram todos os ingressos pagos. Existia uma torcida organizada que não pagava para participar do festival, todos permaneciam o dia inteiro em uma fila debaixo do sol, aguardando a abertura dos portões da arena de espetáculo.

Com seus lugares na fila a conversa foi se estendendo. Fausto se tornara o centro das atenções. Os amigos de Elysson perguntavam sobre sua cidade e sobre a vida dele. E todas eram respondidas.

Com o Elysson ao lado, tudo parecia mais leve, mais divertido. Em pouco tempo os desconhecidos se tornaram amigos e todos se tratavam como manos, assim como manda a gramática da região.

O tempo passou rápido e logo estavam dentro do local das apresentações. No lado oposto, estava a torcida do boi azul e nada dessa cor podia estar do lado vermelho. Sua sorte é que vestia cores verde e branco.

Eles ganharam adereços e ouviram as músicas e movimentação das torcidas na passagem de som dos levantadores de toadas dos bois-bumbás.  A apresentação ia começar: um clima de alegria e emoção invadia o ar. Os fogos de artificio encheram o céu e os tambores começaram anunciando a chegada do boi vermelho e branco.

Fausto nunca participara de nada assim em sua vida. Decorou alguns refrões na hora e estimulado pelo Elysson, pulava, fazia as coreografias e gritava. Tudo estava mais colorido em sua vida. A viagem agora valia a pena, ele estava mudado. O chão tremia embaixo de seus pés. Esse era o momento mais artístico de sua vida, e muito melhor era estar com um jovem tão bonito aos seus olhos.

“Que vontade de abraçá-lo” – Pensava.

E quando tocou uma toada romântica na arena os dois se beijaram de forma mais apaixonada ainda, com um abraço forte e sem conseguir dizer nenhuma palavra, só sentindo a emoção do momento. Uma flecha  de amor havia atingido as duas criaturas.

O êxtase é interrompido por alquém que toca em seus ombros e diz:

– Ei, presta atenção na coreografia, senão a gente perde o ponto dos jurados.

Os dois riram alto e voltaram a pular e gritar, estavam se sentindo em casa, e a noite era de alegria.

O retorno

Os pais de Fausto estranharam as mudanças do menino. Chegando tarde e saindo cedo, almoçava pouco e sempre alegre como eles nunca o haviam visto. Foram três dias de apresentações e poucas vezes falaram com o filho. Estranharam muito quando ele passou no hotel e pediu dinheiro para comprar uma roupa de banho, pois iam a um lugar tomar banho de rio.

Eles estranharam, porém gostaram da mudança, parecia que nada o segurava. Era como se fosse uma explosão de energia. Fausto estava completamente esquecido da sua rotina antes de conhecer o Elysson.

A internet era ruim, porém quando não estavam juntos o interface não parava com as mensagens dos dois. Os novos amigos gostavam de lhe apresentar as novidades e riam quando ele não gostava. Quando Fausto provou o tucumã, não conseguiu segurar a polpa do coquinho na boca, por exemplo.

No terceiro dia todos estavam na fila, comendo pouco, conversando muito e rindo. Elysson e Fausto estavam abraçados de forma discreta, sem parecer que estavam ficando ou algo do tipo. Quando surge no meio das centenas de turistas os pais de Fausto e Marina com seus respectivos pais, Dona Cássia fez-lhe um convite:

– Filho, você está comendo pouco. Vamos almoçar que seus amigos guardam o lugar pra você na fila.

– Não mãe, tô de boa – Respondeu ele.

Então Marina, se interpõe entre os dois e disse:

– Quer que eu traga alguma coisa pra você lanchar?

Ele respondeu:

– Não, relaxa, eu tô de boa. Haaa! Quero que vocês conheçam meus novos amigos.

E foi logo apresentando todos eles. Dona Cássia, gostou muito de ver os amigos do filho, pois ele nunca foi de turmas nem quando estudava no ensino médio. Eles responderam ao mesmo tempo:

– Oi, tudo bem? E começaram a rir.

E dona Cássia disse:

– E são um coral bem ensaiado. Deu um riso também.

Ao apresentar o amigo especial, acrescentou elogios dizendo o quanto ele entendia de artes e cultura local. Elysson foi cumprimentando a todos com um aperto de mão, quando chegou a vez de cumprimentar Marina, ela o olhou dos pés à cabeça, estendeu-lhe a mão com rispidez e logo disse:

– Vamos logo almoçar, eu tô com fome.

Todos se despediram e seguiram seus caminhos. Naquele dia Elysson entendeu que Marina não gostou da atitude dele. Mas a festa ainda tinha uma noite e ele estava ali perto do menino mais inteligente que ele havia conhecido no festival segundo o seu sentimento.

Os olhares malfazejos recebidos de Marina não derrubariam o seu bom humor. A festa continuou com emoção e muita dança, depois foram todos para a praça conversar. Elysson e Fausto se beijaram muito. Sabiam que iriam se separar em algumas horas, mas não verbalizaram o assunto. Queriam os dois prolongar o bom sentimento de estar juntos: esse coração que bate forte, esse tempo que desaparece e essa vontade de estar perto um do outro.

No dia seguinte, acordaram cedo e Fausto não queria levantar-se. Sua mãe fez sua mala. O barco sairia às dez horas da manhã, em direção a Manaus. Haveria um casamento na noite seguinte. Então desembarcaria direto para a Igreja. Tudo deveria ocorrer sem erro para a família não perder a cerimonia.

O instaface estava cheio de despedidas. Pela primeira vez, Fausto não queria voltar para casa, queria prolongar tudo aquilo. Parecia que cada hora na ilha dos artistas estava alimentando a sua vida. Queria por um último momento para conversar com Elysson, na última noite não havia se despedido, pois acreditava que conseguiria no dia seguinte.

Mas isso não aconteceu. eram tantas as pessoas saindo ao mesmo tempo do hotel.

Ele e os pais se despediram da família de Marina, que só conseguiu vaga em outro barco.  Ela estava aparentemente chateada com Fausto, por algum motivo não verbalizado. O que passou despercebido no coração apaixonado do rapaz, que só pensava no novo amigo.

Chegando no porto, foi difícil encarar o sentimento de partida.  A estadia no festival, despertou nele o comportamento comum dos jovens e também trouxe a tona dúvidas sobre sua sexualidade. Fausto se sentia, finalmente incluído em um grupo. Seus pais e ele ataram suas redes no barco e, com a internet funcionando muito mal, escreveu para o seu amigo no instaface:

– Não quero me separar de ti. Quero te ver novamente. O melhor dessa viagem foi ter te conhecido.

E a oscilação do sinal da internet não permitia uma resposta rápida. Depois de ouvirem o aviso de partida do barco, os motores foram ligados e o imenso rio Amazonas estava na sua frente. Toda vez que Fausto observava a torre da catedral cada vez mais distante, seu coração ficava mais dilacerado. No último lampejo de conexão via internet, chegou uma mensagem de Elysson:

– Como você teve coragem de fazer isso comigo? Eu gosto de você, sabia? Meu sentimento é verdadeiro. Me esquece. Você me magoou muito.

Ao ler essa mensagem, Fausto ficou paralisado.  – Como assim? O que foi que aconteceu? Eu não fiz nada de errado. Ontem mesmo estávamos juntos. Ele confessou que gosta de mim. Qual a razão desse me esquece?

Pensou nisso e sentiu uma vontade de chorar, mas aguentou o sentimento para manter a postura firme diante dos pais. Estava com o rosto perturbado, Dona Cássia logo percebeu e sentou-se do lado dele na rede e disse:

– Filho, o que tá acontecendo? Tá sentindo alguma coisa?

Ele respondeu:

– O Elysson, mãe, aquele meu amigo. Acho que eu disse alguma coisa que ele não entendeu. Sei lá!

Quando disse isso, quase revelou suas lágrimas.

Dona Cássia respondeu:

– Haaa, sim! Aquele menino mais baixo que você? magrinho? Ele foi bem cedo lá no hotel. Acho que ele trazia algo pra você. A Marina foi quem atendeu ele. Ela não te entregou nada?

Quando dona Cássia concluiu a frase, um filme se passou pela mente de Fausto. Lembrou-se das intenções de Marina antes de chegarem a Parintins e, também, lembrou-se do seu olhar para o Elysson, quando se conheceram, e de seu mal humor durante a viagem. “Ela fez alguma coisa”, pensou ele. A raiva tomou seu coração. “O Elysson nunca falaria isso do nada. Assim que chegar em Manaus vou resolver essa história”, imaginou.

Sem verbalizar nada, abraçou Dona Cássia que estava muito feliz com a viagem. Sentiram o vento que corria sobre as águas, enquanto o barco continuou o seu trajeto transportando os sonhos e sentimentos dos viajantes que retornavam a Manaus.

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