Filhos da tucandeira

Compartilhe:

Às vésperas de se realizar a “dança da tucandeira” no seio da comunidade indígena Saterê-Mawé, os responsáveis pelos jovens que irão se submeter ao rito de iniciação saem em busca das temíveis formigas, tocandira ou tucandeira nas matas ou selva do entorno das aldeias.

Os Mawe’riah distinguem como selva a parte da floresta que os homens não tocam; e mata, aquela parte em o homem índio ou branco já fez alguma intervenção: roças, rotas de caças, estradas de seringa, inclusive, as plantas medicinais utilizadas pelos pajés, plantadas no aceiro de suas casas.

Após achar um ninho de formigas, um formigueiro, o ancião do grupo, pela sua experiência e habilidades, é encarregado de retirar o talo da folha de Inajá e a introduz no viveiro. Quando este estiver coberto de formigas, o asseí (velho) puxa-o para si e o coloca dentro de um balde (feito de cuia), que deve já estar quase cheio de água temperada com folhas de caju maceradas.

Essa mistura, na realidade é um poderoso anestésico que adormece as formigas. Voltando para casa, eles colocam a mistura de água com folha de caju com as formigas num cuipi (cuia pequena) para que os velhos possam manuseá-las e colocá-las pelo abdômen, presas as luvas da tucandeira, construídas em forma de peneira com as fibras de arumã. A cabeça da formiga fica para fora e o abdômen, com o terrível ferrão, para dentro, para, quando despertarem, ferroar as mãos dos meninos a serem iniciados.

A prova de fogo!

Os índios jovens são informados pelo cantor chefe das cerimônias de todos os infortúnios que a ferroada causa, como também os benefícios físicos e culturais para quem se submete ao rito Wat’amã. Apesar de todos os alertas, o que se espera é o pedido dos meninos para passar pelo ritual.

Aos olhos do homem não índio, pode parecer animalesco, brutal o sofrimento agonizante que os meninos passam por uma noite e um dia. Para o homem Mawe’riah é o vestibular vitorioso para a vida adulta. É a vacina contra a fome; a energia anticansaço. É a prova de fogo contra a dor, que após vencida abre todas as portas culturais para o jovem Mawe’riah.

Ser desprovido dessa passagem  todos na aldeia creem que o menino não poderá casar e ser bom marido, bom caçador, bom pescador, bom agricultor, pois, acreditam que os espíritos da floresta não lhe propiciarão sorte, fartura, vida e amor. O iniciado acredita tanto, nesse dogma telúrico das matas, que praticamente, 99,99 dos jovens das aldeias dos rios Andirá e Marau pedem, incessantemente, pela passagem Wat’amã, nome indígena do ritual.

O pai do menino escolhe o cantador/poeta que comporá os versos para aquele menino. Esses versos serão somente dele até o último dia de sua permanência nesta terra. Mas a introdução, a parte inicial da cantoria é comum a todos e remete ao mitológico/cultural, aos primórdios do encantamento da criação e da cosmovisão de mundo do Mawe’riah. Esse trecho comum não pode ser alterado nem pela transmissão oral de pai para filho.

Purantin

Para que a oralidade não perca a referência mitológica Mawé, eles receberam desde a criação do mundo o “purantin”, o remo sagrado onde estão inscritos sua história e desígnios; o passado, o presente e o futuro. E tudo isso é cantado de forma poética.

As cantigas e cantos parecem um monocórdio desprovido de harmonia, repetitivas e cansativas, mas para o índio é a sua música, que lhe servirá de batismo, é o seu concerto e o seu maestro, o cantador.

As mãos do iniciado já devem estar preparadas para ocasião, pintadas de preto com a tintura de genipapo que, além de servir como antisséptico, esconderá o inchaço proporcionado pelas ferroadas das formigas.

Essa cerimônia deve ser dentro de um barracão, preferencialmente, onde será estendido um varal e fincadas diversas estacas. O varal servirá para amparar pelos antebraços os iniciados, após a colocação das luvas com as tucandeira.

As estacas, para suporte das diversas luvas tecidas com as talas da palmeira arumã, que são as luvas externas e serve, na realidade, apenas de enfeite. O trançado pode ser simples ou trabalhado, depende da criatividade do artesão e ter o formato oval ou cilíndrico.

A parte de cima da luva é enfeitada com um penacho de penas de arara piranga (vermelha); e a parte inferior, com penas menores de tucano. O xamã (pajé) vibra seu Maracá. É o sinal para o início da cerimônia da dança/ritual. O iniciado se apresenta ladeado pelos padrinhos, coloca o cotovelo sobre o varal e em seguida são lhes colocadas as luvas contendo as formigas presas pelo abdômen.

A luva da tucandeira, por analogia, é uma fêmea. Os enfeites da parte de cima seus adereços, e a parte inferior a saia e a anágua. Na língua Maweriah recebe o nome de “sahi”, onde o h, recebe a pronúncia de meio r. Meter as mãos na saia da tucandeira e enfrentar e ultrapassar todas as dores e sofrimentos inerentes a dança/ritual significa que o menino está apto a vida adulta, inclusive, enfrentar as mulheres casadoiras da tribo.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.