Pimenta no Telegram dos outros não é refresco

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A cena seria daquelas de tirar as crianças da sala, caso não fosse contida pelo apresentador do telejornal. Foi protagonizada por dois jornalistas em função das discordâncias quanto à decisão monocrática de um Ministro do STF em suspender a atuação do Telegram, essa poderosa força que parecia não ter dono, por descumprimento de decisão judicial, em todo o território nacional. Na visão legal, portanto, não foi censura, foi desobediência às leis do Estado Brasileiro.

Rebatendo a colega de bancada com acidental deselegância, por haver demonstrado certo apreço pela medida judicial tomada, disse o jornalista correspondente: “felizmente vivo em um país que não admite censura e estranho em ouvir de colegas jornalistas concordância com ato dessa natureza praticado por autoridade brasileira” (e aí vem toda aquela história da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos). No rebote, a colega jornalista não ficou por baixo: “nunca posicionei-me a favor de censura e jamais concordarei com censura, mas quero lembrar que nem sempre o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Para os que não lembram ou não são desse tempo, a frase “Tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, foi proferida por Juracy Magalhães, político conservador brasileiro, nomeado pela Ditadura Militar como Embaixador do Brasil nos Estados Unidos. E, agora, foi usada de modo inverso pela jornalista ofendida, mirando bem a câmara, para calar o colega num certo ataque de deslumbramento.

Não se trata, senhoras e senhores, de torcer por uma ou por outro, como se estivéssemos em rinha de galos, os dois são competentes e dignos! Mas isso mostra como os ânimos estão acirrados e o “imaginário do brasileiro” anda perturbado com o espírito autoritário que ronda os quatro cantos do país. Isso lembra uma velha estória que ouvi quando pequeno, daquelas que deixavam a gente sem dormir, meio assombrado.

A “estória do cão da cama velha”: um dos ancestrais da família havia feito uma promessa com o Capiroto para tornar-se rico e não pagou a promessa. Morreu e a família foi à decadência, perdendo até a casa onde morava. O único bem que sobrou foi uma cama velha usada pelo promitente, que eles desejavam a todo custo desfazer-se dela, mas não conseguiam. Mudavam de casa e deixavam a cama velha, mas ao adentrarem na nova moradia, alugada, sem saber como, já encontravam o móvel rejeitado no meio quarto.

O “mandonismo”, nas relações pessoais ou de classe ou, ainda, na sua forma mais cruel que é a Ditadura, no Brasil, é esse Cão com sua Cama Velha que não sai do nosso quarto.

Muito se tem discutido sobre as redes sociais e a Liberdade de Expressão, sempre com argumentos Iluministas, Liberais e “de Conveniência”. Sabe-se muito bem que esta nunca foi um bem absoluto e que, no plano da ética e dos imperativos categóricos, encontra limitações severas ao atentar contra o legítimo direito dos outros a outros ditames da liberdade.

Cedo os jornalistas profissionais descobrem que o que aprenderam nas Escolas de Jornalismo sobre a liberdade de expressão “não é bem assim”; que esta é limitada pelas conveniências dos proprietários dos Meios de Comunicação: mais conhecida como a “filosofia da empresa”, parte do Manual.

A visão “mcLuhaniana” da “Aldeia Gobal” e do Ciberespaço foi a base das tecnologias avançadas da comunicação, prometendo total liberdade de expressão. Apropriadas pelo capitalismo financeiro globalizado, as ações de comunicação, baseadas no domínio da informação, escoram-se nos Big data e redes sociais, gerando novos dados para o sistema. A “Ciberdemocracia” (2002), preconizada por Pierre Levy, hoje nos parece ingênua e nos leva a acreditar muito mais no que afirmava, antes, Armand Mattelart, logo no preâmbulo de seu livro “Comunicação Mundo” (1994, p.9): “a comunicação serve, antes de tudo, para fazer a guerra”.

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