Três versões para o relato de Carvajal sobre a descoberta do rio Amazonas

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Conforme o etno-historiador Antonio Porro, não dá para saber se frei Gaspar de Carvaja escreveu seu relato no decorrer da viagem pelo rio Negro ou durante a sua estadia nas Antilhas (em Cabágua e/ou em Margarita), antes de voltar ao Peru.

Segundo a hipótese que Antonio Porro lavanta, é bem mais provável que Carvajal mantivesse um diário registrando nele os principais eventos da viagem, a partir do qual sistematizou seu testemunho.

E aqui, dadas as circunstâncias desconhecidas em que ocorreu a sistematização do testemunho do frei dominicano, vem à tona o problema das três versões escritas sob o nome de frei Gaspar de Carvajal. Assim, temos:

  1. A versão que fora transcrita poro Gonzalo Oviedo em sua obra, da qual realizamos a tradução apresentada adiante, já denominada versão de Oviedo e Valdés;
  2. A versão, cujo manuscrito pertenceu ao duque de T`Serchaes de Tilly, e que ficou inédita até o final do século XIX, quando foi publicada pelo historiado chileno José Toríbio de Medina, denominada versão de Medina, por Antonio Porro, em várias das notas à sua tradução;
  3. A tradução, cujo manuscrito pertence a Coleção Muñoz da Real Academia de História de Madri, e que ficou inédita até meados do século XX, quando foi publicada por Jorge Hernandez Millares, à qual, seguindo essa linha de denominação, doravante chamamos versão de Hernandez Millares.

No século VII, o único erudito que teve acesso a e utilizou uma dessas versões foi o Cronista Mayor das Índias, Antonio de Herrera, em sai narrativa viagem comandada por Francisco de Orellana.

No caso em tela, e após o cotejamento entre a sua narrativa e as narrativas das três versões referidas, podemos assegurar que Antonio de Herrera utilizou a versão que seria editada, no século XIX, por José Toríbio de Medina.

Na realidade a narrativa feita por Antonio de Herrera é uma extensa paráfrase dos conteúdos da referida versão, que ele considerou essenciais, distribuindo-os em cinco capítulos do Livro IX da Década VI de sua Historia de los hechos de los castellanos em las Islas e Tierra Firme del Mar Oceano.

Todavia, em várias passagens, não esqueceu de citar o nome de frei Gaspar de Carvajal (… segun refere el P. Fr. Gaspar de Carvajal…, …afirma el P. Fr. Gaspar de Carvajal…, i segun el P. Fr. Gaspar de Carvajal…), indicando aos seus leitores o autor da fonte utilizada, ainda que não tenha prestado a devida atenção de que a maior parte comanda por Orellana ocorreu em 1542, conforme a narrativa do frei Carvajal, em não em 1941, como, por duas vezes, o Cronista Mayor asseverou.

Infelizmente, não tivemos condições de saber como, quando, onde e de quem Antonio de Herrera obteve a versão que, mais de duzentos anos depois de tê-la utilizado em sua obra, seria editada por Toríbio de Medina.

Pela relativa facilidade de acesso que Antonio de Herrera teve ao manuscrito dessa versão do testemunho de frei Gaspar de Carvajal, podemos levantar a hipótese de que o mesmo já se encontrasse em arquivo conhecido na Espanha, segue daí, que esse Cronista Mayor não tece dificuldade para acessá-lo e consultá-lo.

Reconhecemos que a existência dessas três versões suscita uma problemática que merece exegese mais acurada. No entanto, ela constituiria um outro universo de investigação, o qual foge ao propósito desta seção do nosso Estudo Introdutório. Isso não quer dizer que a deixaremos completamente de lado, pois, não podemos ignorar os dois principais campos onde se evidenciam as discrepâncias, isto é, a fraseologia e o conteúdo.

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Auxiliomar Silva Ugarte (trad.), em Relação do famosíssimoo e muito poderoso rio chamado Marañón, de frei Gaspar de Carbvajal. Manaus, Valer, 2021.

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