Professora ucraniana refugiada diz que teme nunca mais ver o marido

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24 de fevereiro: era uma típica quinta-feira de Inverno em Kharkiv, no leste da Ucrânia. Nataliia Vladimirova estava dormindo quando foi acordada pelo marido.
O parceiro a avisa que os ataques da Rússia haviam começado. Naquele momento, a ex-professora universitária e auditora sequer sabe o que colocar nas malas. A família de Nataliia, que prefere ser chamada de Natasha, não tem a menor ideia de quanto tempo o conflito irá durar. Sua preocupação inicial foi em levar o maior número possível de documentos e roupas para a filha Oleksandra, de apenas quatro anos.

Homem armado em frente à hospital na Ucrânia. Foto: UNICEF/Andriy Boiko

Fuga repentina 

Naquele mesmo dia, a família abandona o apartamento em Kharkiv – o marido tinha apenas a roupa do corpo, um traje esportivo.

Dúvidas e ceticismo permeavam as conversas de Natasha com o marido antes do ataque russo: ela havia até sugerido ao marido que comprassem passagens de avião para fugirem, antes mesmo da guerra. Mas ele não acreditava que a invasão russa pudesse de fato acontecer em pleno século 21.

De um momento para o outro, a vida do casal e da filha, tomou uma direção nunca antes pensada: o marido ficou na Ucrânia, enquanto Natasha e a menina Sasha conseguiram encontrar refúgio em Portugal. Foi em Lisboa, que a também fotógrafa contou a sua história para a ONU News. Mas até chegarem em terras lusas, a família passou por várias cidades.

Travessia pela Ucrânia 

A família ficou hospedada em abrigos para refugiados em cidades da Ucrânia e na Romênia. Foto: Natasha Vladimirova, arquivo pessoal.

A primeira parada foi Dnipro, onde vivia um amigo. Mas logo no primeiro dia, as sirenes soaram: um sinal de que as explosões estão prestes a começar. Natasha conta que seu estado emocional foi rapidamente afetado: temendo o pior, decidiram ir para outra cidade.

Chegam em Odessa, com a meta de estarem cada vez mais perto das fronteiras. A família tem a confirmação de que o marido não poderá seguir com elas: os homens entre os 18 e o 60 anos são obrigados a ficar na Ucrânia. A mãe dele, Nataliia Rodenko, junta-se ao grupo, que segue então para Kvuyry Rih. Mais sirenes tocam e a pequena Sasha quer saber o que aquele barulho significa:

Uma criança no meio da guerra 

A família vivia uma vida feliz na Ucrânia antes do conflito. Foto: Natasha Vladimirova, arquivo pessoal.

Segundo Natasha, uma senhora explica à menina que ela deve tapar os ouvidos e abrir a boca. Da próxima vez que as sirenes soam, Sasha conta à mãe que já sabe exatamente o que fazer. Mas a especialista em economia nota que uma criança de quatro anos não deveria precisar aprender isso, nunca.

A família finalmente atravessa a fronteira de carro e chega à Romênia, onde permanece por quatro dias. Voluntários da Cruz Vermelha prestam assistência, ajudam as três a encontrar abrigo e na capital Bucareste, ficam sabendo que o governo de Portugal está organizando um voo humanitário para refugiados ucranianos.
Ela pensa no clima ameno em Portugal, na proximidade com o mar e decide aceitar o desafio em buscar refúgio em um país onde nunca estiverem e onde não conhecem ninguém. Chegam no dia 14 de março e novamente, com a ajuda de voluntários, Natasha, a sogra e a filha foram acolhidas por uma família portuguesa que vive em Lisboa e que abriu as portas de casa para as ucranianas.

Solidariedade de desconhecidos 

Nataliia (sogra), Natasha e a filha Sasha agora vivem em Lisboa como refugiadas. Foto: ONU News/Leda Letra.

Natasha faz questão de contar que as roupas que ela e a sogra estão vestindo foram doadas por amigos da família que lhes ofereceu hospedagem. Gestos de bondade de desconhecidos que fazem toda a diferença em um momento delicado.
Emocionada, ela revela seu maior medo: não conseguir voltar a encontrar com o marido, com quem consegue conversar por videochamada duas vezes ao dia. A filha já está registrada como refugiada junto aos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal, SEF, enquanto Natasha e a sogra estão no processo de conseguir a documentação.

Os próximos objetivos de Natasha são encontrar trabalho e vaga em uma escola para a filha. A ansiedade que sente quando vê as notícias sobre a Ucrânia é intercalada por momentos de alívio por saber que estão em segurança.

Entre os dias 24 de fevereiro e 27 de março, o SEF havia fornecido status de proteção temporária a mais de 22,7 mil ucranianos e cidadãos de outros países que estão morando na Ucrânia até a invasão russa. O governo português está facilitando a emissão de documentação para os refugiados e criou um site especial de apoio a essa população, o portal Portugal for Ukraine.

 


 

Fonte: ONU News

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