Será ou Não. Depende de Nós!

O jornalista Walmir de Albuquerque Barbosa sugere, neste artigo, que a guerra cultural dos ultraconservadores no Brasil deve ser rechaçada com discussão limpa, com eleições livres, com voto secreto, apuração honesta dos resultados e investidura dos eleitos.

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O feedback de leitores sobre as nossas responsabilidades com a democracia é um grito de alerta que me levou a continuar essa prosa iniciada na crônica anterior, quando tratamos da “guerra cultural” que ora é travada no MEC, mas que começou na Área Ambiental e da Saúde para desacreditar a Ciência, tomou o rumo da Urna Eletrônica para negar certas tecnologias que não interessam e valorizar outras, que facilitam os disparos de robôs com mensagens fakes; passou, ainda, pela Funarte, Funai, Fundação Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e chegou até ao Lollapalooza 2022, depois que as Universidades Públicas foram silenciadas e os sindicatos de trabalhadores absorvidos por partidos políticos de aluguel ou de ocasião, ou mortos por inanição.

É obra de uma “larva de cupins” que, como as “saúvas dos anos 50”, comem por dentro todas as instituições que desde o século XIX são parte da Democracia Liberal e, mais recentemente, do Estado Democrático de Direito. Os mais velhos estão cansados; e os mais jovens decepcionados por não encontrarem retorno de seu esforço: muitos, endividados com o crédito educativo e/ou desempregados, estão, assim, inabilitados até para negociar a própria dívida com a União. É triste!

Pensando como José Murilo de Carvalho, em “Fim de um experimento democrático” (“130 anos: Em busca da República”, 2019, p.143-147), ao referir-se ao golpe de 1964, lembra que ele veio de onde não se esperava: “Que tenha acontecido o inesperado é o que, a meu ver, marcou a década de 1960, que herdou da anterior o impacto das iniciativas de Juscelino Kubitschek, coroadas pela inauguração de Brasília, mas tisnadas por terem provocado um surto inflacionário. A década herdou também o conflito, iniciado na década de 1940, entre, de um lado Getúlio Vargas e seus herdeiros e, de outro, parcelas das Forças Armadas, lideranças políticas e do empresariado. O principal representante do vanguardismo, e alvo predileto dos inimigos, era João Goulart”. Dirão alguns: isso é passadismo. Pode ser até uma farsa, mas que parece, parece!

Os que desejam a superação de nossas mazelas identitárias e a existência de instituições fortes a garantir direitos iguais para todos; os que não querem duvidar, todos os dias, se vivemos ou não em uma democracia; os que não suportam mais esse jogo abjeto dos cancelamentos que vêm dos radicalismos presunçosos das redes sociais; ou, ainda, incomodam-se com “ordens do dia” reverberando ecos das casernas, sentem-se todos apreensivos com o debate político-ideológico.

O que temos, por um lado, é uma sociedade fragmentada em grupos que se nominam como tribos aguerridas em busca de direitos historicamente negados, por outro, um monobloco de radicais extremados, herdeiro de todos os totalitarismos que as elites e frações de classe pequeno-burguesas reservaram para si e foram consolidando com carolices, “pureza de costumes”, teologias da prosperidade e cultos ao consumismo do “deus Mercado”, de coisas, de ideias, de beleza e falsa felicidade. E ocupam, agora, a ribalta política no nundo, defendendo privilégios e supremacias.

Como enfrentar tudo isso? Nuccio Ordine aconselha: “Aceitar a falibilidade do conhecimento, confrontar com a dúvida, conviver com o erro não significa abraçar o irracionalismo e a arbitrariedade. Significa, em vez disso, em nome do pluralismo, exercer o direito à crítica e sentir a necessidade de dialogar também com aqueles que lutam por valores diferentes dos nossos” (A utilidade do inútil, 2016, p.174).

Isso não se faz com autoritarismo e apologia à tortura. Se faz com discussão limpa, com eleições livres, com voto secreto, apuração honesta dos resultados e investidura dos eleitos. Além do voto, portanto, o que depende de nós é a aversão ao ódio, à ignorância deliberada, à maldade que mutila e “ao sangue da vingança nos olhos”; e mais, a aversão à cumplicidade disfarçada de indiferença.

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