Páscoa: para muito além do consumismo

Compartilhe:

Desde o domingo passado, Domingo de Ramos, estamos vivendo a maior e mais importante semana do calendário católico. É interessante perceber que todo calendário de datas móveis do ano se movimenta em torno da data em que se define o Domingo de Páscoa, que, neste ano, será no dia 17.

Além de um feriado que caiu no mero consumismo, faço aos leitores um convite à reflexão sobre os movimentos da natureza e da mensagem psicológica que esta data nos trás ou devia nos trazer, que são o caminho de humanização e do crescimento interior.

Começo pela definição do dia da Páscoa católica, que se realiza no primeiro Domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera.

Esse modelo de calendário religioso pautado no ciclo lunar e nos solstícios e equinócios não é uma novidade cristã. Muitos povos já se baseavam nessas observações para escolher as datas de seus festivais e plantios.

O catolicismo no seu projeto de expansão por entre a Europa, majoritariamente, Celta, utilizou-se daquele calendário para assim transpor o seu pensamento religioso e filosófico.

Equinócio pode ser entendido como dias iguais – era uma época vista pelos antigos como um ponto de equilíbrio entre as forças da natureza. No caso da primavera, o momento de equilíbrio certo para que a vida nova surgisse, com o nascimento das plantas, dos animais e da juventude da natureza.

A filosofia grega antiga associava a esse momento o signo de Áries, que representa o cordeiro menino, lembrando que nos tempos antigos a astrologia era levada muito a sério e organizava o pensamento e as atividades de uma civilização. Não servia somente para tirinhas de jornais que preveem se o seu dia será bom ou ruim.

A época do pleno equilíbrio da natureza material estava associada ao momento de retirada do pensamento espiritual, de modo que um salvador deveria oferecer-se em sacrifício, pois essa continuidade da humanidade não seria gratuita e exigia, assim, um contraponto, uma recompensa. Logo, o cordeiro salvador precisaria descer aos mortos e cumprir o seu papel salvífico.

Inúmeras sociedades pensavam desta forma e muitos seres de sabedoria precisavam cumprir a sua jornada de heróis nessa época do ano, vivendo seus últimos dias nessa época, descendo aos submundos e ressuscitando, transformando-se em equilibradores do cosmo.

E toda essa mitologia é observada na natureza, no fato de que o sol em época de equinócio fica transitando no centro da linha do equador, formando um âmago que mais tarde seria o ponto de equilíbrio do Cristo, no centro da cruz.

Os antigos viam nesse período do ano uma oportunidade de, psicologicamente, trabalhar um ideal de mudança, para que a sua civilização abraçasse um caminho de paz e elevação filosófica.

Baseado nisso, o catolicismo escolhe a data da Páscoa para estabelecer as outras datas do ano, logo 50 dias antes do Domingo Pascoal são celebrados os dias de carnaval.

O signo regente seria o de Peixes, simbolizando a razão por baixo das águas, e assim reinava o caos sobre a terra; e o catolicismo, para frear esse ciclo, determinou o dia da Quarta-Feira de Cinzas como o dia em que toda a experiência negativa anterior se dissipasse, e logo, germinasse a nova civilidade humana, que nasceria no equinócio de primavera.

E assim, após quarenta dias, se instala a Quaresma, com os cristãos finalizando o período de inverno (neste caso, o do hemisfério norte coincide com inverno amazônico) e chegando purificados para o renascimento primaveril.

Os romanos deram para esse mês o nome de Abril, que se refere as espumas do mar de onde vinha a Deusa Venus, Deusa do Amor. Amor esse vivido na primavera até as últimas consequências.

Com a descida do salvador/sabedoria ao submundo, sua ressureição e ascensão aos céus, ou seja, sua retirada do mundo dos mortais, a humanidade necessitaria continuar a expansão de seus ideais uns com os outros.

Logo, cinquenta dias após a Páscoa se celebra o dia de Pentecostes, no qual o catolicismo festeja a descida do Espírito Santo sobre a Virgem e os apóstolos, fazendo assim a expansão do cristianismo. Povos antigos assim também o faziam com seus rituais de início de verão, regidos pelo signo de Touro, que representava a tomada de consciência do trabalho, a força para movimentar as boas experiências aprendidas, celebrando o fogo, que na Igreja se perpetuou como as línguas de fogo do Espirito Santo.

Observemos a proposta de contraposição: cinquenta dias antes da Páscoa/equilíbrio, reina caos e a subversão, durante os quais, em civilizações antigas, o rei se retirava e entregava a chave da cidade a um rei burlesco, um rei Momo.

Em seguida, vive-se um período de encontro com a sabedoria/ inteligência, que no nosso caso ocidental é o Cristo, na Semana Santa, cinquenta dias após essa data celebramos a vinda dos dons, o ígneo que, nesse caso representa o encontro com o Divino, as línguas de fogo sempre apontando para o céu, para o pensamento Espiritual.

A Páscoa como momento de sacrifício e ressureição nos leva ao caminho de observação interior. O Cristo que habita em nós, personificado nessa sabedoria, inteligência e ciência, também em algum momento será sacrificado, para que o novo aconteça, uma nova primavera humana surja.

A mitologia católica e as de povos antigos têm uma proposta de busca pelo Divino interior que não podemos deixar passar em branco.

Das datas que eu celebro durante o ano, a Semana Santa é uma das que me deixa mais saudoso, é uma época de estética diferente, pela qual, no catolicismo, se trabalha as cores, aromas e sabores que vão caracterizando a data.

Na nossa realidade amazônica sempre contam as lendas exemplares, para que não se burle toque de recolher da Sexta-Feira Santa e se respeite a Via-Sacra, e as preparações dos peixes apreço na Quinta Santa, dia da última ceia para não se trabalhar na sexta.

Sábado se malha o Judas traidor de Cristo e se vai à missa de anúncio de Páscoa.

No Domingo, geralmente, se faz um almoço em família e assim conclui-se mais uma Semana Santa, que, neste ano, terá mais participativa presencial, devido ao esforço da ciência e da eficácia das vacinas. Quando estamos unidos, as nossas comunidades, nesse período sempre, ficam mais aconchegantes.

Boa Páscoa a todos e todas!

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.