Velha mania de leitor

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Dediquei-me por muito tempo aos estudos da Análise de Discurso. Isso se deu, principalmente, durante a última fase da minha carreira na Universidade Federal do Amazonas, até a aposentadoria em 2012. Depois disso, cansei da vida acadêmica. Alforriei-me do bendito Lattes. E mudei meu foco de interesse: precisava ler pelo prazer de ler, sem transformar o lido em planos de aula ou em suporte para pesquisas e artigos; precisava mergulhar nos textos literários, sem dar satisfação a ninguém, senão ao meu particular espírito de leitor.

Enfim, precisava me reconciliar com a fila enorme de livros que, já impacientes, aguardavam há décadas a minha libertação da vida acadêmica. E, não menos importante, precisava de tempo para comprar minhas brigas com a escrita e escrever livremente minhas crônicas, meus contos e meus ensaios, o que se tornou uma necessidade vital na minha velhice.

Mas isso está longe de se entender que, num dado momento, eu tomei um banho desses bem demorados e me exorcizei daquele passado de leituras e estudos acadêmicos. Nada disso. Afinal, como diria Drummond, “de tudo fica um pouco”. Eu apenas mudei a forma de me apropriar daqueles conhecimentos acumulados e passei a me valer deles como ferramentas para o que hoje faço por prazer e necessidade: ler e escrever. Neste sentido, o pouco que ficou dos estudos de Análise de Discurso representa a herança mais substancial para eu afinar o meu olhar em direção ao mais extraordinário dos fenômenos humanos – a Linguagem.

Parece nada a ter a ver uma coisa com a outra, mas eu estou me lembrando disso tudo por conta da minha velha mania de usar e abusar desses maravilhosos pincéis – tenho-os de várias cores – que servem para destacar nos livros trechos que, de alguma forma, nos chamam atenção. Não consigo viver sem eles! Que me perdoem os puristas, que acham um horror as páginas de um livro serem maculadas, ainda que por esses imaculados pincéis.

Para encurtar a história, deu-se nesses dias de eu estar praticando o delicioso exercício de rever, página por página de um livro lido há algum tempo, trechos destacados com as cores desses bem-aventurados pincéis. Era um livro chamado “Sobre os escritores”, com ensaios de Elias Canetti, que ganhou o Nobel de Literatura em 1981. E lá encontro, à página 32, o seguinte trecho em maravilhoso destaque na cor amarelo-cheguei:

Escreve-se para ser diferente. Quem frauda a escrita continua sendo o que é de qualquer maneira”.

De imediato, então, me caiu a ficha. Eu havia feito o destaque porque Elias Canetti, por caminhos outros, tinha acertado na mosca um dos princípios básicos da Teoria do discurso: nós somos frutos da linguagem que nos é social e ideologicamente imposta ao longo da vida, portanto, ainda que, pela língua escrita ou falada, tentemos fraudar esse dizer, nós continuaremos sendo o que somos. Afinal, o discurso, materializado na língua escrita ou falada, é uma outra forma de aferir as marcas indeléveis de nossas impressões digitais: a linguagem nos faz ser o que somos.

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