“Perdi minha dignidade!”

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Em 1.992 encontrava-me em Parintins (AM), minha terra natal, capital nacional do boi bumbá, laborando no escritório local da Funai, que existe até hoje, e dedicava meus esforços profissionais aos meus irmãos Saterê-Mawé, do rio Andirá, no município de Barreirinha; e aos Hixkaryana, no município de Nhamundá, ambos no Amazonas.

Registro que o Festival Folclórico de Parintins, nessa década, buscava se estabelecer como produto cultural genuinamente parintinense, então, praticamente, toda arte e artistas locais giravam em torno dos bumbás Garantido e Caprichoso.

Mas existia um artista plástico, que teimava em não se render aos encantos e desígnios do Festival Folclórico de Parintins. Ele ensaiava uma carreira solo, por sinal muito sólida, baseada apenas nas tintas, telas e pincéis que o seu talento impunha.

Ciente de sua teimosia, encomendei-lhe uma tela. Dois meses depois, a sobredita estava na sala de casa emoldurando o nosso lar.

Após dois anos, recebi o dito artista em casa, com o pedido para “eu emprestar para ele a tela” para compor uma exposição a ser realizada em Manaus, sob os auspícios do Governo do Estado.

Ele disse que tinha muitas telas novas e bonitas para vender, mas essa, pela qualidade da obra (por ele considerada) serviria apenas para abrilhantar a exposição, que, portanto, não seria vendida, em hipótese nenhuma, que eu confiasse nele.

Minha esposa, de cara disse não. Mas eu com jeitinho conciliatório e espírito de ajudar o parente, convenci minha consorte a aceitar o pedido. Eu também, mesmo relutante cedi ao seu pedido. Assim, subi a parede, retirei a tela, empacotei e a entreguei ao artista. E disse-lhe:

– Não vá me decepcionar. Ele respondeu.

– Que é isso parente? Tenho dignidade, tenho palavra!

E lá se foi ele com a tela no bagageiro de sua bicicleta.

No mês seguinte recebi o dito cujo na sala da nossa casa, sentado no mesmo banco de madeira do episódio anterior. E, interessante, ele não portava consigo a tela.

Minha esposa achou muito estranho, mas resolvemos aguardar pela fala dele.

Que iniciou, enfim:

– A exposição foi um sucesso. No segundo dia vendi tudo que estava disponível para a venda e fiquei “marcando tempo” com as obras que já tinham donos e não poderiam ser vendidas. E a tua tela, entre elas.

Perguntei-lhe.

– E o que aconteceu? Cadê a nossa tela?

Ele continuou.

– No terceiro dia da exposição somei tudo o que havia recebido e fui as lojas comprar telas, tintas, pincéis, espátulas, tudo novinho em folha.

No quarto dia, embalei e mandei de barco para Parintins, para minha casa. Consegui comprar material para quase um ano de trabalho de pinturas.

A exposição foi um sucesso. E aí resolvi aguardar o encerramento da exposição e voltar para Parintins com as telas que não estavam à venda para devolver aos seus donos. A tua, no bolo.

E minha esposa, já impaciente e quase gritando:

– Sim, mas cadê a nossa tela?

Ele continuou, pacientemente, com o olhar perdido num local distante.

– Um homem bem-vestido, com ares de doutor, endinheirado, chegou a exposição, olhou demoradamente para tua tela e me ofereceu R$ 1.000,00. Eu lhe respondi que não, que essa tela tinha dono, que seria um crime eu vendê-la, que eu já tinha recebido por isso, e que eu não a venderia. O homem foi-se embora. Mas depois de um tempo voltou e disse:

– Dois mil reais pela tela?

Repeti a mesma cantilena e acresci:

– Que um artista que vende duas ou mais vezes sua obra, não é um artista digno. Não é um cidadão do bem! Que eu, apesar de um simples artista, tinha a minha dignidade!

O homem foi embora. Eu pensei que ele tinha desistido, mas voltou novamente e desta vez ofereceu:

– Três mil reais pela obra!

Mais uma vez eu lhe disse:

– Não, eu tenho dignidade! Não vou vender uma tela que não é minha. E ponto final.

E eu lhe disse:

– Parabéns meu caboclo!

Mas o cidadão mais uma vez retornou. E desta disse, sem titubear, decidido, com um sorriso de vitória nos cantos dos beiços.

– Quatro mil reais pela obra!

E o artista silenciou, emudeceu, suando, contorcendo as mãos, sentado sobre o mocho de madeira, como se tivesse desistido de falar ou de viver.

E minha esposa, já furiosa com o rumo da prosa, cobrou:

– Sim, a exposição foi um sucesso, mas cadê a nossa tela? Cadê o nosso quadro?

E ele quase em prantos, balbuciou:

– Eu perdi a minha dignidade!

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