Coisas do folclore e coisas hodiernas

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Dizem que a origem é portuguesa, mas está presente na memória coletiva dos mais velhos de todo o país; uma brincadeira “pesada”, tida até como criminosa ou que já chegou a oportunizar crimes, tidos ou não como de legítima defesa.

Estamos a falar da Brincadeira do Serra Velho ou Velha, que é parte do ciclo folclórico pagão no período da Semana Santa dos Cristãos Católicos, assim como Malhação do Judas, o Furto de Galinhas e folias de pândegos que aproveitam a ocasião de contrição e reflexão sobre a morte, a penitência e os “pecados” religiosos ou decorrentes de desvios morais, para assombrar pessoas ou mesmos ridicularizá-las por condutas inadequadas.

Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), no Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), faz registro alentado da “brincadeira”; o Dicionário Aurélio descreve o rito; variações nas diversas regiões brasileiras são comentadas por Francisco José Alves, do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em artigo disponível na Internet, Notícias do Serra-Velha, de 02/02/2018, onde afirma ainda ser praticada país afora, apesar de ser uma “maldade”.

Consultando alguns causídicos, deles ouvi que tanto a vítima escolhida ou seus prepostos podem denunciar os autores ou envolvidos na “brincadeira” com base no Código do Idoso e até na Lei Maria da Penha, em Delegacias Especializadas; pode ser vista como dano moral e, se causar, além de constrangimento, problemas de saúde pondo em risco à vida ou à saúde o idoso, enquadramento em outras categorias infracionais. Como veem, ainda não descrevemos o tão danoso ato, mas já falamos da sua tipificação criminal e da crueldade da qual se reveste.

Em que consiste o Serra Velho ou Velha? Os brincantes escolhem a vítima, necessariamente um idoso, mas que não é bem-visto na comunidade, seja por suas rabugices, seja por uma reputação indesejável ou mesmo por “pura maldade ou safadeza do grupo”, apenas para “zoar”; segundo Câmara Cascudo”, às vezes, escolhem “políticos decaídos”.

O ritual da brincadeira, exige o uso de instrumentos como tábuas velhas e, necessariamente, um serrote. Rumam para a casa do “indigitado”, normalmente nas noites de quinta ou sexta da Semana Santa e começam a “cerimônia” com um interrogatório feito em voz alta, quando perguntam: “quem eu serro?” Outros, serrando a tábua velha, respondem: “o Seu fulano(a) de tal… E por quê?”. E serram mais, ao mesmo tempo que expõem as razões, fingem chorar, lamentar e gritar pela morte da vítima; em seguida leem o testamento, normalmente uma gozação com os familiares do vitimado, quando repartem seus bens.

Encerrada a cerimônia, quando ela consegue se consumar a contento da trupe, seguem adiante para infernizar a vida de outros. Acreditam os brincantes que o “velho serrado” não chegará vivo à Semana Santa do ano seguinte.

Era muito comum e até mesmo recomendável, que pessoas com idosos na família montasse campana para impedir que os brincantes do Serra Velho se aproximassem de suas casas e até revidassem, violentamente, à investida dos brincantes, quando isso vinha a acontecer. Apesar de repulsiva, ainda acontece repaginada ou no seu sentido metafórico.

Não a propósito, parece que o Estado Brasileiro adotou a Brincadeira do Serra Velho e busca, de vez em quando, incorporá-la às suas políticas públicas de “desamparo aos idosos”, como acaba de fazer: esse mês autorizou o “mercado” a reajustar os preços dos remédios, bem acima da inflação, para “recompensar as perdas no presente e do passado”.

A agência reguladora já está anunciando um novo Serra Velho e Velha para a próxima semana, o aumento nos valores dos Planos de Saúde, sem que os salários sofram reajustes equivalentes. A nossa única reação será “Malhar o Judas”, pelas vias legais, para evitar que sobreviva e chegue à Sexta Feira Santa do ano que vêm.

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