Sobre como os tipos de águas definem a ocupação da Amazônia

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 […] Reconhece-se na Amazônia, pela sua aparência, três tipos fundamentais de água.

Aos dois tipos que mais impressionam o observador, dão-se, na Amazônia, os nomes contrastantes de água preta e água branca.

Ao primeiro, corresponde a águas pobres em sedimentos, mas tingidas por substâncias procedentes de áreas humíferas.

O segundo tipo é constituído de águas barrentas, que conduzem em suspensão elevado teor de partículas rochosas oriundas de processos erosivos.

Há ainda um terceiro tipo, de aspecto menos marcante: são águas essencialmente destituídas de tintura ou carga suspensa.

Em vista da situação do paraná do Careiro, próximo à confluência dos dois mais destacados representantes dois rios de água preta e água branca, cabem algumas considerações adicionais sobre a importância histórica da diferença que entre eles existem, as quais, conforme se verá, iriam influir na ocupação da ilha do Careiro.

O negrume do rio Negro não seria senão curiosidade geográfica […] A reduzida piscosidade do rio [Negro], por exemplo, já era conhecida dos índios, cujo regime alimentar assentava, em grande parte, na fauna aquática.

A baixa produtividade biológica teria, também, repercussões consideráveis no posterior processo de ocupação.

Faria, por exemplo, com a ilha do Careiro entrasse logo para a geografia econômica colonial.

Senão vejamos. A esterilidade do rio [Negro ], na expressão de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, fez com que os lusos buscassem, nas águas brancas do Solimões, meios de subsistência para as povoações do rio Negro, principalmente para a capital (naquela época, Barcelos).

[…] A primeira vocação da ilha do Careiro nasceu, portanto, da diferença entre a produtividade das águas pretas e a das brancas.

Os numerosos lagos, de pequena profundidade e extenso litoral, nelas aninhados apresentavam condições muito favoráveis para a fauna aquática.

[…] Para a instalação de um pesqueiro real na ilha do Careiro, muito terá influído o fato de serem seus lagos os primeiros que se encontram, fecundados por águas brancas, ao descer-se o rio Negro, procedente de Barcelos.

Hilgard O´Reilly Sternberg, em A água e o homem na várzea do Careiro – 2ª Ed. – Belém: Museu Emílio Paraense Goeldi, 1998.

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