Limite da tolerância: alertas em tom maior

Compartilhe:

É indiscutível! As forças cósmicas são educadoras em potencial. Quando as transgressões sistêmicas extrapolam os limites dos abusos e explorações sobre os ritmos naturais, a Grande Mãe se manifesta implacável ou, para melhor clareza, justa. É o que se tem testemunhado.

A realidade em pauta chama atenção da humanidade sobre os avanços destrutivos produzidos pelo atual modelo desenvolvimentista via tecnologias imperialistas, mecanicismos cientificistas, mercantilização indiscriminada dos recursos naturais e de outros referenciais similares. O conjunto de tais violações e desrespeitos ao equilíbrio planetário influencia naquilo que Toledo e Barrera-Bassolis, na obra A Memória Biocultural (2015), chama de estado patológico de amnésia coletiva ou memoricídio biocultural.

Em termos práticos, o memoricídio biocultural se manifesta em estados de sonambulismo estrutural, de dormência sociocultural com reflexos nocivos a um pleno e sadio desenvolvimento humano. É até desnecessário buscar comprovações teóricas ao presente argumento. O provincianismo predominante em nossa Amazônia colonizada é um baita testemunho: boa parte dos cabocos ignora e/ou até se envergonha das próprias raízes, referendadas nos falares, no cardápio, em saberes popular/tradicionais; nas dinâmicas naturais de lidar com a agricultura, com os recursos naturais, com a produção saudável de alimentos e de fórmulas preventivas, curativas de cuidados com a vida em sua totalidade.

Tem mais: sistemas de comunicação aliados à mercantilização de valores e princípios étnico culturais rotulam e depreciam o acervo nativo como coisas de caboco. Na mesma direção, produções científicas controladas pelo classismo cientificista empurram, cada vez mais, a cabocada à morte cultural.  Em contrapartida, no vagar da resistência e possibilidades, resta-nos a autonomia de pesquisadores em cujas teses preservam o patrimônio ancestral – resíduos de matéria prima de nossa historicidade.

O teçume até aqui, comprova uma realidade visível, porém mascarada sob massificações e artimanhas alienantes.

A bem da verdade, o Planeta Terra, abrigo das biodiversidades (humanos, bichos, solos, florestas, águas, enfim, a variedade de recursos naturais básicos à sobrevivência de todas as espécies) saturou dos ininterruptos abusos; atingiu os limites da tolerância às volumosas agressões e decidiu praticizar a lei do retorno: olho por olho; dente por dente. Ou como se diz por aqui: se não alcanças a linguagem do amor, talvez despertes com a dor. Os últimos episódios socioambientais em território brasileiro reafirmam a tese popular, assim como a veracidade das revelações científicas sobre a destruição em curso do Planeta.

Do que está posto e independentemente de credos, a humanidade experimenta o apocalipse anunciado. Impossível negar ou ignorar. As evidências comprovam. A covid-19 trouxera o primeiro alerta em 2019, quando denunciara a fragilidade e o despreparo estrutural sistêmico para um justo, equilibrado e efetivo enfrentamento. Em paralelo, aí estão os súbitos acontecimentos de origem natural: terremotos, vulcões, tornados, redemoinhos, granizos e por último as densas e volumosas chuvas.

A ausência de leitura crítico-social (fonte de cegueira da maioria) sobre a realidade concreta ignora as causas fundamentais seus respectivos agentes produtores e assimila o veneno alienante das mídias que transforma fenômenos naturais em tragédias e/ou catástrofes.  As últimas chuvas que descarregaram sua justa e natural revolta em várias regiões brasileiras foram injuriadas e totalmente responsabilizadas como vilãs pelas calamidades e infortúnios sociais. Timidamente, protestos verbais e reflexões isoladas apontavam sistemas incompetentes, corruptos… Na mesma frequência, vagas problematizações de cunho socioeducativo sobre as causas e os porquês das inundações, dos desabamentos, das mortes, enfim, dos estragos.

Fotos: Floriano Lins

A Ilha Tupinambarana, espaço urbano de Parintins/AM, de aproximadamente, 7.000 km2, a 369 km de Manaus, midiatizada capital brasileira do folclore (além de outros mascaramentos hipócritas), na primeira semana do mês em curso, recebera uma séria chamada de atenção. Saturada pelas indiferenças institucionais aos clamores socioambientais, a Grande Mãe Parintintin (sem temer censuras midiáticas) derramara impiedosamente sobre o gueto urbanoide* seu pranto indignado seguido de inúmeras punições: alagações generalizadas, bairros e casebres destruídos, esgotos vomitando podridões acumuladas há anos, enxurradas varrendo toneladas de lixo, na tentativa de desintoxicar ruelas, becos e amenizar as constantes injúrias ao seu ventre sagrado. A Mãe Parintintin também não poupou a fantasiosa escora do muro de arrimo, em frente ao gueto.

Vale lembrar: o desabamento do muro de arrimo, citado, é um alerta de especialistas e estudiosos da área, faz tempo… No entanto, como parte das dinâmicas administrativas da Ilha, totalmente ignorado por gestores; provavelmente sem a devida competência para atos administrativos justos e comprometidos com projetos de cidades saudáveis – requisitos de sociedades evoluídas.

A propósito do conceito, a médica sanitarista, Sônia Terra Ferraz, na obra Cidades Saudáveis – Uma urbanidade para 2000,  traz valiosos esclarecimentos: em países desenvolvidos, o programa inclui, resumidamente, conjunto de ações centradas sobre o meio ambiente, sobretudo saneamento de regiões carentes e periféricas, resíduos sólidos e orgânicos, e a qualidade do ar; desenvolvimento de serviços básicos e fundamentais de saúde; ação de controle  e de prevenção de doenças; promoção de modos de vida sadios; defesa de políticas municipais baseadas em desenvolvimento econômico que produzam impacto potencial para a saúde e a proteção das populações.   

Comprovadamente, a distância entre o ideal e o real é abissal em províncias e freguesias de nossa prostituída república. As táticas desenvolvimentistas do atual sistema econômico – desmatamentos, queimadas, envenenamentos do solo, das águas e do ar, extermínio de espécies vegetais e animais, domínio ilegal de terras, confinamento das populações tradicionais, mercantilização desenfreada dos recursos naturais, trabalho escravo e etc.-, eliminaram princípios e valores essenciais à qualidade de vida, assim como as reverências à Terra como Mãe cósmica, celeste, telúrica, ctônica; a Eterna criadora, ceifadora, regeneradora; a Tecelã Divina que entrelaça e conduz todas as forças do universo, que dá e tira a vida. (Mirella Faur. O Anuário da Grande Mãe. 2011).

De resto, as profundezas maculadas das águas do Amazonas, já poluídas, contaminadas e ignoradas nos desafiam a mergulhos críticos e realísticos sobre o que resta à sobrevivência da região. Desmandos administrativos referentes à qualidade de vida das cidades e das populações carecem de intervenções extensivas aos cartéis governistas que transformam direitos fundamentais em feirões eleitoreiros. Urge, portanto, ao coletivo universal construir aqui, agora e já, caminhos e modos sustentáveis de vida dignos: clamor do incógnito amanhã em nome das vidas futuras que sobreviverem à catástrofe sistêmica global.

É madrugada…  As chuvas não recuam de seus propósitos.

Na Ilha Tupinambarana, em sintonia com as forças cósmicas, as cigarras, em tom maior, anunciam que é hora de acordar.


Falares de casa

Gueto urbanoide: (Neologismo) Concepção da autora sobre espaços urbanos com precárias condições econômicas e sociais, geralmente ocupados por populações em situação de dependências e com baixo alcance de leitura técnica e social.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.