O mundo bruto e as superestruturas

Compartilhe:

O título não é meu, encontrei-o escrito numa lingueta de papel feito marcação em um livro que há muito não abria. Gostei, achei oportuno. Por desencargo de consciência, levei-o à “bacia das almas” de três caçadores de plágio e eles não me indicaram nenhuma autoria conhecida. Com isso, a responsabilidade é toda minha do querer dizer o discurso a partir dele.

Passei a semana enroscado na “virada linguística” que parece vir à tona novamente. Sinal dos tempos nas oficinas de análise do discurso: Centenário da Semana de 22 emendando com  preparativos do Bicentenário da Independência do Brasil, que almeja trazer de volta o coração do primeiro Imperador; Ano Sinodal da Igreja Católica, a cartada para continuar vivendo num mundo de diversidades; a Guerra e seus horrores midiáticos e turísticos; Pandemia às avessas, com Carnaval fora de época e rico de novos sentidos; discurso eleitoral antecipado; o processo que apura ataques ao STF; eleições polarizadas em países da Europa e das Américas com a fala assustadora da extrema direita; a discussão sobre a liberdade de expressão em tempos de redes sociais com a compra do Twitter por Elon Musk; e a decadência das instituições jornalísticas.

É o que temos no cardápio da semana: discursos repetitivos e aparentemente errantes. Espera-se até o fim de cada dia um fato novo e alentador, mas os apresentadores sucedem-se uns aos outros falando as mesmas coisas, comentários requentados; mudam, às vezes, a maquiagem, porém a “voz é a mesma”, evidenciando a exaustiva jornada de trabalho. E o que dizer dos argumentos? Revezam-se Infectologistas, Juristas, Professores de Relações Internacionais, Economistas, e Cientistas Políticos. Não se quer negar, com isso, a presença de especialistas auxiliando o jornalismo, no entanto, com as redações reduzidas para diminuir custos, alguns “palpiteiros” ocupam demasiadamente os espaços dos jornalistas profissionais e o jornalismo de informação, comentários e opinião perde o viço e deixa de cumprir a sua função social a contento.

O mundo bruto está aqui embaixo, laboratório da estupidez, expandindo preconceitos e ódio, combustíveis da infraestrutura, do nosso “real objetivo”: “Tiro, Porrada & Bomba” (Favela Cria); desemprego, inflação e despejo; assédio de todos os tipos e desprezo por tudo que é humano, com direito à execuções sumárias; precarização do trabalho e até  “trabalho análogo à escravidão”; homens e mulheres de cabeças brancas agitando bandeiras rotas diante de seus  “ídolos”, lembrando que um dia existiu trabalho, trabalhador e o seu dia comemorativo. O desfile garboso de antes deu lugar à “multidão solitária dos vencidos”, que perderam quase tudo.

Na definição, superestrutura é aquilo que se sobrepõe à estrutura, já o conceito sociológico reúne o mundo das ideias, as instituições e os procedimentos resultantes do modo de produção da existência na vida social, aquilo que se ergue a partir da base. A “virada linguística”, o movimento filosófico e intelectual que deu ao mundo a condição de apresentar-se como “discurso”, e agora mudou a forma de representação do real. Em sua versão atual, o discurso descola-se da base, não necessita mais de referência para ser discurso, é meramente o discurso pelo discurso, sem compromisso com o real convencionado pela linguagem. A virtualidade pode conferir “verdade” ao discurso, com direito a delírio coletivo, em nome do “livre arbítrio” e da “liberdade de expressão”.

A Deposição de Cristo, por Caravaggio (1603-1604)

O mundo não acabou, estamos aqui. O que fazer com ele é responsabilidade nossa, intransferível. A fresta de luz a iluminar a caverna em que agora nos metemos parece nos cegar, com falsos discursos de fé, de ideologias ou de ciência ou, ainda, com charlatanices morais.  Resta a vida, que, mesmo em andrajos, não perde a pose, não renuncia aos direitos de pensar, de viver, de dizer e de fazer. Isso é muito mais que tudo. Haverá, portanto, coisa melhor a se construir.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.