Palavrório, de Carlos Castelo, em cinco poemas

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Este texto foi originado de uma leitura compartilhada, proposta por Dilson Lages, de poemas do livro Palavrório, de Carlos Castelo. Por isso, a limitação de cinco poemas, uma pequena amostra, em mais de sessenta. Antes, uma palavra sobre o autor.

Carlos Castelo, natural de Teresina, mora quase desde sempre em SP, onde, pouco mais que um adolescente, participou, como cofundador, da banda Língua de Trapo, figurinha carimbada da Vanguarda Paulistana, movimento que agitou a cena cultural paulista e brasileira, entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira metade da década seguinte. É fácil lembrar de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque (depois, Premê), entre outros.

O Língua de Trapo destacava-se pela iconoclastia – nas letras (muitas de Carlos Castelo) e nas músicas, como na bela homenagem à Bossa Nova “Cagar é bom”, que Joãozinho jamais gravou…

Do Língua pra cá, publicou 15 livros – de poemas, contos, crônicas e aforismos, além de ganhar cinco leões em Cannes/Propaganda e outros tantos prêmios da publicidade verde-amarela. E, para dirimir qualquer dúvida sobre seu verde-amarelismo, escreve regularmente para o saite Brasil 247.

Palavrório é um livro muito sério, a despeito do humor implícito e até mesmo, procurando bem, do explícito. Paródias e paráfrases predominam, enfatizando a intertextualidade e a metalinguagem onipresentes, como num banquete, melhor dizendo, numa feijoada bem paulistana, em plena quarta-feira garoenta, frequentada pela melhor literatura – como veremos nos poemas da amostra.

 

inacessibilidades

Sou um poema hermético

você não vai me entender

desista de interpretações

não comunicar é preciso

Inexiste SAC, meu dileto,

para inacessibilidades

Se eu lhe digo pedra

não quer dizer pedra

se eu lhe digo pedra

quer dizer pedra

Aprecia alteridade?

vá procurar seu erotismo

o babado aqui

é única

e exclusivamente

masturbação

Crítica contundente a uma poesia descolada da realidade, que fala apenas para si mesma, sem contato com o coletivo – uma reedição da “torre de marfim”, lá do dezenove, ainda tão comum no vinteum. Ao criticar essa tendência, Carlos Castelo alinha-se com uma literatura que mantém laços com a ideia de poesia como expressão do universal, em detrimento da expressão individualista, tão cara à mediocridade lírica romantiquinha – de todos os tempos.

impossibilidade

Já era difícil

Escrever poesia

Depois de Auschwitz

Imagina agora

Com tanta blitz

Conexão intertextual entre a célebre frase de Adorno, de 1949 – “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato bárbaro” –, e o momento brasileiro. Assim como criticava, também, a poesia individualista, Adorno posiciona-se contra a crítica que se confina “numa contemplação autossuficiente”,[1] e não enfrenta a reificação fascista que vampiriza os espíritos.

A conexão com o momento atual brasileiro é direta: “imagina agora / com tanta blitz”. A leitura, ao contrário do que diz o texto, deve ser feita pela via da ironia: só a poesia, melhor dizendo, só a arte pode combater a barbárie.

gregoriana

Que falta nesta nação?… noção

E pra repor prejuízos?… juízo

Melhor no lugar de excessos?… progresso

 

Chamemo-lo de abcesso

De asqueroso para além

O território que não tem

Noção, juízo, progresso

Paródia de Gregório de Matos (“Epílogos”), atualizando-o para o Brasil de hoje. Vejamos um fragmento:

Que falta nesta cidade?………….. Verdade

Que mais por sua desonra………. Honra

Falta mais que se lhe ponha……. Vergonha

 

O demo a viver se exponha,

por mais que a fama a exalta,

numa cidade onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

 

O “Boca do Inferno” critica a cidade da Bahia, a futura Salvador. Castelo expande sua crítica ao país, um irremediável e incurável abcesso. Atualíssimo.

poema tirado de uma rede social

João Peposo era entregador de aplicativo e morava no morro da

[Trempe num barracão à beira do rio

Uma noite cansou da paradeira do isolamento

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou da janela do barraco no Tietê e morreu afogado

Paráfrase-palimpsesto de Manuel Bandeira (“Poema tirado de uma notícia de jornal”), onde Castelo faz uma intervenção no poema do mais nobre inquilino de Pasárgada, que é de Libertinagem, publicado em 1930. João Gostoso, personagem de Bandeira, era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia, num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro: bebeu, cantou, dançou – depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. Substitua as partes sublinhadas e verifique porque chamei a tragédia de João Peposo de paráfrase-palimpsesto. Aliás, ele foi vítima indireta da Covid e nem entrou nas estatísticas.

augusto no jardim

Eu vi

Augusto no jardim

de infância do meu

filho numa festa junina

 

O velhinho concreto

a cabeça branca no

meio da gurizada

parecia ficção, mas era

poesia

Este poema é um primor de delicadeza, respeito e afeto. Um exemplo perfeito de lírica individual que se transforma, por força da logopeia – a dança do intelecto entre as palavras, como diria Pound, traduzido por Augusto – e assume um sentido universalizante: o sentimento imediato do poeta comunica uma vivência que se expande para corações e mentes de quem é capaz de pensar aquele quadro para além do mero significado das palavras.

A poesia de Carlos Castelo é, muitas vezes, confundida com o poema-piada, um reducionismo sem sentido. Normalmente, são assim classificados – mesmo entre Oswald de Andrade, Drummond ou Leminski – poemas que transbordam ironia e anti-individualismo, isto é, universalismo – alguns, preferem antilirismo, com o que eu não concordo, pelos motivos expostos acima. O tímido riso que Carlos Castelo nos arranca é algo entre o travoso e o amargo, porque conectado com a realidade de seu tempo. Tempo sombrio.

[1] ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. Tradução: Augustin Wernet e Jorge M. B. de Almeida. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 61.

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