Por onde andam nossos afetos

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Que bom falar de coisas boas! Afeto nunca é demais e sua falta é uma falta que nunca se cansa de reclamar. É coisa simples, mas difícil de dar, de ser aceito quando é dado e raramente correspondido. É parte da esfera pessoal e precisa ultrapassar as relações interpessoais e expandir-se para o coletivo para ser um fundamento das relações sociais.

E uma sociedade que recusa o afeto só tem um caminho: o caminho do desamor, ou como dizem os estudiosos do assunto, o caminho da dissonância cognitiva e do embotamento da alma. Como fenômeno social, um povo triste, ou como dizemos nós, “que ri para não chorar”. Isso implica abandono do indivíduo, sua exclusão radical do mundo social ou até uma alienação coletiva.

Chico Buarque, na canção A Rita,  em versos bonitos,  lembra-nos coisas dos desafetos: “A Rita levou meu sorriso/No sorriso dela/ Meu assunto…A Rita matou nosso amor/De vingança/…Não levou um tostão/Porque não tinha não/Mas causou perdas e danos/…Levou os meus planos/…O meu coração”. Basta trocar Rita por Pandemia, se o poeta nos permitir, e a paródia toma o ar “de coletivo dos desenganos e dos desafetos”. Muita coisa aconteceu e ainda estamos juntando os cacos.

Situações extremas acontecem e dolorosamente é possível ver de forma explícita, em plena luz do dia, o desamor. Em princípio, esse desamor estaria limitado às relações privadas ou de pequenos grupos. Quando afeta ou vira política pública social de estado, torna-se uma tragédia. A pandemia deixou como consequência uma crise social sem tamanho. Sobretudo para os grandes centros urbanos.

Os mais ricos e populosos do país foram os mais atingidos pelo desemprego, pela perda de vínculos familiares, por sequelas irrecuperadas e estado de miséria. Ante a falta de recursos financeiros ou até mesmo de vontade política para arranjar soluções mais dignas, buscam resolver o problema adotando “políticas higienistas”, de um passado que parecia remoto, para limpar as ruas das cidades, começando pelo chamado “povo de rua”; em parte com os aplausos dos chamados “cidadãos de bem”.

As primeiras vítimas são os drogaditos e as vítimas dos processos de degradação pessoal ou de outros processos opressores, que levam os sujeitos aos desvãos que a vida vai cavando pelas beiras, até jogá-los nos abismos. Da mesma forma, querem tanger para longe os desempregados, os desalentados e os sequelados, que acamparam em espaços nobres dos centros urbanos, lugares que nunca foram deles enquanto parte das classes subalternas; agora são intrusos.

Esta semana vimos seres humanos andando pelas ruas feito Zumbis: desesperados, aflitos e violentos, em São Paulo, com a dispersão da Cracolândia. Não é uma guerra civil, é uma guerra desigual, difícil de avaliar, porque travada entre as forças constituídas do Estado e os sujeitos indefesos, que se tornam suas vítimas. Isso vem se repetindo em outras cidades.

“A maior cidade da América Latina” não sabe o que fazer com os que ela considera o “resto” do seu corpo social. Dizem as estatísticas que são 31 mil pessoas vivendo nas ruas, vítimas de todos os fracassos sociais, que se somam aos desassistidos de todo o país, formando uma multidão.

É uma situação desagradável para os citadinos, custosa para o poder público, mas que deve ser encarada por todos, não pela ótica do egoísmo, do descaso e do desafeto, mas pela discussão de prioridades, de bom senso e de uma política de afetos que possa unir o Estado, as instituições da sociedade civil e a solidariedade coletiva.

O Brasil já praticou o “higienismo feroz” no Rio de Janeiro com a política do “põe abaixo”, para embelezar a capital da República imitando Paris, no começo do século XX; e repetiu a dose no Governo Negrão de Lima, com a “Cidade de Deus”, jogando os pobres para periferia social e geográfica. Não deu certo! Olha aí, meu irmão!…

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