Maria Gadú fala sobre trabalho na África e o pós-pandemia

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Maria Gadú conversou com Eleutério Guevane, da ONU News, sobre sua descoberta da África durante a carreira.

Eleutério Guevane: E África como é que foi para você?

Maria Gadú: São muitas Áfricas. Essa pluralidade de a gente ter a oportunidade de conhecer essas Áfricas diferentes tira também esse imaginário xenofóbico e racista que parece que a África é um país. É um continente riquíssimo. Eu senti muita diferença entre Angola e Moçambique. São países que estão geograficamente distantes. Outros mares. Eu nunca tinha ido ao lado de lá. Pela primeira, vez fui a Moçambique. Vi aquele mar, eu cruzei o continente da África e fiquei dias. Bastante tempo antes do show. Participei de umas mesas de conversa sobre entretenimento, cultura e direitos autorais. Foi muito linda aquela viagem, eu sinto muita saudade dela.

Além de Moçambique e Angola você esteve em mais países em África, certo?

Estive cantando em Cabo Verde a convite da minha amiga Mayra Andrade. A gente cantou em dois festivais em duas ilhas do arquipélago. É também um outro lugar diferente. Traz também o lado insular, uma sensação de que você está num complexo de ilhas e conhecer a cultura da Mayra, uma grande irmã. Eu sou muito fã da música cabo-verdiana, das mornas e a emoção toda de chegar no aeroporto e ver uma estátua da Cesária Évora. É muito bonita a relação da reverência da África com a própria cultura. E eu acho que aqui no Brasil você não tem. Você não vai chegar no aeroporto e ter uma estátua, mas poderia ter.

Por África comecei, Maria Gadú, para mostrar este mundo da lusofonia, o Brasil, a cultura está presente em vários cantos. Estaríamos falando de Timor-Leste, Portugal ou tantos países que no tempo da pandemia tiveram que viver música e arte de maneira diferente. Como é que você viveu sua profissão e soube conviver com ela nesse tempo?

A melhor parte de fazer show, vou te falar sinceramente, às vezes, não é nem fazer o show, é conhecer pessoas, as culturas, trocar grandes amigos e amigas pelo mundo.

Eu já vinha, há algum tempo, diminuindo o ritmo de shows porque voltei a estudar a história do Brasil, antropologia. Eu estava num trabalho muito intenso ao lado dos indígenas. Então, eu já tinha dado uma diminuída muito radical de shows, mas o zero, ele é muito significativo.

Quando a gente se vê dentro de casa, e com aquela solução que era live...  Quando você faz uma live, você faz para o país, para o mundo inteiro, qualquer pessoa pode acessar, assistir. Você faz quatro shows por semana. Então uma live é a mesma coisa que você tivesse feito todos os shows em um só. Toma bastante tempo, a sensação é como as coisas mudam muito rápido para a música principalmente.

Não dava para ficar fazendo muito. Eu fiz pouquíssimas porque também estava nesse compromisso, com fizemos coisas até com a ONU, com a gravidade da Covid no Brasil. Enfim principalmente na questão da Amazônia, mas usei minha música mais nesse sentido. Todas as lives que eram ligadas ao sistema socioambiental, eu estava na parte de organização e fazendo e colaborando com minha canção.

Estou há bastante tempo, mas a profissão, eu não sei o quê, com a sensação de que as coisas mudam muito rápido para música, principalmente. E graças a Deus, a música ainda teve mais entrada na vida das pessoas do que o teatro, por exemplo.

A arte fica sempre sendo o primeiro que perde. Eu acho que as pessoas aproveitaram. Não sei, não gosto disso, mas eu acho que as pessoas usaram esse tempo para se fortalecer, para aprofundar seus estudos e para se comprometer com outras coisas. E acho que é isso que deixou a gente conseguir chegar até aqui: muita gente lançando discos agora feitos durante a pandemia, aprenderam a mexer nos equipamentos, o que é superdifícil para a maioria de nós.

Você é um desses casos, Maria Gadú?

Esse disco eu gravei em 2019. Comecei ele um pouco antes da pandemia. E eu sabia que durante esse tempo, não sabia da pandemia, mas durante esse tempo ia passar muitos e muitos meses na Amazônia. Eu deixei metade de um disco pronto. Precisava finalizá-lo, e veio pandemia. E aí eu tive que voltar ao estúdio para mixar. Enfim, foi muito interessante.

Tive que aprender, muitas coisas, e nesse lado foi importante para mim. Achei interessante, porque é um disco que foi concebido antes da pandemia e ele sai num tempo, ele é completamente visualmente a estrutura o conceito dele, do que aconteceu com muita gente durante essa quarentena. Eu tive que produzir, tocar os instrumentos e, de certa forma, não ter recursos humanos. muitos mais. Foi uma ideia que eu tive antes e finalizei durante. É um disco que tem dois anos.

Eu já tinha dado uma diminuída muito radical de shows, mas o zero, ele é muito significativo

Mas agora é o momento de pensar, reavaliar as lições aprendidas e as inovações. Quando encontrar o seu público espalhado pelo mundo, o que é que vai levar como primeira mudança gerada por esse momento difícil? As pessoas esperavam ter música para acalmá-las e cantar alto com seu artista predileto para tal e foi diferente.

Será feito de maneira diferente, como é que vai ser o primeiro contato no Brasil e fora depois desta crise. Já pensou nisso? Sabe o que vai dizer nesse momento?

Pensei. Eu acho emocionante. Entre um intervalo e outro dessa pequena abertura que deu Brasil viveu…Cada lugar está num tempo diferente por conta do governo administrando tudo isso. O Brasil teve um tempinho de folga e eu fiz um concerto só dentro do museu. Foi gratuito em homenagem a um parceiro, um artista plástico indígena muito importante que faleceu.

Foi um concerto que veio numa semana. Em uma semana eu estava no palco. Eu não tive muito tempo de pensar nele. Eu estava já muito emocionada de cantar na  Semana de Arte de São Paulo, que é uma semana muito importante para a arte brasileira, liderada pela arte indígena. E a gente estava ali. O lugar tem muitos andares abertos. Então eu olhava para cima e via muitas pessoas. Olhava para frente e tinha pessoas.

Parece uma coisa meio mar. E foi muito emocionante, porque eu acho que, em algumas vezes, em qualquer profissão, quando a gente está muito tempo nela, a gente corre risco de deixar no automático. A gente sempre corre esse risco.  Eu  vou ali trabalhar e volto, e aí a gente vai desapercebendo algumas magias. Eu acho que esse primeiro encontro foi o acúmulo de todas as magias que eu desapercebi durante toda minha vida.

Eu fiquei desatenta no show. E a emoção? Eu estava muito frágil. Foi muito bonito, eu não vou esquecer nunca.

E o que é que esses momentos de contato direto podem voltar a trazer para você, como artista, e para o público que lhe segue? Vamos lá sonhar no pós-pandemia. Disse ainda que esteve também envolvida em várias ações da ONU. Nesta recuperação estaria capaz de trabalhar com a organização em aspectos em que já trabalhou como na conservação e preservação da Amazônia?

Para a primeira parte, eu acho que dentro desse nosso sonho e desejo que isso acabe e a gente consiga retomar de formas diferentes das nossas alegrias…A arte proporciona isso. Que isso acabe e que a gente consiga retomar nossas alegrias,  não só para quem faz, mas em todo mundo.

Eu acho que a gente volta e tem uma coisa muito doida que eu tenho reparado: que mesmo quando as pessoas tiram a máscara em um ambiente que está podendo, e tira e faz um teste, a gente tem que se acostumar a olhar no olho da pessoa. A se comunicar com ela. Isso trouxe uma reconexão entre a gente, talvez. E isso se vai levar para qualquer lugar.

A gente vai fazer um show e as pessoas talvez saiam um pouco mais do celular. As pessoas estavam absorvendo as coisas com muitas etapas. Você filmava o show e assistia pela tela do teu telefone com a pessoa ali na frente.

É muito bonita a relação da reverência da África com a própria cultura

Acho que talvez a gente consiga ficar mais inteiro nas experiências que a gente vai ter. Eu espero isso porque é realmente muito bom. Sobre esse trabalho contínuo, com certeza. No final do ano, eu fui à COP26 em Glasgow. Passamos uma semana e meia acompanhando as programações internas e externas. Marchamos com a moçada do Planning for future. Marcha com povos indígenas da América. Fizemos algumas mesas muito importantes. Eu estou sempre disponível para o front. Minha vida é primeiro o front e minha arte é um instrumento para isso tudo. Se eu tiver que gravar cinco dias falando disso vou gravar cinco discos falando sobre isso.

Estou muito ansiosa e me preparando para este ano no Egito. A arte para mim é um veículo disso. Que esse ano, a gente consiga movimentar escolhas com essa arte.

Foi um prazer muito grande conversar com você, Maria Gadú. Todos querem que a pandemia fique para trás. Que inovação, lições e outras questões que resultaram nos ajudem a avançar para a temporada que se segue. Algo mais que queira acrescentar?

Não, só agradecê-lo pelo convite para essa conversa. Dizer que meu desejo de voltar a fazer, de conhecer o mundo é muito grande. A melhor parte de fazer show, vou te falar sinceramente, às vezes, não é nem fazer o show, é conhecer pessoas, as culturas, trocar grandes amigos e amigas pelo mundo. Eu estou com muita saudade dessas pessoas que ia voltar abraçar, comer e cantar.

Que a gente respeite as restrições quando elas vêm para que isso acabe o mais rápido possível e a gente volte a estar junta. Muito obrigada pelo convite para o papo. Espero que a gente na próxima conversa esteja pessoalmente. Que a gente possa dar um abraço, conversar e tomar um café.

Foi um prazer muito grande. Obrigado.


Fonte: ONU News

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