O casamentos da Flor do Kaiambé

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Às vésperas do Natal de 2.014 tomamos um barco/recreio Sagrado Coração, que cobre o trecho Manaus-Tabatinga-Manaus, com o fim de passar o período natalino com a família da esposa, que é oriunda do rio Içapó, afluente do rio Jutaí, município do mesmo nome, no médio rio Solimões.

Durante a viagem, passamos grande parte do tempo no terceiro passadiço por ser o local que possui o lanche, música e bebidas, inclusive, alcoólicas.

Nesse local travamos conhecimento com uma velha indígena pertencente à etnia Kokama, de setenta anos, aproximadamente, ávida para falar. Passamos várias horas ouvindo, com muita paciência, aquela senhora que nos contou o seguinte caso:

Meu nome é Caua do Carmo da Cruz, mas sou conhecida como Flor do Kaiambé. Tenho setenta anos, resido na aldeia Kaiambé, hoje, rebatizada de São José, no município de Santo Antônio do Içá, no rio içá.

Quando eu tinha quatorze anos, novinha em flor, daí veio meu agrado que prezo muito. Eu tinha tudo no lugar. Era a cunhã mais desejada da aldeia.

Eu tinha um primo, Wazo Pituna do Carmo, que cresceu comigo e por quem me apaixonei desde cedo. Meu sonho era ser sua mulher até a velhice me levar para a ancestralidade.

Acontece que meu pai, Manduca do Carmo Cruz, era o capataz do seringal Filadélfia e queria me casar com o filho do patrão dele, para melhorar sua relação negócios. Eu não queria, claro. Eu queria ser mulher do meu primo Wazo Pituna, bonito de corpo, forte, jovem, bom farinheiro, bom pescador, bom caçador.

Mas no fim, prevaleceu a vontade do meu pai. Homem de palavra, que decidiu unilateralmente e, naquela época era assim mesmo: eu seria a esposa do filho do patrão, que eu nunca vira ainda, não sabia como ele era, mas era o filho do patrão.

Após receber a decisão do meu pai, fui escondida até a roça, onde meu primo estava roçando e lhe disse:

– Wazo, o papai decidiu que eu vou casar com o filho do patrão e eu devo obedecer. Você sabe como é, sou mulher e o nosso papel é aceitar e cumprir a decisão.

Meu primo e amor verdadeiro respondeu:

– Eu não vou deixar. Vou falar com o vovô Cajuiri, que também é o nosso pajé. Aguarda pelo vovô.

E assim ele fez. Cajuiri, o velho sensato da comunidade, após ouvir os argumentos do Wazo, disse:

– Não tem saída. O patrão é muito rico. Ele manda, ele é o dono do seringal. O pai da Flor é apenas o “chefinho” dele aqui no Filadélfia e que quer apenas melhorar sua situação política e financeira com o patrão “vendendo” ou fazendo esse “casamento arrumado” com o filho do patrão. E olha meu neto querido, não vai roubar e nem fugir com a menina, pois o pai dela é capaz de mandar te caçar com os papos amarelos (refle calibre 44), e aí vai ser muito pior pra ti e para ela. Vamos aguardar a chegada do patrão com seu filho para ver se eles recusarem o pedido do pai de Caua. Só eles podem recusar. Mas acho difícil eles recusarem, porque Flor é muito bonita e o filho do patrão pode querer ficar com ela, pela beleza dela, e garantir uma aliança política aqui, no rio Içá. Mas duvido que ele vá levar a Flor, como sua esposa para Manaus, onde moram. Ele vai deixar ela aqui e ela será a mulher dele daqui, doo rio Içá. Aguarda e não vai fazer besteira.

Wazo ficou sem esperanças ao ouvir o velho Cajuiri, mas, mesmo assim, num fio de voz, balbuciou:

– Kuekatu eretê vô (muito obrigado, vovô). E foi contar à Flor, chorando em seus braços, o que acabara de ouvir. O casal chorou do início ao fim do encontro.

– Flor meu amor, vamos fugir, vamos para o Peru, vamos subir o Içá, temos parentes lá no Putumaio, tenho canoa, tenho os remos, tenho forças para remar quatro dias, eles vão nos ajudar, vão nos dar terra para a gente plantar e viver, não fique triste não, vai ter um jeito de a gente viver juntos. Disse Wazo à Flor, que lhe respondeu:

– Nem pense nisso. Eles têm capangas armados e eles irão atrás da gente e quando te pegarem vão te encher de chumbo e me trazer de volta, ou até me matar. Não, fuja, não!

Wazo não aceitava o conformismo de Flor.

No dia da chegada do patrão com seu filho, a notícia correu: o casório estava confirmado e a noite seria de festa, regada a muita cachaça. Wazo, à beira da loucura, pensou:

– Vou matar o filho do patrão; fugir com Flor para o Peru. Qualquer coisa, menos esse casamento.

E mandou sua tia preparar um pote de caiçuma, para beber no fim da tarde com os amigos antes de tomar uma decisão.

No outro dia bem cedinho, foi abicorar a casa da prima. Ela já estava nas margens do rio, no porto da aldeia, lavando roupa juntamente com a mulherada.

Assim que elas começaram a levar as roupas e colocar em cima da grama para cuarar ao sol, Wazo saiu do mato com um terçado na mão esquerda, esgoelando o nome da Flor. As mulheres perceberam o desespero do rapaz que, fora de si, poderia fazer uma besteira com qualquer uma delas. Umas correram para o mato e outras se deixaram levar pela correnteza rio abaixo.

O rapaz corria de um lado para o outro, gritando como doido. Flor, tranquila, sentou-se sobre um monte de roupa suja. Wazo chegou, olhou para Flor, não falou nada. Pegou uma peça de roupa, meteu o terçado nela fazendo-a em tiras. Amarrou e amordaçou a prima. Depois colocou-a sobre o ombro e embrenhou-se no mato.

Antes do meio-dia Flor apareceu no terreiro de sua casa, toda machucada, mas parecia feliz. Wazo a tinha possuído à força. Desconfiada não reclamou nada, para ninguém. Falou apenas ao seu pai o que ocorrera e estava firme à espera do seu destino.

O pai da menina, após o almoço, contou todo o ocorrido para o patrão, que, como num passe de mágica, não se importou com isso. Não tomou nenhuma decisão drástica para coibir os excessos de Wazo. Parece até que, para ele, foi um alívio, pois nessa altura dos acontecimentos, o patrão queria mesmo era o caucho e a seringa.

 

Nessa época era tradição o patrão seringalista ficar com a noiva na primeira noite. Mas como um pai faria isso com seu filho? Para ele, foi um alívio: sem casamento, sem obrigações extras de patrão envolvendo o próprio filho.

De tarde, Wazo chegou à comunidade, desconfiado de que seria punido. Mas, até a boca da noite, nenhuma punição se apresentou.

Ele pegou seus apetrechos de pesca, sua canoa e rumou para o lago. Voltou após a meia-noite com a canoa repleta de peixes. Ele pegou uma enfiada grande de pescado e foi até a casa do pai de Flor. Chegando lá, chamou pelo tio, que lhe abriu a porta sem cerimônia:

– Entra meu filho. O que te traz aqui?

– Trouxe peixe para a Flor preparar para gente. Estou com fome, cansado, com sede. Amanhã vou levar Flor para morar comigo. Quero ela como minha mulher! Por favor, não diga que não. É tudo que nós queremos, todos sabem desse nosso desejo aqui no Kaiambé.

O pai de Flor, chamou-a e mandou ela preparar os peixes. Ela, chorando, foi tratar os peixes. Depois serviu os peixes aos presentes, que chegaram para comer e conversar. Todos pareciam felizes com o final, menos Flor, que continuava chorosa.

Wazo perguntou lhe então.

-– Porque vc ainda está choramingando? Já passou, amanhã você será minha mulher. Não era isso que você queria?

 

Ela respondeu:

– Sim, só que não precisava amarrar minha boca, sua porcaria! Pois, eu queria estar com a boca livre para te beijar!

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