Deus e os deuses do panteão indígena.

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Há 520 anos a terra chamada pelos povos indígenas do tronco cultural Tupi, Pindorama, a Terra das Palmeiras, foi invadida pelos navegadores portugueses e espanhóis.

Os invasores eram cristãos católica, cuja maior autoridade espiritual, política e econômica, naquela época, era o Papa que, com mão de ferro a exercia em nome de Cristo, o grão-mestre do cristianismo.

Esses invasores eram dotados de extrema ganância e exploraram até a exaustão os recursos naturais de pau-brasil da nova terra no afã de ficar ricos da noite para o dia. E recorreram a todos os métodos “desumanos” para domar os espíritos (as almas) dos nossos avós, que viviam livres sob as leis da selva (código código social do Jurupari, no caso do noroeste amazônico) que os animava e os alimentava … Daí a impiedosa investida em nome do Deus Cristão ocidental, desconhecido pelos antigos donos destas terras, com as catequeses impositivas dos missionários católicos, que, movidos por moedas de ouro e prata, não mediram esforços para prestar seus serviços em favor das conquistas das novas terras por seus países.

A cruz

E para se dar essa conquista valia tudo: espada, fogo, doenças, crucifixo e o sangue dos descobertos (os povos indígenas). Por isso não temos dúvidas que uma parcela de missionários (nem todos) têm significativa culpa no processo de expropriação territorial e de deculturação dos povos nativos das novas terras que hoje chamamos de Américas.

E se tivéssemos sido invadidos por árabes, de religião mulçumana, cujo Deus é chamado de Alah, nós hoje seríamos mulçumanos sem a menor sombra de dúvida. O mesmo vale, se tivéssemos sido colonizados pelos budistas, seríamos budistas. E hoje estaríamos defendendo, na Internet, a fé e a crença de qualquer um desses conquistadores, caso tivéssemos sido colonizados por um deles, como o fazemos com a Bíblia e a fé dos cristãos.

Mitologia e a apologia religiosa

E as culturas, as crenças, as mitologias, o telurismo da terra-mãe e a espiritualidade dos povos indígenas quem as defende? Infelizmente, o que mais se vê são indígenas dos mais variados povos, orar, rezar, oblar, bendizer, cantar, clamar e defender o Deus ocidental judaico/cristão, posto que quase todos somos cristãos, (católicos ou protestantes), pois somos o reflexo dos nossos conquistadores.

Segundo alguns poucos livros de história, os invasores que vieram para as Américas, eram infelizmente da pior qualidade como gente. Eram os indesejados na Europa. A raiz de nossa sociedade assim nasceu, essa foi a nossa matriz social. Copiamos tudo de pior dos que aqui chegaram como soldados, senhores e colonos conquistadores. Como exemplo, citamos o mestre Darcy Ribeiro, in Diários Índios, que transcreve a narrativa do povo Urubu Caapor: “Após aquele cura” andar entre a nossa gente, nossas mulheres começaram a cuspir sangue”. Numa referência às andanças do hoje santo José de Anchieta entre esse povo indígena, que segundo o autor, Anchieta veio para o Brasil para não colocar em risco a saúde das damas da corte portuguesesa, posto que estava contaminado pelo bacilo da tuberculose.

Tendo como espelho essa sociedade, não dá para estranhar os desvios: religioso, moral, econômico, social e político de nossa gente, principalmente, da nossa elite que se coloca como espelho social.

Por isso não podemos defender os maus cristãos: os maus empresários que se comprazem com os lucros unilaterais de seus empreendimentos; os amigos que se dizem amigos, mas que querem  levar vantagem em todas as situações sobre os demais amigos; os maus religiosos que vendem a fé de um Divino que não se pode vender, ou que praticam egoisticamente a satisfação de seus desejos íntimos e não a dos seus comunitários; e, os maus políticos que se vendem e não pensam e não obram pelo bem estar da sociedade.

Hoje defendemos diuturnamente a busca espiritual do bem viver de uma sociedade irmã; a comprazia da celebração da paz entre todos os homens; de poder preparar e repartir o pão da terra com todos ao redor da fogueira; e, não porque o Deus ocidental manda, mas porque essas são necessidades intrínsecas da natureza (humana) dos povos nativos dos lavrados, das serras, das beiras dos rios e das florestas. São os mandamentos sociais e culturais de jurupari, portanto, mitológicos, sob os quais nossos antepassados viviam antes da chegada dos cristãos.

Canto de gratidão

Faz escuro, mas sigo cantando, clamando e aclamando Tupã (do povo Tupi), Tupana (do povo Saterê), Karu Sakaibü (do povo Munduruku), Omassiwë (do povo Yanomami), Yepá Buró (do povo Dessana), Yepá Mashã (do povo Tukano), Negtupá (do povo Tikuna), … Todos onipresentes do Divino, presentes no meu panteão indígena!

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